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ENTREVISTA | Paulo Gentil »

"O segredo está nas pequenas mudanças de hábitos"

Sucesso nas redes sociais por causa de suas ideias simples - e às vezes polêmicas - sobre qualidade de vida, exercícios físicos e saúde, educador físico de Brasília diz que é preciso ter cuidado com produtos e dietas milagrosas

Paloma Oliveto - Publicação:03/05/2017 09:09Atualização:03/05/2017 09:46

Ele tem 282 mil seguidores no Instagram, 177 mil no Facebook e suas postagens chegam a atingir 3 milhões de pessoas. Mas, em um mundo cada vez mais aficionado pela imagem, o educador físico Paulo Gentil escolheu um caminho diferente. Em vez de estética, ele se dedica a divulgar os benefícios dos exercícios para a saúde, não apenas de forma preventiva, mas para ajudar na recuperação de pessoas que sofrem de doenças crônicas e degenerativas.

 

Depois de se formar na Universidade de Brasília (UnB), ele cursou mestrado na Universidade Católica, mas passou em um concurso da Polícia Federal e acreditou que as pesquisas ficariam apenas como hobby. “Acabei abandonando a polícia  e isso se tornou minha prioridade”, diz. De volta à UnB, Gentil chegou ao doutorado com a tese de que a análise genética individual ajudaria a traçar os melhores planos de exercício, de acordo com o perfil de cada um. Ao longo do estudo, percebeu que não era bem assim. Atualmente, além de administrar a academia, Paulo Gentil é professor da Universidade Federal de Goiás.

 

Lá, ele está orientando o mestrado de um aluno que vai pesquisar como os exercícios físicos ajudam na recuperação de pacientes internos. Para isso, será montada uma sala de exercícios no Hospital das Clínicas de Goiânia. Nesta entrevista, ele fala sobre a importância de se pensar menos em estética e mais em saúde, e revela algumas das brigas nas quais entrou, por criticar médicos e blogueiros que insistem em vender dietas e exercícios da moda, que podem ser extremamente prejudiciais.

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

ENCONTRO BRASÍLIA – A sua pesquisa de doutorado envolveu estudo da genética. Quais foram os resultados?

PAULO GENTIL – Cada pessoa responde ao exercício de um jeito. Busquei saber se existiam traços genéticos que explicassem essas variações. Aí, a ideia era tirar um fio de cabelo de uma pessoa e dizer: esse exercício vai servir para você, esse não vai. Na verdade, meus trabalhos com genética me causaram uma grande frustração, mas ao mesmo tempo uma grande reviravolta na minha maneira de abordar o treinamento para as pessoas. Porque descobrimos que a genética não é determinista. Ela influencia, mas não é ela que diz se você vai ser bom, se você vai ser ruim... O seu comportamento, o que você faz todo dia, ele é o determinante. Não porque ele muda sua genética, mas porque ele muda a forma com que seu gene se expressa. Você pode ter um gene dizendo que você vai ser obeso. Mas se você se alimentar bem, exercitar-se bem, esse gene é silenciado. O que é mais legal é que esse silenciamento do gene se transmite para os filhos. Então, existem pessoas que podem ter um gene totalmente desfavorável, mas não manifestar isso. Quando estudei genética, a minha grande frustração foi que eu imaginava que ia ser “o cara”, mas descobri que o caminho era entender como o exercício funciona e como transformar esse conhecimento em mudança de comportamento. Isso tem de entrar na cabeça das pessoas para elas modificarem seu comportamento, se não até mesmo quem tem a melhor genética do mundo não consegue ter um bom desempenho.

 

Esses resultados influenciaram o seu trabalho como treinador?

Influenciaram, porque passei a acreditar mais no ser humano. Porque a desculpa da genética cria rótulos. Antigamente, tínhamos até desânimo para treinar uma pessoa com o biótipo muito diferente daquele que imaginamos que daria certo, pensando no resultado que ela pretendia obter. Hoje, vejo todo mundo como um desafio. Por exemplo, fazemos trabalhos com pessoas que têm patologias graves e conseguimos fazer coisas incríveis, como reverter a osteoporose, recuperar mais rápido a função de pessoas com câncer que ficaram internadas, pessoas com Parkinson que conseguem diminuir a quantidade de medicamento... Deixei de ser o limitador e passei a ser o facilitador.

