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NAS TELAS »

Estrelas inimigas

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:02/05/2017 11:08

No ar atualmente todos os domingos no canal Fox Premium 1, a série Feud: Bette and Joan, criada pelo gênio da televisão Ryan Murphy, retrata um longo período em que Hollywood era refém do nome de suas estrelas nos créditos. Exibir no pôster o rosto de um astro popular já era garantia de lucro. Ao mesmo tempo, vem de longe a condenação para um ator, mesmo ganhador de Oscar, que tenha atingido a casa dos 50 e não persistido na conservação de uma cútis jovem e curvas a serem exploradas na fotografia.

 

Em forçado ostracismo, confinada em sua mansão em Bervely Hills, Joan Crawford, lendária atriz da MGM, decide quebrar o padrão, desafiando o chefe Jack Warner a retornar aos estúdios com um roteiro explosivo, capaz de repetir o impacto ainda presente do clássico do horror Psicose (1960). A carta na manga de Joan era dividir a cena com a sua maior rival, a também lendária Bette Davis, que escapava da aposentadoria encenando Tennessee Williams na Broadway.

 

Esse era o ponto de partida da produção O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de 1962, que justamente a nova série procura reproduzir. Uma rixa que havia começado nos anos 1930, mas que tomou proporções atômicas precisamente em 1945, quando outra grande guerra acabava no Velho Continente. Cansado das exigências e do temperamento de sua maior diva, Bette Davis, Jack Warner resolve contratar a inimiga de Bette, Joan Crawford, escorraçada da MGM, justamente pelo gênio idêntico ao da protagonista de A Malvada.

Jessica Lange, como Joan Crawford, e Susan Sarandon, como Bette Davis, na série Feud: Bette and Joan: os anos dourados do cinema na TV  (Divulgação)
Jessica Lange, como Joan Crawford, e Susan Sarandon, como Bette Davis, na série Feud: Bette and Joan: os anos dourados do cinema na TV
 

Em jogo o papel principal do filme Mildred Pierce, que no Brasil recebeu o título de Alma em Suplício. Bette não aceitava representar a mãe de uma jovem arrivista. Enxergando o potencial da trama, Joan assumiu o posto de protagonista, vencendo o Oscar de melhor atriz no ano de 1946. Mildred Pierce, baseado no romance de James M. Cain, ficou marcado como uma das maiores histórias envolvendo mãe e filha de toda a dramaturgia do século XX. Por aqui, serviu até como base para a sinopse de Vale Tudo, telenovela de imenso sucesso da TV Globo.

 

Bette Davis jamais perdoou a Warner e, a partir daí, teve de engolir a presença de Joan Crawford nos mesmos bastidores em que transitava. Essa disputa fica mais nítida quando na série Feud descobrimos o óbvio: grande parte da briga era alimentada pelos próprios chefões, seus asseclas e, em particular, pelo diretor de Baby Jane, o irregular Robert Aldrich.

 

Jessica Lange e Susan Sarandon arrebentam interpretando as estrelas do passado. A Joan de Jessica transmite a exata insegurança de suportar o espaço dado à inimiga, mas ao mesmo tempo o ímpeto e necessidade de não ceder um milímetro em cena. Jessica ainda sabe reproduzir as marcas profundas deixadas por uma infância difícil e a solidão imposta a uma mulher que ainda almeja muita coisa. Bette Davis de Susan Sarandon remete à força da natureza, que se tornou referência. Uma atriz de talento e instinto descomunais, mesmo quando não existia a expressão empoderamento para qualificar uma profissional que lutava pela igualdade de salários e o respeito à condição feminina entregue na selva de Los Angeles.

 

Feud é a televisão resgatando anos dourados, quando o talento era engrenagem principal no cinema.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017