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DEZ PERGUNTAS PARA | HELENA MOURA »

"Algumas doenças afetam mais as mulheres"

Psiquiatra alerta para o aumento dos casos de depressão no Brasil, especialmente entre os jovens, e diz que hormônios femininos e outros fatores levam as mulheres a sofrer mais com a doença do que os homens

Paloma Oliveto - Publicação:27/04/2017 10:30Atualização:27/04/2017 10:47

Recentemente, um levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que o Brasil é o país com maior percentual de deprimidos da América Latina. A informação parece contrastar com o estereótipo de um povo alegre e festeiro, como o brasileiro é conhecido no mundo inteiro. Helena Moura, preceptora de psiquiatria do Hospital de Base e ex-professora voluntária da Universidade de Brasília (UnB), explica que isso não é, necessariamente, um paradoxo. “A depressão não é o oposto da felicidade, ela é um transtorno psiquiátrico”, diz.

 

De acordo com a psiquiatra, são necessários mais estudos para identificar a escalada do problema no país. Helena Moura, uma paraense de Belém que vive há sete anos em Brasília, ressalta que o preconceito ainda é muito forte: “Todo mundo olha feio para o deprimido. Parece que doença é só aquilo que deixa a pessoa na cama, ou quebrada, com um gesso”, critica.

 

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 

1 | ENCONTRO BRASÍLIA - O brasileiro sempre foi visto como uma pessoa feliz, bem-humorada. Por que as pesquisas estão mostrando um nível tão alto de depressão no país?

 

HELENA MOURA - Existe uma diferença entre tristeza e depressão. A depressão não é o oposto de felicidade, ela é um transtorno psiquiátrico. A pessoa pode ter momentos em que está muito feliz e produtiva, mas em determinado momento da vida ela se deprime. Isso não exclui a questão do brasileiro como povo muito alegre e acolhedor, isso pode se manter. Até porque a pessoa pode estar deprimida, mas na superfície conseguir equilibrar e esconder no trabalho, na escola... Muitas vezes ela desaba em casa. Então, essa cultura de o brasileiro ser um povo acolhedor e festeiro não necessariamente se contrapõe. Mas até que ponto essa coisa mais calorosa está ajudando as pessoas a não se deprimirem?

 

 

2 | E já sabemos o que está faltando?

 

Ainda não. O que tivemos até agora foi esse relatório da OMS, mostrando que tem muita gente deprimida no Brasil. Mas ainda precisamos de mais estudos, para saber o porquê desse aumento. Sabemos de um modo geral. Por exemplo, sabemos que a baixa condição socioeconômica é um dos fatores. Não é questão de ter luxo, mas aqui, no Brasil, precisamos de dinheiro para ter acesso a coisas muito básicas, como saúde e segurança. O lazer é algo importante e as pessoas não estão conseguindo ter acesso a isso. Sempre falo aos estudantes de medicina que o ingresso do cinema é de 25 reais e um litro de cachaça não chega a 3 reais. Então, que tipo de escolha as pessoas vão fazer?

 

 

3 | A depressão está associada à vida moderna?

 

Se pensarmos em outras épocas, seriam outros problemas. Poderia ser o medo de morrer de uma doença que, hoje, tem tratamento. Cada tempo tem seus males. Uma questão muito importante é que agora as pessoas estão conseguindo identificar mais o que sentem, entender que a depressão é uma doença, reconhecer que precisa de tratamento.

 

 

4 | Ainda existe preconceito?

 

Sim, existe muito preconceito. Se pensarmos no ambiente de trabalho, no quanto é importante a pessoa estar bem psiquiatricamente para funcionar bem. Às vezes, a pessoa se deprime e precisa de uma readaptação. Aí todo mundo olha feio, achando que ela está querendo se aproveitar disso. Parece que doença é só aquilo que deixa a pessoa na cama, ou quebrada, com um gesso. Se não, tem de estar lá, trabalhando.

 

 

5 | Por que as mulheres tendem a ter mais depressão que os homens?

