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Justiça do lado contrário

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:06/03/2017 11:00
Concorrente da Mostra Um Certo Olhar, no último Festival de Cannes, A Qualquer Custo (Hell or High Water), do diretor David Mackenzie, pode ser considerado uma imediata obra-prima, descoberta pela crítica ainda na Croisette. Um projeto que se inseria na competição por seu tamanho, pelo baixo custo, mas que ia além, ao abordar assuntos pertinentes à Norte América na pré-eleição, que foi justamente decidida pelo povo retratado neste filmaço, concorrente a quatro Oscars.

O Texas, com sua árida e infinita paisagem, é o cenário onde os irmãos Howard (Ben Foster e Chris Pine) tentam salvar o rancho da família, única herança da mãe recém-falecida. Usada como garantia em empréstimos bancários na região, a terra é fundamental para dar dignidade à próxima geração dos Howards, pela descoberta inusitada de petróleo. Os irmãos, com temperamentos muito diferentes, planejam assaltar pequenas agências desses mesmos bancos, para quitar a dívida, que coloca em jogo sua calejada condição de miséria.

Em um sistema falido, onde tudo remete ao abandono e à decadência, os bancos são o único tipo de instituição que parece imune à crise. Os homens marginalizados, com posturas de caubóis caipiras e perdidos, amargam o desemprego e a ausência de políticas de inclusão. Nessa conta, fica a dúvida se a dupla de assaltantes é, de fato, a vilã ou se a justiça branco-conservadora, representada pelo xerife do magistral Jeff Bridges, persegue os verdadeiros algozes do “pesadelo americano”.

Com atuações soberbas de Bridges, Pine e, sobretudo, do visceral Ben Foster, que merece mais olhares de Hollywood, A Qualquer Custo expõe um país que muitos ignoravam e que surpreendeu o mundo com a vitória de Donald Trump, em novembro do ano passado.
Cena de A Qualquer Custo, com Ben Foster e Chris Pine: filme mostra a realidade dos EUA pós-trump (Divulgação)
Cena de A Qualquer Custo, com Ben Foster e Chris Pine: filme mostra a realidade dos EUA pós-trump

Nem tudo se resume a Wall Street, ao Vale do Silício ou a Hollywood. O western moderno de David Mackenzie vira justamente a outra face da moeda, ou melhor, o lado contrário da elite encastelada.

O crime na fogueira das vaidades: exatamente um ano após a estreia de imensa repercussão na TV dos Estados Unidos, chega por aqui via Netflix os 10 episódios da extraordinária série The People v. O. J. Simpson: American Crime History. Retratando o “julgamento do século”, imputado à estrela do esporte e do entretenimento, a produção é o retrato fiel dos anos 1990, pré-internet, quando o jornalismo era refém da televisão. Tudo para saciar a paixão que o caso despertou no país, que sabe, como nenhum outro, transformar qualquer coisa em espetáculo.

Um trabalho histórico dos criadores Scott Alexander e Larry Karaszewski que procura mostrar os dois lados, a acusação e a defesa, sem tomar partido, mas, ao mesmo tempo, ampliando a sordidez de ambos, simplesmente, pela vitória no veredito.

Esqueça Cuba Gooding Jr. no papel de Simpson. Os grandes destaques são os oponentes Sarah Paulson, na pele da promotora Marcia Clark, e Courtney B. Vance, como o advogado ativista Johnnie Cochran, responsável por trazer a questão racial para o centro do caso. Os dois venceram todos os prêmios possíveis dessa temporada de cerimônias. Merecidíssimos.

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