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As mandalas de Vânia

Ela cria belas peças inspirada na cultura indiana, mas suas coleções trazem outras obras da joalheria que fazem sucesso na capital e muito além dela

Teresa Mello - Publicação:08/03/2017 15:09Atualização:08/03/2017 15:41

A designer mineira Vânia Ladeira, há 23 anos em Brasília, cria duas coleções por ano: 'Sou fascinada pela natureza e pelas cores' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
A designer mineira Vânia Ladeira, há 23 anos em Brasília, cria duas coleções por ano: "Sou fascinada pela natureza e pelas cores"
O universo particular da designer de joias Vânia Ladeira tem o brilho de turmalinas, rubis, esmeraldas. No ateliê da 213 Norte reina o encantamento provocado pelas centenas de peças que habitam gavetas, prateleiras e vitrines. Há 20 anos na profissão, a mineira de 51 anos comemora o talento em cada coleção, lançada com festa e desfile, no qual as modelos são as próprias clientes, conquistadas a cada diamante, desde a inauguração da loja, em 10 de novembro de 2009. A primeira temática buscou inspiração nas folhas do cerrado, a última, nas flores. Em 2015, Vânia trouxe referências do Marrocos. “Agora vou ao México e já imagino uma coleção bem étnica”, anima-se. Quando viaja, a designer gosta de pesquisar joias antigas em museus – como as de Cleópatra, admiradas no Metropolitan, em Nova York – para alimentar seu acervo de imagens.


Oficialmente, ela faz dois lançamentos por ano: em março, quando presta homenagem às mulheres, e no aniversário da empresa, comemorado com pompa e alegria. Há dois anos, convida as clientes para desfilar. Em novembro, enfeitou o ateliê com flores brancas e a clientela, com guirlandas e joias. A lembrança da festa está eternizada na parede da loja, com dezenas de mulheres sorridentes, como a advogada Edna Alves Rosa Batista: “Eu fui a um coquetel lá e nunca mais nos desgrudamos”, conta. “Para mim, ela é uma irmã, uma pessoa maravilhosa.”


As mandalas são todas originais, sem cópias: o carro-chefe da marca (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
As mandalas são todas originais, sem cópias: o carro-chefe da marca
Em Brasília há 23 anos, Vânia não se aquieta. Afinal, a criatividade não gosta de limites: “Ao longo do ano, vou lançando peças”. É comum a artista acordar de madrugada com uma inspiração. Não perde tempo: “Eu desenho em qualquer papel mesmo, só para a ideia não fugir”. Criou maravilhas também nas coleções Frutas – como o brinco Melancia, confeccionado em ouro rouge –, Barroco e Água.
“Sou fascinada pela natureza e pelas cores”, admite Vânia, que elege a turmalina e a esmeralda como suas pedras prediletas. “Escolho pela beleza”, acrescenta, e mostra o tom verde-cana do peridoto. Busca a matéria-prima em Teófilo Otoni (MG), tradicional centro de gemas no Brasil, e em São Paulo, onde encontra preciosidades do mundo todo. Vânia trabalha com jade da Malásia, granada, citrino, ágata, alexandrita, rutilo, brilhante, cristal, turmalina rosa e verde, ametista, esmeralda, diamante negro e chocolate, safira, andaluzita, rubi. As bases são em ouro 18 k e prata 950 k. “Fico de seis a oito horas na loja do meu fornecedor em São Paulo e vou desenhando lá mesmo”, diz.


Mauro Lopes e Diego de Souza, os dois ourives da equipe da joalheira: Diego trabalha para Vânia desde a abertura do negócio, em 2009 (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Mauro Lopes e Diego de Souza, os dois ourives da equipe da joalheira: Diego trabalha para Vânia desde a abertura do negócio, em 2009
Da criação, nascem anéis, brincos, gargantilhas, pulseiras, braceletes, alianças, abotoaduras, pingentes e produtos sob encomenda, como medalhinhas para bebês e joias para noivas. A peça mais cara disponível é o anel Jardim Suspenso, com diamantes e ouro, cotado a 14 mil reais. As mais acessíveis são as mandalas em prata inspiradas em pontos turísticos de Brasília, que custam 390 reais. “Faço joias exclusivas, mas possíveis”, afirma, a respeito dos preços cobrados de objetos mais simples. Na loja, o comércio não experimenta crise, segundo a proprietária: “Trabalhamos com promoção e não sentimos redução de clientes nem de vendas”.