 

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 

Como avalia a educação física ensinada hoje nas escolas?

Hoje, existe uma discussão para ressignificar a educação física. Não ser mais uma coisa voltada à seleção esportiva. Mas algo para formar cidadãos e posicionar a pessoa na sociedade por meio do movimento. Por muito tempo, a nossa educação física teve essa coisa da seleção esportiva, o que não é errado. O errado é ser apenas isso. Porque aí é aquela história de ir excluindo. Isso começa da formação de base do professor e é preciso a escola comprar essa ideia. E nós temos um problema sério: existe uma briga para manter a educação física no currículo, porque querem tirar a disciplina da educação básica.

 

Na sua opinião, a atividade física está muito além da estética?

Ah, sim. Eu, como amante da educação física, sofro muito com a estética ter se tornado a nossa referência. Hoje, quando uma pessoa fala que é profissional da educação física, ninguém lhe pergunta como ela faz para envelhecer melhor, como melhorar a saúde com exercícios. As pessoas perguntam é como diminuir a barriga, como ganhar um bumbum bonito... A estética se tornou um rótulo, um estigma.

 

 

 

Essa questão da estética é uma característica mais brasileira?

É absurdamente brasileira. Viajo muito e tenho contato com muitas pessoas de outros países. Se você for a qualquer academia do mundo, vai ver que a estrutura é completamente diferente. O Brasil tem uma cultura fitness: temos roupas, modos de comportamento e códigos sociais fitness. Tem tribos fitness. É um estilo de vida supervalorizado, tanto que qualquer artista que começa a ter alguma projeção insere elementos fitness na vida, mesmo que seja uma salada ou um pão sem glúten, para parecer que está “in”. Na Europa, isso é praticamente inexistente. Nos Estados Unidos, você vai a uma academia e as pessoas estão de moletom, pouco se preocupando com a roupa que usam. Isso cria rótulos muito ruins. A pessoa diz: “Ah, se eu engordei é porque eu vacilei”. Então qualquer um que esteja gordo é um vacilão? A pessoa que não tem o físico dentro dos padrões estéticos é vista como alguém que fracassou, é uma “sub-raça”. Muita gente se sente excluída e se afasta das academias porque se sente intimidada.

 

 "O Brasil tem uma cultura fitness: temos

roupas, modos de comportamento e

códigos sociais fitness. Tem tribos fitness.

É um estilo de vida supervalorizado"

 


Brasília tem uma cultura fitness forte?

Muito forte. Existe um dado sobre isso: temos a maior densidade de academias do Brasil. Se observarmos a cultura do corpo, acho que só perderíamos para alguns lugares do Rio de Janeiro. Aqui, às seis da tarde tem muita gente correndo na rua. Sempre tem muita gente se exercitando no parque no fim de semana. Nas ruas, vejo que há mais preocupação com saúde do que com estética, mais do que nas academias. As pessoas vão caminhar, fazer atividade. Brasília favorece a atividade outdoor.

 

Nas redes sociais, vemos muitas pessoas leigas dando dicas de dietas e exercícios. Quais são os riscos de seguir as orientações de celebridades?

O primeiro risco, o mais simples, é a frustração. O que funciona para aquele blogueiro ou celebridade não funciona para você. Sem contar que o que é vendido não é o que a pessoa faz. Sabemos da questão do uso de hormônio, cirurgia plástica, edição de foto, mas a celebridade não vai contar essas coisas. O segundo, que é o mais grave de todos, são os danos à saúde. Temos casos de pessoas que ficaram paraplégicas, que romperam medula, imitando os exercícios que são feitos por aí. No campo da alimentação, temos pessoas com desnutrição, com carência vitamínica. Uma das coisas mais graves é que isso está causando comportamentos patológicos, como anorexia e bulimia. Vemos pessoas psicóticas, que anularam sua vida social, que criaram transtornos dismórficos, que veem seu corpo de uma forma completamente distorcida. É muita covardia. As edições de foto, por si, já transformam isso numa covardia imensa. A pessoa se cobra para ser igual a uma foto editada.

