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CIDADE | Água »

A ordem é economizar

Uma das piores da história, crise hídrica do DF mudou a vida dos brasilienses. Famílias, empresas e até clubes consomem menos água para que ela não falte no futuro

Thiago Soares - Da redação Publicação:03/03/2017 11:34Atualização:03/03/2017 11:51
Barragem de Santa Maria está apenas com 40% de sua capacidade: pouca chuva em 2016 (Renato Araújo/Agência Brasília)
Barragem de Santa Maria está apenas com 40% de sua capacidade: pouca chuva em 2016
Se antes a água era um item abundante no Quadradinho idealizado por Juscelino Kubitschek, atualmente é alvo de escassez. O cenário veio se agravando ao longo do ano passado, e já no início do 2017 a população sentiu de vez o impacto dos reservatórios abaixo do nível considerado suportável. O primeiro fator a pesar foi no bolso, com a tarifa extra, e logo depois veio o temido racionamento. A esperança era de que com as primeiras chuvas de verão os reservatórios de Santa Maria/Torto e Descoberto recuperassem os níveis.

Não foi que ocorreu. A última barragem responsável por 60% do abastecimento do DF beirava apenas os 20% de sua capacidade no começo deste mês de fevereiro, enquanto o outra operava num nível de 40% para abastecer cerca de 20% da capital do país. A primeira medida do governo do Distrito Federal veio com a implantação da tarifa de contingência – uma taxa de 40% na conta para quem usar mais de 10 mil litros por mês. Com isso, somente em um único mês, a Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb) arrecadou 2,4 milhões de reais na cobrança de mais de 112 mil usuários. A promessa agora é de investir em futuras obras do setor.

Mas isso não tem sido o suficiente. Logo em janeiro, deu-se início ao rodízio de água para as regiões abastecidas pelo Descoberto, que chegou ao nível mais crítico da história – 18,94% da capacidade. Isso significou que, a cada período de seis dias, uma região passou a ficar um dia sem água e mais outras 24 horas esperando o restabelecimento da distribuição. Águas Claras foi uma das atingidas. O condomínio onde mora o servidor público Ângelo dos Santos, de 40 anos, e a jornalista Isabel Fernandes, de 36, foi um dos impactados com a medida. “Ficamos um pouco apreensivos com a situação, mas não chegamos a ficar sem água. O prédio onde moramos possui reserva suficiente para abastecer os apartamentos durante o período em que a Caesb corta a distribuição”, explica Ângelo.

O meteorologista Hamilton Carvalho, do Instituto de Meteorologia, explica que em janeiro choveu 41% abaixo da média do mês: 'Se não chover mais, a situação pode ficar ainda mais prejudicada no período de seca' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
O meteorologista Hamilton Carvalho, do Instituto de Meteorologia, explica que em janeiro choveu 41% abaixo da média do mês: "Se não chover mais, a situação pode ficar ainda mais prejudicada no período de seca"
Um fator determinante para a boa adaptação do casal foi a mudança de hábitos anteriores aos primeiros indícios de que poderia faltar água no DF: “Foram mudanças de pequenas atitudes, como lavar a roupa apenas uma vez na semana. Antes, fazíamos esse serviço com maior frequência. O banho da família também já não é tão demorado”, explica o servidor público, que tem um filho de 18 anos. “São alguns hábitos que já adotávamos, mas que agora, com o racionamento, fazemos com mais intensidade na tentativa de economizar água”, completa.

O racionamento em Brasília fez com que a captação de água na Barragem do Descoberto diminuísse em 14%, ou 258 mil litros por semana – além dos 10% previstos pela Caesb, que teve apoio da comunidade. “Reduzimos a retirada de água e temos de reconhecer que o rodízio contribuiu para isso”, afirma o presidente da companhia, Maurício Ludovice. Mesmo com a economia, o órgão também teve de reduzir a pressão da água em localidades abastecidas pelo reservatório do Santa Maria/Torto. Isso inclui áreas como Plano Piloto, Lago Sul e Norte – locais onde o rodízio não é descartado pela Caesb. “O fundamental é economizar”, resume Ludovice.

