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CULTURA | Artes Cênicas »

Em ritmo de ópera

Gênero musical de 400 anos tem seu público cativo em Brasília. Apresentações de óperas e árias lotam os espaços culturais da cidade, que ainda oferecem cursos para quem quer aprender o canto lírico

Paloma Oliveto - Publicação:08/03/2017 09:50Atualização:08/03/2017 11:43
Originada na Itália do século XVI, a ópera é considerada por muitas pessoas uma arte inacessível. Seja pelo preço alto das superproduções seja devido aos idiomas em que são encenadas (italiano, francês, alemão), há quem pense que é um programa só para ricos e connoisseurs. Nada mais falso. Apesar da dificuldade com a falta de patrocínio e de palcos adequados, cantores e produtores de Brasília investem em apresentações que atraem um público enorme, desmistificando o caráter elitista desse gênero artístico.
Encenação da ópera La Traviata, de Verdi, no Centro Cultural da UnB, em 2016: uma das peças mais conhecidas do repertório clássico (Terra Thaís Costa/Divulgação)
Encenação da ópera La Traviata, de Verdi, no Centro Cultural da UnB, em 2016: uma das peças mais conhecidas do repertório clássico

Há 16 anos, a cantora lírica e professora da Universidade de Brasília (UnB) Irene Bentley faz um trabalho de democratização da ópera na cidade. Com uma paixão que transborda a cada palavra, ela conta que foi em uma apresentação ao ar livre no Rio de Janeiro, na década de 1980, que sentiu necessidade de aproximar esse gênero de quem geralmente não tem acesso a ele.

Na ocasião, o maestro Isaac Karabtchevsky regeu a ópera Aída, de Verdi, no parque da Quinta da Boa Vista. Uma multidão acompanhava, extasiada, o espetáculo. Porém, o comentário de um espectador fez com que Irene percebesse que, embora bem recebida pelo público, a ópera não era compreendida. No momento em que a personagem Amneris cantava, um rapaz a mostrou para o filho, identificando-a como Aída. “Bem delicadamente, toquei no ombro e expliquei que era a Amneris, e não a Aída. Então, em um diâmetro de 100 m, todos que estavam ali se voltaram para o meu lado. Um casal simpaticíssimo me entregou os binóculos, e eu ia contando tudo o que estava acontecendo. Isso mexeu muito comigo”, conta Irene. No fim do espetáculo, um comentário aguçou ainda mais a vontade da cantora de democratizar a ópera. Uma pessoa disse a ela: “Se isso é ópera, não vou perder nenhuma no Teatro Municipal”. Mas, segundo Irene, nem todo mundo pode acompanhar produções, que são caríssimas. “Quando vim para a UnB, isso ficou no meu coração”, diz.
 
Foi assim que surgiu o Ópera Estúdio, primeiro como disciplina do Departamento de Música, depois como programa de extensão universitária. Há mais de uma década, o projeto tem levado apresentações gratuitas de ópera, dando oportunidades não apenas a quem quer assistir, mas também aos que gostariam de participar ativamente, mesmo fora do palco. Além dos alunos de Irene Bentley, estudantes de outros cursos da UnB, bolsistas e membros da comunidade produzem os espetáculos, seja cantando seja montando cenários e figurinos, por exemplo.
 
Um termômetro para o Ópera Estúdio foi a montagem, na década de 1990, da obra Carmen, do francês Bizet. As duas sessões lotaram a Sala Martins Pena do Teatro Nacional, que tem capacidade para 407 pessoas. “No primeiro dia, 1 mil pessoas voltaram, por falta de lugar. No segundo, foram 1,5 mil”, recorda-se Irene. Ela explica que, para ser compreendida, a ópera deve dialogar com os espectadores. “Tentamos trazê-la para o século XXI. As histórias das óperas aconteceram e continuam acontecendo. Em Carmen, por exemplo, demos uma visão da violência contra a mulher e colocamos no foyer do Teatro Nacional fotos de mulheres agredidas”, diz. Em junho do ano passado, outro espetáculo de peso foi montado pelo Ópera Estúdio, no Centro Cultural da UnB: La Traviata, de Giuseppe Verdi.
A cantora lírica e professora Irene Bentley, do Departamento de Música da UnB, faz um trabalho de popularização da arte há 16 anos: As histórias das óperas aconteceram e continuam acontecendo' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A cantora lírica e professora Irene Bentley, do Departamento de Música da UnB, faz um trabalho de popularização da arte há 16 anos: As histórias das óperas aconteceram e continuam acontecendo"
 
Cantor lírico e produtor, Hugo Lemos é outro artista de Brasília que tenta democratizar a ópera aproximando os espectadores das obras. A começar pela forma de divulgação: “O que tem ajudado bastante são as ferramentas das redes sociais, como links patrocinados, hashtags e conta no Instagram”, diz. Os espetáculos que Lemos monta, sempre a preços populares, também procuram falar a linguagem contemporânea. 
 
