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SAÚDE | Otite »

Um mal de verão

Mais comum do que se imagina, 80% dos casos de otite ocorrem durante a estação. E não são apenas as crianças que sofrem com o problema

Mariana Froes - Publicação:13/03/2017 12:56Atualização:16/03/2017 13:14
Cuidado com os ouvidos é coisa séria na casa da família Burle Amaral. O casal de servidores públicos Luciana e André conhece bem o que é a otite, pois passaram pela experiência com os três filhos: Miguel, de 5 anos, Gabriel, de 3, e Felipe, de 9 meses. Com o passar do tempo, Luciana percebeu que algumas das crises coincidiam com a época que voltavam de passeios em Caldas Novas (Goiás), o que fez com que ela redobrasse a atenção aos primeiros sintomas. Hoje, a família não viaja antes de marcar consulta médica para os três.
 (Shutterstock)

“Garanto sempre a ida e o retorno, porque já sei como eles ficam: sempre se queixando de dores. E tem aquela coisa de entrar na piscina, mergulhar, pegar pedrinhas no fundo. Coisa de criança”, conta Luciana. “Com a diferença de temperatura e a água no ouvido, acaba surgindo a otite. Algumas vezes, eles têm até febre e gripe juntos”, diz André. A família já recorreu a tratamentos homeopáticos e a anti-inflamatórios tópicos para pingar no ouvido. E assegura que nas próximas férias vai evitar exposição dos ouvidos das crianças, usando tampões apropriados para mergulho.

A associação que o casal faz da doença com a água não é à toa. A otite é conhecida como a doença do verão e, geralmente, tem relação direta com líquido no ouvido. Por isso, muitas vezes é chamada de “otite do mergulhador”. Segundo especialistas, é nessa estação, inclusive, que se concentra a maioria dos casos notificados, ou seja, aproximadamente 80% dos registros. Isso é o que explica a otorrinolaringologista Márcia Voltolini, também especialista em medicina aeroespacial, que estuda, entre outras coisas, as principais doenças produzidas pela atividade aérea.
Luciana Amaral com os três filhos, Miguel, Gabriel e Felipe (dormindo na rede): crises constantes depois dos passeios em Caldas Novas e agora muitos cuidados ao entrarem na água (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Luciana Amaral com os três filhos, Miguel, Gabriel e Felipe (dormindo na rede): crises constantes depois dos passeios em Caldas Novas e agora muitos cuidados ao entrarem na água

“A pele do conduto auditivo externo, ou seja, do canal que fica na região mais externa do ouvido, perde parte de sua proteção natural, como a camada de gordura. Assim, o pH na região também muda, fazendo com que o ouvido fique exposto a processos inflamatórios e infecciosos”, explica a médica. “Assim, o paciente fica predisposto a sensações como irritabilidade, coceira, dores e sensação de abafado na região”, completa.

A família Moraes também passou por esse problema recentemente, para desespero da advogada Claudia Cozer Moraes, de 33 anos, que precisou cuidar do filho e do marido, acometidos com a patologia. Teo, de 4 anos, e o pai, o cirurgião-dentista Flávio Moraes, de 36 anos, tiveram os mesmos sintomas, mas tratamentos diferentes. Enquanto o pequeno só precisou de medicações com ação anti-inflamatória, Flávio chegou a ser internado para combater a dor que se tornou cada vez mais intensa.
O dentista Flávio Moraes e o filho Téo, de 4 anos, tiveram os mesmos sintomas, mas os tratamentos foram diferentes: enquanto o filho foi medicado com anti-inflamatórios, o pai teve dores intensas e chegou a ser internado em um hospital por cinco dias (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O dentista Flávio Moraes e o filho Téo, de 4 anos, tiveram os mesmos sintomas, mas os tratamentos foram diferentes: enquanto o filho foi medicado com anti-inflamatórios, o pai teve dores intensas e chegou a ser internado em um hospital por cinco dias

“No caso do meu marido, o médico diagnosticou otite externa, receitou um antibiótico e um analgésico”, diz a advogada. “Acabei precisando de atendimento especializado. Além de tomar medicação injetável para aliviar, fizeram um curativo, com pavio e com medicamentos. Foram cinco dias até que eu começasse a me sentir melhor”, conta o cirurgião-dentista. Segundo ele, a família tinha acabado de voltar da praia quando os primeiros sinais da doença apareceram.