Para o presidente da Caesb, Mauricio Ludovice, as medidas tomadas pela companhia não são suficientes se a população não ajudar: 'O fundamental é economizar' (André Borges/Agência Brasília )
Para o presidente da Caesb, Mauricio Ludovice, as medidas tomadas pela companhia não são suficientes se a população não ajudar: "O fundamental é economizar"
A época mais movimentada das piscinas também chegou com algumas alterações nos clubes de Brasília. Com a pouca água no Distrito Federal, os administradores decidiram contribuir com a situação hídrica local, mudando alguns sistemas operacionais e educando os frequentadores. No Minas Tênis Clube, por exemplo, a direção tomou o cuidado de substituir mangueiras e torneiras, a fim de evitar o desperdício com vazamentos. “Além dessa medida, passamos a controlar a lavagem das áreas comuns. Antes, era um serviço semanal, agora é mensal”, diz Márcio Rodrigues, diretor da unidade. Com pouco mais de 4 mil associados, o projeto do clube também é avançar com campanhas educativas: “A intenção é fazer com que as pessoas desperdicem menos na hora do banho no vestiário e na utilização de torneiras”.

Em outra região do lago Paranoá, o Cota Mil Iate Clube desenvolveu um trabalho de conscientização com os mais de 700 associados. Por meio de informativos, os usuários foram orientados a reduzir o tempo nos banhos, principalmente nas duchas com grande vazão de água. No plano de ações implantadas, os frequentadores passaram a ser fiscalizadores e, caso percebam qualquer vazamento nos encanamentos e torneiras do clube, podem sinalizar os administradores para troca imediata: “Diante dessa crise hídrica, não podíamos fechar os olhos. Desenvolvemos essa campanha e a consequência foi um retorno imediato. Já tivemos uma redução no valor da conta de água”, conta o superintendente, Luismar da Mata.

O casal Isabel Cristina e Angelo dos Santos mudou sua rotina com o racionamento: 'Foram pequenas atitudes, como lavar a roupa apenas uma vez na semana. Antes, fazíamos esse serviço com maior frequência', diz ela (Vinícius Santa Rosa/Esp.Encontro/DA Press)
O casal Isabel Cristina e Angelo dos Santos mudou sua rotina com o racionamento: "Foram pequenas atitudes, como lavar a roupa apenas uma vez na semana. Antes, fazíamos esse serviço com maior frequência", diz ela
Os espaços públicos também foram afetados com a nova realidade. A crise hídrica alterou o funcionamento da fonte luminosa da Torre de TV de Brasília. Considerado um dos principais cartões-postais da capital brasileira, a estrutura teve o funcionamento reduzido, de 11 horas para 6,5 horas diárias, ou 40% a menos do programado para épocas normais. Já na questão dos jardins e canteiros da capital do país, o governo diminuiu o tempo de irrigação. Outra medida foi a substituição de flores por plantas perenes e grama, espécies que não necessitam de manutenção frequente.

E se as chuvas podem ajudar a mudar a situação de Brasília, as notícias não são as melhores. De acordo com o Instituto de Meteorologia (Inmet), em janeiro choveu apenas 145,7 mm, ou seja, 41% abaixo da média do mês (247,4 mm). Esse cálculo preocupa o meteorologista Hamilton Carvalho, uma vez que dezembro, janeiro e fevereiro são considerados os meses com maiores precipitações. “Para ajudar a situação dos reservatórios deveria chover muito para equilibrar. Isso se dá por fenômenos naturais. Numa sequência de dois anos ou mais observamos uma redução nas chuvas em Brasília. Se não chover mais, a situação pode ficar ainda mais prejudicada no período de seca”, explica.

Lago Paranoá pode ser uma solução para o abastecimento em tempos difíceis: vazão de mais de 2 mil litros por segundo (Ed Alves/CB/DA Press)
Lago Paranoá pode ser uma solução para o abastecimento em tempos difíceis: vazão de mais de 2 mil litros por segundo
A falta de chuvas também preocupa o presidente do Comitê da Bacia do Paranoá, Jorge Werneck: “Não prevíamos que iria chover tão pouco. Atualmente, as chuvas ocorrem em espaços longos de 15 dias e não são suficientes para armazenar água no solo. É esse processo que faz com que, no período de seca, o DF continue com água”. Na visão do especialista, é preciso investir mais no abastecimento de água na capital. “Hoje, não conseguimos prever quando vamos sair dessa crise hídrica. Devemos pensar no futuro do DF. Ele vai continuar crescendo cerca de 60 mil habitantes por ano? Nossos rios não têm capacidade de suporte para aguentar essa carga, pelo fato de serem pequenos. Por isso são necessários investimentos”, diz.
 
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017