No ano passado, por exemplo, ele produziu e atuou em As Alegres Comadres de Windsor, texto de Shakespeare musicado pelo alemão Otto Nicolai, até então jamais apresentado no Brasil. Para que o público pudesse aproveitar ao máximo a divertida história de um espertalhão que tenta tirar proveito de duas mulheres casadas, o cantor traduziu o texto para português. Mas não é tarefa fácil. “Não basta só traduzir, tem de adaptar o texto à música. Isso é uma coisa que se faz demais na Europa”, diz. Os quatro dias de apresentação levaram um público expressivo ao Teatro da Escola de Música, que tem capacidade para 600 pessoas. Os 20 reais (preço do ingresso de inteira) da bilheteria foram destinados à escola.
 
Hugo Lemos integra a Temporada de Ópera Independente de Brasília, um grupo de produtores, diretores e cantores líricos que tem como objetivo divulgar os espetáculos na cidade. Ele reconhece que a montagem de óperas, que inclui um grande número de artistas (além dos cantores, cenógrafos e figurinistas, há a orquestra para acompanhar), é muito cara. A produção de As Alegres Comadres de Windsor, por exemplo, custou 200 mil reais. Para conseguir executar essa e outras óperas na cidade, o produtor costuma inscrever projetos no Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do DF.
 
Com esse recurso, ele também montou, em 2015, Cosí Fan Tutte, de Mozart. A produção foi ainda mais ousada: além de traduzir para o português, Hugo Lemos trouxe toda a história para os tempos atuais. A ópera cômica se passa, originalmente, em um café napolitano e fala de uma aposta sobre fidelidade feita entre dois homens. Um assunto tão atual como esse foi transposto para um café de Brasília, com personagens usando trajes e linguagens modernas. 
Montagem de Cosí Fan Tutte, na Funarte, em 2015, com produção do cantor lírico e produtor Hugo Lemos (o quarto, da esq. para a dir.): ele trouxe toda a história para os tempos atuais (Renata Blanco/Divulgação)
Montagem de Cosí Fan Tutte, na Funarte, em 2015, com produção do cantor lírico e produtor Hugo Lemos (o quarto, da esq. para a dir.): ele trouxe toda a história para os tempos atuais
 
A produção, que contou com a participação de 70 pessoas, entre cantores, instrumentistas e trabalhadores de bastidores, lotou a Sala Plínio Marcos, na Funarte. Hugo Lemos diz que não falta gente interessada em ópera. O que falta é local apropriado para apresentações. “O Teatro Nacional era o único preparado para óperas, porque precisamos ter o fosso, onde fica a orquestra”, afirma. O espaço está em reforma, sem data para reabertura.
 
Para o maestro Alexandre Innecco, do Ecai (Espaço Cultural Alexandre Innecco), também há carência de investimento privado em ópera. Ele morou durante 15 anos nos Estados Unidos e conta que lá sempre havia patrocínio para montagens. O músico diz que, mesmo quando as óperas lotam os teatros, os produtores podem ficar no prejuízo, caso não se cobrem ingressos exorbitantes. “Fico com muita pena de ver uma cultura tão interessante ser relegada”, diz. “Insisto muito com meus alunos que, se quisermos manter a música clássica viva, temos de colocar dinheiro onde o coração está.” Para ele, governos sozinhos não dão conta de financiar espetáculos a preços acessíveis.
Para o maestro Alexandre Innecco, do Ecai, há carência de investimentos privados na ópera: 'Fico com muita pena de ver uma cultura tão interessante ser relegada'  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o maestro Alexandre Innecco, do Ecai, há carência de investimentos privados na ópera: "Fico com muita pena de ver uma cultura tão interessante ser relegada"
 
No Ecai, Innecco ministra palestras e cursos variados sobre música clássica. Entre eles, os de ópera, que visam desvendar esse mundo fascinante a quem aprecia o gênero ou tem interesse em conhecê-lo melhor. De acordo com o maestro, a ideia de oferecer as aulas veio do fato de muita gente parecer ter vontade de frequentar um espetáculo, apesar de ter medo da ópera. “Pensei que poderia ajudar a cruzar essa ponte”, diz. “No século XIX, ela era o que a novela é hoje. As pessoas iam para se divertir, para curtir”, explica o maestro.

A ópera não apenas fascina, como pode ajudar a repensar valores e gostos. Foi assim com o cantor e pianista Gabriel Murowaniecki, de 21 anos. O jovem autodidata entrou para a UnB para estudar música, mas no projeto Ópera Estúdio de Irene Bentley descobriu uma vocação que falou mais alto: as artes plásticas. “Eu conheci o projeto entrando para o coro lírico. Tinha acabado de entrar na UnB”, conta. Ao se envolver com os bastidores, Gabriel apaixonou-se por cenários e cartazes: “Não abandonei a música, mas a área em que quero me profissionalizar é a de design de cartazes”. Para ele, todo o trabalho é compensado ao observar reação das pessoas que veem uma ópera pela primeira vez na vida. “Isso é impagável”, diz.
O cantor e pianista Gabriel Murowaniecki apaixonou-se pelos cartazes e cenários e agora vai estudar desenho:n 'Não abandonei a música, mas quero me profissionalizar na área' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O cantor e pianista Gabriel Murowaniecki apaixonou-se pelos cartazes e cenários e agora vai estudar desenho:n "Não abandonei a música, mas quero me profissionalizar na área"
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017