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GASTRÔ | Negócios »

A vez dos contêiners

Com tempo recorde de implantação, possibilidades de baixo custo de manutenção e operação dinâmica, o conceito tem invadido a gastronomia da capital

Jéssica Germano - Redação Publicação:06/03/2017 09:35Atualização:08/03/2017 10:37
Primeiro, foram os food trucks. Na sequência, food bikes seguiram pela mão da tendência de levar comidinhas e guloseimas aos eixos brasilienses. Em tempos de renovação de produto e clientela, marcas gastronômicas vêm apostando cada vez mais no modelo que funciona entre o meio-termo para restaurantes e iniciativas móveis. Inspirados na identidade visual dos contêineres marítimos, três negócios gastronômicos já fincaram o pé na capital apostando no conceito de módulo rápido, descolado e mais barato do que a maior parte das construções.
 (Gerson Lima/Divulgação)

“Além de ser sustentável e uma alternativa mais barata, é incrível visualmente”, afirma Renata Carvalho, sobre as vantagens do contêiner galvanizado (de aço revestido com camada fina de zinco), que comprou em 2015, depois de ter sido usado na construção do estádio Mané Garrincha. Instalado no fundo do Ancho – Bistrô de Fogo da 306 Sul, há pouco mais de um ano, a possibilidade não só serviu como modelo mais informal e em conta de negócio, como chamariz para novos frequentadores. Renata explica que o formato foi batizado de Bar dos Fundos e é formado apenas pelo módulo de 6 m x 2,30 m, pintado em cor amarela, com algumas prateleiras, itens de bar e bancos altos. Uma estrutura que custou a ela um total de sete mil reais de investimento. “Nesses moldes, é mais barato, sim. Está pronto”, diz, referindo-se a alicerces permanentes. 

A chef e empresária lembra que a escolha funcionou também como solução para a famosa “lei dos puxadinhos”, que na época não permitia construções para além de determinados limites físicos das lojas. A resolução deu tão certo que aos poucos o bar ganhou espaço fixo no cardápio da casa oficial, criando base para a seção de “Picadas”, da qual saem comidinhas mais rápidas. “As pessoas gostam muito por ser ao ar livre”, segundo Renata, outro ponto que tem falado alto aos comerciantes.
A chef Renata Carvalho no seu Bar dos Fundos, instalado no Ancho - Bistrô de Fogo: 'Além de ser sustentável e uma alternativa mais barata, é incrível visualmente' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A chef Renata Carvalho no seu Bar dos Fundos, instalado no Ancho - Bistrô de Fogo: "Além de ser sustentável e uma alternativa mais barata, é incrível visualmente"

Podendo funcionar em até quatro formatos – marítimo, galvanizado, especial e híbrido, com outros materiais na instalação –, os contêineres têm cada vez mais surpreendido pela inovação (veja os prós e contras de cada um no box). O modelo mais tradicional é o que tem a função original de transporte de cargas em portos e acabou tornando-se uma escolha sustentável e despojada para depósitos, alojamentos e até escritórios. O engenheiro mecânico Tarcísio Adorno, responsável pelos projetos da Mehta – Soluções Modulares, pondera, entretanto, a questão do uso permanente para esse tipo de instalação. “Ele não foi feito para ser um ambiente habitável”, explica, salientando detalhes como falta de isolamento térmico e dificuldade de coleta de água. 

O modelo galvanizado também acabou um pouco ultrapassado para fins comerciais devido à fragilidade e dificuldade de manutenção. Foi vendo esse nicho de mercado que a empresa, especializada em venda e locação de contêineres há 13 anos, desenvolveu o tipo especial. Acoplável e três vezes mais leve que o marítimo, o módulo é fabricado do zero e pode ter layout personalizado, de acordo com o objetivo do cliente. Nesse caso, permanece um dos pontos mais vantajosos desse tipo de instalação para os investidores do ramo alimentício: o fato de ser transportável para qualquer lugar e ter tempo recorde de execução – uma área de 140 m² chegou a ser implementada em apenas sete dias.

Inaugurado no início de dezembro de 2016, onde funcionava uma loja de conveniências para o posto de gasolina do Eixinho L, na altura da 204 Norte, o Páprica Burger apostou na mescla. Com estrutura interna em alvenaria, a marca escolheu o material de contêiner para revestir todo o negócio. “Antes de definirmos exatamente que teríamos um estilo nova-iorquino, o Páprica chegou a ser pensado com o estilo americano de interior, daquela parte da Rota 66, dos postos de combustíveis”, conta Bruna Prieto, chef e sócia-proprietária da lanchonete. Assim, a ideia final foi remeter os clientes para as autoestradas dos Estados Unidos. É nessa atmosfera que saem do balcão combos compostos por hambúrgueres artesanais, milk-shakes e tubérculos fritos. “Definimos que será algo que fará parte da marca, sempre com o visual de contêiner envolvendo a loja e com essa proposta mais solta”, afirma Bruna. 