 

Em geral, algumas doenças afetam mais as mulheres do que os homens. Quando isso acontece, questionamos se isso poderia ser mais biológico. Mulheres sofrem mais preconceito, violência, e esses fatores pesam, mas não se pode excluir a questão biológica. A relação dos hormônios com o humor é muito clara na mulher. No período pós-parto, por exemplo, ela fica mais chorosa. De acordo com o ciclo menstrual o humor também varia. Então, esses podem ser alguns dos motivos de a mulher deprimir-se mais que o homem.

 

6 | Então, esse transtorno é biológico e comportamental?

 

Na depressão, dois componentes interagem. Temos de pensar na depressão como um problema multifatorial. Tem a questão genética, mas mesmo com essa herança, se a pessoa vive em um ambiente protetor, tem uma boa relação com os pais, tem acesso a uma boa educação, ou seja, se o fator ambiental é muito bom, ela consegue escapar da depressão.

 

7 | Algumas pesquisas também estão mostrando um índice grande de jovens deprimidos. O que os leva à doença?

 

Tem muito preconceito, no sentido de se achar que é coisa de fase, que vai passar. Na adolescência, a forma de a depressão manifestar-se pode ser um pouquinho diferente, o que ajuda nessa falta de compreensão. O adolescente deprimido fica mais irritado do que triste. Ele dá más respostas, fica impaciente com todo mundo... Isso pode ser sinal de que está deprimido. Os pais têm de ficar atentos porque, ainda que o adolescente tenha os nervos à flor da pele, não se deve achar que tudo é normal na adolescência. Quando ele perde o interesse social, passa a se isolar, perde o interesse por coisas que gostava de fazer antes, temos de prestar mais atenção.

 

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"O que tivemos até agora foi esse relatório da OMS, mostrando que tem muita gente deprimida no Brasil. Mas ainda precisamos de mais estudos, para saber o porquê desse aumento"

 

 

8 | As redes sociais ajudam ou atrapalham o jovem deprimido?

 

Depende. Podem ajudar. Inclusive, o Facebook agora até tem uma ferramenta para isso, você pode “denunciar” um amigo que esteja postando muitas coisas sobre suicídio. Nesse sentido podem ajudar. O que pode atrapalhar é que, às vezes, junta a fome com a vontade de comer, ou seja, ali se encontra muita informação sobre suicídio. Algumas pessoas até ficam postando coisas do tipo: “Não, isso não dá certo, eu já tentei...”. Os pais têm de ficar atentos, para ver que tipo de site os adolescentes estão pesquisando.

 

 

9 | Para a população em geral, o excesso de informação da internet pode ajudar a levar à depressão?

 

Sim. Existe uma pressão para ser feliz. Nas redes sociais, a sensação é de que está sempre acontecendo uma festa muito boa para a qual não se foi convidado. E as pessoas não se dão conta de que aquilo é só no quadradinho da fotografia. Quando a pessoa restringe sua vida às redes sociais, ela pode deprimir-se. Mas, se ela mantém o contato social, consegue ter uma visão melhor da realidade. A maior questão é o isolamento social. Interagir por meio de rede social não é a mesma coisa que ao vivo. O contato físico é importante.

 

 

10 | Algumas pessoas criticam o que chamam de “medicalização da tristeza”. De certa forma, pode estar havendo um excesso de diagnósticos?

 

Isso pode, sim, acontecer. É muito comum, por exemplo, a pessoa acabar um relacionamento e já ir correndo para o consultório. Às vezes, os amigos e parentes reclamam que essa pessoa não para de chorar. Deixe-a chorar! Isso é normal. O problema é quando isso fica muito persistente, passa de duas semanas, e o ciclo normal, que é de ir melhorando com o tempo, não acontece. Quando ocorre um evento que nos deixa tristes, à medida que nos afastamos daquilo, nós melhoramos. Com a depressão, não. A pessoa piora com o tempo. Aí, sim, ela vai precisar de uma intervenção. Mas, ainda que se faça diagnóstico e veja a necessidade do tratamento, a medicação será uma das ferramentas. Ela também vai precisar de atividade física, de mudar hábitos de vida, e isso requer um esforço. Quando a depressão é leve, sem prejuízo muito grande, pode nem ser necessário o medicamento.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017