O carro-chefe do ateliê são as mandalas. Todas originais, sem cópias. Há uns cinco anos, a administradora de empresas Rosângela Cohen Meneguetti comprou uma de rubi e resolveu usar em uma viagem à Europa. “Estávamos em um restaurante em Florença (Itália), e o casal da mesa ao lado não parava de nos olhar. Até que o homem se levantou e começou a perguntar sobre o meu colar. Eu disse que era uma joia feita de Brasília, ele insistiu em comprar. No início, eu resisti, ele insistiu, eu chutei o preço bem alto. Ele topou”, conta Rosângela, que quando voltou encomendou outra mandala. “Vânia é uma referência no design de Brasília, sou cliente há muito tempo, sempre vou aos lançamentos”, diz.


Mandalas inspiradas em pontos turísticos de Brasília: preços mais acessíveis para atender ao grande público (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Mandalas inspiradas em pontos turísticos de Brasília: preços mais acessíveis para atender ao grande público
Outra admiradora da designer é a advogada Edna Alves Rosa Batista, dona de uma gargantilha de água-marinha com traços semelhantes aos do lago Paranoá. “Quando a uso nas festas, como a recepção para a embaixatriz da Polônia, todo mundo fica encantado”, afirma. “Vânia é de uma criatividade incrível. Ela fez uma pulseira para mim que retrata a minha vida, meus 43 anos de casamento, os filhos, os netos.”


As peças sob encomenda são classificadas como “as mais desafiantes”. A artista produz joias para crianças, medalhinhas para bebês, alianças personalizadas para noivos. Serve um café, ouve a história do casal. “Eles podem acompanhar o desenvolvimento com o ourives, desde a fundição do metal”, diz. Os padrinhos do casamento também são contemplados com presentes, como marcador de livro feito em prata e com os nomes dos noivos gravados. Outro mimo é o relicário para colocar no buquê: “A noiva pode pôr a foto da avó, por exemplo”, diz.


A designer tem na equipe dois ourives, duas vendedoras, um ourives externo e um administrador. Funcionário desde a inauguração da loja, o cearense Diego Rafael de Souza, de 32 anos, traz a tradição familiar no ofício: “Meu irmão foi ourives e, quando ele trabalhava na oficina do padrinho, eu ia junto”, lembra ele, que divide o espaço no subsolo com Mauro Caldeira Lopes, de 42 anos, 20 de profissão. A vendedora Marcella dos Anjos, de 32 anos, encarrega-se do atendimento e dos arquivos: “Não temos catálogo, porque são peças únicas, não temos estoque”, explica ela, que organiza os álbuns dos produtos vendidos, acompanhados de ficha descritiva.


Brincos da coleção Flores, lançada no fim do ano passado: inspiração que veio do cerrado (Bruno Pimentel/Esp.Encontro/DA Press)
Brincos da coleção Flores, lançada no fim do ano passado: inspiração que veio do cerrado
Filha de uma costureira de Barroso (MG), cidade perto de São João del-Rei, a artista conta que nada a deixava mais quieta e feliz do que quando sua mãe abria o saco de retalhos em cima da cama. A garota ficava ali entretida durante horas. “Desenhei o vestido da minha Primeira Comunhão”, recorda-se Vânia, que cultiva a memória afetiva com ternura: “Eu me lembro do cheiro dos tecidos da minha mãe. Vivi no mundo das linhas, dos fios, das tramas”. A família mineira, habilidosa em trabalhos manuais, foi decisiva na trajetória da jovem, que cursou três anos de engenharia, morou em Belo Horizonte, em Goiânia. Na Universidade de Brasília, formou-se em artes plásticas e fez o curso de joalheria de Fernando Mundim: “Ele é muito importante na minha formação”, reconhece. Na primeira exposição, teve uma surpresa: “Fiz oito peças e vendi 10”, alegra-se, ao receber dois pedidos além dos que tinha para mostrar.


Depois de duas décadas, a designer comemora a maturidade do ofício que escolheu. Prepara-se para ir ao casamento de Marina, filha de uma cliente em Paris. Cada confecção é identificada com a minúscula logomarca VL, a mesma que está nas grades da loja, protegida com moderno sistema de segurança. “As peças da vitrine são recolhidas no fim de cada dia”, informa a vendedora Laine Rosa.


 (Vinícius Santa Rosa/Esp.Encontro/DA Press)
Vânia diz que só usa as próprias criações e não tem medo de circular com elas. Coloca um brinco menor para ir à academia, ao supermercado. Casada e mãe de dois rapazes, não teve filha a quem enfeitar. O mais velho, de 26 anos, faz engenharia mecânica, e o mais novo, de 21, administração. “Eles não usam anel, não usam nada”, diverte-se. “Meu marido não usa nem aliança.” Não importa. A cada criação, a cada cliente, o prazer só aumenta. Porque, para ela, joias são pequenas esculturas.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017