Os irmãos Jhonatan, decorador, e Douglas Wellington Souza Pereira, estudante, de 25 anos e 17 anos, respectivamente, sentiram os primeiros incômodos ainda na praia. Eles viajaram para Vitória (ES) com a mãe, Ana Lúcia Souza e Silva, de 40 anos. “Eles tomaram banho de mar, de piscina, saltaram de uma pedra diversas vezes e, é claro, mergulharam bastante. Depois disso, queixaram-se de dores no ouvido”, conta Ana Lúcia. “O engraçado é que meu neto também foi para a praia e entrou no mar, mas não teve a mesma coisa”, diz. Ao chegar a Brasília, Ana Lúcia não teve dúvidas: incentivou os dois filhos a se consultar, por temer que o quadro se agravasse.
Para a otorrinolaringologista Márcia Voltolini, o diagnóstico e o tratamento adequados são fundamentais: se houver sequelas, o paciente pode ter perfuração do tímpano e perda de audição (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para a otorrinolaringologista Márcia Voltolini, o diagnóstico e o tratamento adequados são fundamentais: se houver sequelas, o paciente pode ter perfuração do tímpano e perda de audição

Diferentemente da mãe dos jovens, muitas pessoas agem de forma imprudente, sem antes procurar um especialista. E, para sanar o desconforto, é comum os doentes pingarem medicamentos impróprios no ouvido, introduzirem cotonetes e até outros objetos, o que é um erro. Na avaliação do doutor em otorrinolaringologia Jessé Lima, que também é clínico na mesma área, a ida ao médico é fundamental para que o paciente saiba diferenciar os tipos de otite e, assim, possa optar pelo melhor tratamento.

“Antes de mais nada, é importante saber com qual otite você está. As que têm relação com o verão são principalmente a externa e a média. A primeira está relacionada com a entrada de água e com a manipulação do ouvido e a segunda, diferentemente do que muitos pensam, não tem essa relação direta”, explica Jessé Lima. Segundo ele, trata-se de uma infecção da região que se encontra atrás do tímpano. “Geralmente, ela está relacionada com quadros gripais que, não só no inverno, como no verão, têm sua incidência aumentada, por excesso de exposição solar, ao ar condicionado, por desidratação, choque térmico ou abuso de alimentos gelados”, diz.
Os irmãos Jhonatan e Douglas Wellington Souza Pereira também sofreram com a doença, depois de mergulhar no mar: otite não acomete apenas as crianças, como muitos acreditam, dizem os especialistas (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Os irmãos Jhonatan e Douglas Wellington Souza Pereira também sofreram com a doença, depois de mergulhar no mar: otite não acomete apenas as crianças, como muitos acreditam, dizem os especialistas

O diagnóstico e o tratamento adequados são fundamentais para evitar que o paciente tenha sequelas, pois há situações que podem desencadear perfuração do tímpano e perda de audição. “Os casos graves podem acometer pessoas com deficiência de imunidade, principalmente as diabéticas, pois o processo inflamatório pode se alastrar para o osso temporal, que é o osso que aloja o ouvido. Sendo assim, o quadro pode acarretar paralisia facial, meningite e levar o paciente à morte”, alerta a especialista Márcia Voltolini. Para que esses problemas permanentes não ocorram, a otorrino reforça que é necessário evitar a automedicação.

No caso das otites em crianças, os cuidados devem ser ainda maiores. O médico Jessé Lima ressalta peculiaridades na anatomia da orelha dos pequenos, como o fato de as tubas auditivas deles serem curtas e ficarem na horizontal enquanto muito novos: “Isso os torna mais suscetíveis que os jovens e adultos às otites médias, que ocorrem atrás do tímpano, especialmente após quadros gripais”. Ele afirma que é importante os pais ficarem atentos aos primeiros sinais. Há casos de grande inchaço que sequer é possível introduzir o otoscópio – aparelho usado para examinar o local – na cavidade auricular.
 
PARA NÃO ADOECER
Dez cuidados que devem ser tomados para evitar a doença
 
1 Evitar molhar os ouvidos
2 Em praias e piscinas: evitar a exposição prolongada na água e enxugar o ouvido com toalha imediatamente após a exposição
3 Não manipular ouvidos com cotonetes, chaves, palitos e outros objetos
4 Evitar exageros, como excesso de sol, ar condicionado e alimentos gelados
5 Manter-se sempre hidratado
6 Lavar o nariz com soro fisiológico frequentemente
7 Sempre lavar as mãos e evitar contato direto com pessoas com sintomas gripais
8 Evitar ambientes com fumaça de cigarros
9 Procurar um profissional otorrinolaringologista em caso de dúvidas e para uma avaliação antes de sair de férias para prevenir a infecção
10 Em caso de dor de ouvido, não pingar remédios caseiros
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017