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BRASILIENSES DE 2016 | Sérgio D'ávila »

Um ativista da esperança

Psicólogo gaúcho trouxe sua experiência de trabalhos no Gapa e na Secretaria de Saúde de Porto Alegre para ajudar a combater os avanços das doenças sexualmente transmissíveis no DF

Teresa Mello - Publicação:19/01/2017 10:17Atualização:19/01/2017 11:09
SAÚDE
Sérgio D'Ávila comemora as boas notícias sobre o combate ao HIV/Aids: 'Graças ao avanço das pesquisas e à bem-sucedida trajetória brasileira no setor, é possível conviver com o vírus' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Sérgio D'Ávila comemora as boas notícias sobre o combate ao HIV/Aids: "Graças ao avanço das pesquisas e à bem-sucedida trajetória brasileira no setor, é possível conviver com o vírus"
 
“Entreguei muitos resultados positivos para pessoas que não sabiam o que era Aids.” A lembrança da década de 1990 é do gerente de DST/Aids da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, o psicólogo clínico e servidor público Sérgio D’Ávila. Naquela época, a doença carregava uma sentença de morte. Hoje, graças ao avanço das pesquisas e à bem-sucedida trajetória brasileira no setor, é possível conviver com o vírus. Os registros apontam que 93% dos pacientes em tratamento no DF apresentam carga viral não detectável. O difícil mesmo é lidar com o preconceito: “Se o doente tem câncer, todos lhe desejam força, mas, se tem Aids, especula-se como ele pegou. Se é homem infectado, porque é gay e fez sexo com muitos homens. Se é mulher, porque é promíscua”, diz o especialista.

O estigma acompanha, como uma sombra, os passos de 11 mil pessoas no DF. São mil novos casos por ano. Quem faz tratamento na rede pública tem à disposição 11 postos de referência, entre ambulatórios, centros de saúde e hospital-dia. “Temos 30 tipos de medicamentos antirretrovirais”, informa o gerente de saúde. “O cenário hoje é diferente, as pessoas estão se descuidando, principalmente os jovens, porque acham que a doença tem cura”, afirma. “Aids não tem cura, a epidemia ainda existe. A diferença é que é tratável”, completa.

Durante um ano e meio, o psicólogo trabalhou no Centro de Testagem e Aconselhamento na Rodoviária do Plano Piloto. Função: entregar resultados de HIV. Viu gente chorar de alegria no chão, enquanto outros duvidavam da resposta negativa: “São pessoas que transaram sem camisinha ou que têm culpa por serem casadas, levarem vida dupla e acreditam que merecem pegar o vírus como castigo”, analisa.

O interesse pelo tema fisgou o jovem Sérgio ainda na universidade em Porto Alegre, no início dos anos 1990, década mais crítica da doença. Começou como voluntário no Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa) e no ambulatório da Cruz Vermelha, onde lidava com dependentes químicos. “Era uma época em que as pessoas se descobriam com Aids já muito doentes, poucas sobreviveram”, lamenta. “Perdi muitos pacientes e companheiros de voluntariado.”

No consultório, o psicólogo continuou o trabalho com doentes de Aids e dependentes de drogas e viu, com esperança, a chegada dos primeiros medicamentos para combater o HIV. Ingressou no ativismo e participou de passeatas, seja para que os planos de saúde cobrissem os custos do tratamento, seja para pedir políticas públicas. O Dia Internacional de Luta contra a Aids, celebrado em 1º de dezembro, não passava em branco: “Lembro que, no Parque Farroupillha, montamos um tapete vermelho com centenas de pares de calçados, simbolizando as pessoas que morreram com a doença.”

Em Brasília desde 2003 – para onde se mudou com a mulher a fim de trabalhar no Ministério da Saúde –, Sérgio gosta até mesmo do clima da cidade. Sem falar na luminosidade e no céu. “Comprei meu primeiro telescópio aqui”, conta ele, que aproveita o Eixão e os parques da Cidade e Olhos d’Água nos momentos de lazer com a família. “Sou um morador inveterado da Asa Norte.”
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017