Em se tratando de operação, a chef diz que não sente diferença alguma em relação ao molde tradicional de comércio. A diferença pode estar na versatilidade que um contêiner proporciona. Do lado externo do posto, por exemplo, dois módulos menores servem para estoque e refrigeração de alguns produtos. “Ele nos ajudou muito para aproveitar o espaço que nós não temos”, diz Bruna. “Com isso, conseguimos nos organizar melhor.”
Uma das sócias do Páprica Burger, a chef Bruna Prieto explica a origem da casa: inspirada no estilo das lanchonetes de postos de gasolina do interior dos Estados Unidos, na região da Rota 66 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Uma das sócias do Páprica Burger, a chef Bruna Prieto explica a origem da casa: inspirada no estilo das lanchonetes de postos de gasolina do interior dos Estados Unidos, na região da Rota 66

Em Águas Claras, a primeira patente a levar o conceito modular foi o Madero, até então em Brasília apenas em configuração de steak house. Segundo Junior Durski, chef e presidente do negócio, a ideia veio em 2014 ao deparar com fatores legais que o food truck da marca enfrentava no interior do Paraná. Ao optarem por deixar o veículo fixo em um posto de gasolina, perceberam a demanda pelo mercado de restaurantes, especialmente nas estradas, e investiram no modelo. Assim, como já comum no Madero, a solução virou caso de sucesso. Hoje, 26 pontos espalhados em ruas pelo Brasil levam o nome da casa com uma sustentação híbrida de contêiner reciclado, madeira e ferro. Só na sede brasiliense a junção de oito contêineres serve para atender até 123 pessoas em 350 m². 

Após estudos detalhados de mercado, a empresa conseguiu enxergar claramente as vantagens de investir na estrutura versátil. Tanto que o grupo pretende inaugurar 24 Maderos Container só em 2017 pelo país. “O custo de implantação é um terço dos gastos com um restaurante tradicional”, afirma Durski, justificando o projeto audacioso. “O operacional também diminui de forma significativa e o quadro de funcionários chega a ser 75% menor.” Esse segundo ponto ocorre ainda pelo tipo de serviço que escolheram operar. Nessas lojas, apenas sanduíches são servidos e com o pedido sendo feito diretamente no caixa, retirado pelo próprio cliente. 
Junior Durski, chef e presidente do grupo que pretende inaugurar 24 Maderos Container no Brasil neste ano: 'O custo de implantação é um terço dos gastos com um restaurante tradicional' (Nilo Biazzetto Neto/Divulgação)
Junior Durski, chef e presidente do grupo que pretende inaugurar 24 Maderos Container no Brasil neste ano: "O custo de implantação é um terço dos gastos com um restaurante tradicional"

O fator tempo é outro a aparecer no topo de benefícios para a rede que nasceu no Sul do país. “Nas nossas estruturas, um restaurante tradicional leva em média quatro meses para ficar pronto, enquanto o projeto do contêiner precisa de apenas 21 dias para ser executado”, destaca o empresário. Além disso, para os investidores, a infraestrutura se desenrola como uma obra “limpa”, com redução significativa de resíduos. 
 
E os representantes na cena gastronômica não devem parar de aumentar. A grife de carnes e food trucks El Negro já projeta uma operação nesses moldes. “Achamos que ter um local físico para uma hamburgueria seria interessante. E a ideia do contêiner é algo que me agrada”, conta o proprietário João Clerot, que, até o fechamento desta edição, estava em fase de negociações para implementar a nova versão da marca.
 
TIPOS DE CONTÊINERES
Entenda a diferença entre modelos do mercado
 
MARÍTIMO
Tamanho: 6,06 m por 2,44 m
Custo médio: R$ 18 mil
Peso: 2,400 t
Prós: resistência, possibilidade de empilhamento e vida útil elevada
Contras: falta de isolamento térmico ou de coleta de água, e necessidade de laudo de descontaminação de carga (Divulgação)
MARÍTIMO
Tamanho: 6,06 m por 2,44 m
Custo médio: R$ 18 mil
Peso: 2,400 t Prós: resistência, possibilidade de empilhamento e vida útil elevada
Contras: falta de isolamento térmico ou de coleta de água, e necessidade de laudo de descontaminação de carga
GALVANIZADO
Tamanho: 6 m por 2,30 m
Custo médio: R$ 7 mil
Peso: entre 400 kg e 900 kg
Prós: é mais leve que o marítimo, pode ser reutilizado e tem facilidade de transporte
Contras: não é recomendável para exposição ao sol e tem estrutura mais frágil, que pode permitir vazamentos ou corrosões (Divulgação)
GALVANIZADO
Tamanho: 6 m por 2,30 m
Custo médio: R$ 7 mil
Peso: entre 400 kg e 900 kg
Prós: é mais leve que o marítimo, pode ser reutilizado e tem facilidade de transporte
Contras: não é recomendável para exposição ao sol e tem estrutura mais frágil, que pode permitir vazamentos ou corrosões
ESPECIAL
Tamanho: 6,12 m por 2,44 m
Custo médio: R$ 25 mil
Peso: cerca de 800 kg
Prós: acabamento superior à série de marítimos, possibilidade de empilhamento, variedade de modelos e conforto térmico
Contras: por ter isopor na constituição das paredes, possui segurança mais frágil  (Divulgação)
ESPECIAL
Tamanho: 6,12 m por 2,44 m
Custo médio: R$ 25 mil
Peso: cerca de 800 kg
Prós: acabamento superior à série de marítimos, possibilidade de empilhamento, variedade de modelos e conforto térmico
Contras: por ter isopor na constituição das paredes, possui segurança mais frágil
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017