 

Como foi a experiência de escrever?

Foi uma experiência maravilhosa. O meu primeiro livro, sobre hipertrofia, não fiz para vender. Escrevi porque dava muita aula e os alunos queriam se aprofundar no que eu falava. Aí sistematizei tudo em um livro. Enviei para uma editora e, três meses depois, meu livro era o mais vendido. Em 2014, esteve entre os 10 e-books mais vendidos da Amazon. Ele vendeu mais que Harry Potter no período, mais que 50 Tons de Cinza. Então, imagine um livro técnico, que tem uma linguagem mais pesada, vender tanto! As pessoas querem coisas de qualidade, mas às vezes não sabem onde procurar. Eu brinco que não sei como as pessoas me seguem nas redes sociais, porque só dou desilusão. Só falo a verdade. Falo tudo que ninguém quer ouvir: você vai ter de se esforçar, isso que você comprou não vale nada... É claro que muita gente não quer ouvir isso, mas fico impressionado com a quantidade de seguidores que tenho. Às vezes chego a atingir 2 a 3 milhões de pessoas em uma semana.

 

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
  É uma responsabilidade enorme, não?

Sim. Toda vez que me sento para escrever, tenho a preocupação de pensar se está bem claro para as pessoas compreenderem. É meu papel, como professor. E, ao mesmo tempo que informo, tenho de me posicionar. As pessoas me cobram, querem que eu me posicione, e isso me coloca no centro de um fogo intenso, de processos judiciais, ameaças, coisas do tipo.

 

O sr. já se envolveu em polêmicas?

Uma das principais foi me posicionar sobre médicos que estão prescrevendo hormônio com finalidade estética, o que para mim é criminoso. Tem pessoas, em Brasília e no Brasil, ficando milionárias fazendo isso. São médicos sem especialidade nenhuma, que se intitulam praticantes de endocrinologia. Aí chega uma pessoa dizendo que está estressada, com dificuldade para dormir, com dificuldade de ganhar massa magra e perder gordura – uma coisa que, sinceramente, todo mundo sofre –, e o médico diz que sabe como resolver e dá uma receita de hormônio. Mas isso não resolve nada, a vida da pessoa continua a mesma. Só que o hormônio vai fazer com que, mesmo com a vida péssima, a pessoa fique com o físico melhor. Mas as consequências disso são terríveis. Eu me posicionei frontalmente contra, e isso me fez meter a mão num vespeiro, porque é um mercado milionário. Outra briga que tive foi com as blogueiras. Elas falam muito de exercício e, em geral, são exercícios perigosos e não eficientes, mas as pessoas olham e querem reproduzir. Aí tem o caso de uma menina que caiu de cabeça e perdeu os movimentos, a outra que quebrou a medula... Essas brigas certamente são as que mais me causam gasto de energia.

 

O sr. também costuma criticar muito as dietas da moda, como detox e jejum.

Sim, essas são coisas vendidas por esses dois grupos. Quem está mandando as pessoas fazer jejum? São esses mesmos médicos que passam hormônio e as mesmas blogueiras. A maneira como o jejum é exposto é uma irresponsabilidade imensa. As pessoas esquecem que o corpo vai responder ao período de jejum, mas depois se desorganiza. Esquecem que a alimentação faz parte do nosso hábito sociocultural. Então vão excluindo a pessoa do convívio, criando paranoia e fobia de alimento.

 

"As pessoas querem que eu

me posicione e isso me coloca

no centro de um fogo intenso,

de processos judiciais, ameaças"

 

 

E quais são os perigos disso?

Tem uma pesquisa maravilhosa, que entrevistou pessoas dos EUA, da Bélgica, da França e do Japão. Nessa pesquisa, eram mostradas fotos de comida para as pessoas e elas tinham de dar interpretações do que essas fotos representavam. Dando um exemplo, mostram um prato de risoto e uma taça de vinho. Quando mostravam a foto para o francês, ele dizia: “ah, isso é um jantar, um momento agradável”. Quando mostravam para o americano, ele dizia: “é gordura, carboidrato, álcool”. A forma como você encara a comida pode ser tão mais importante que a comida em si. Então, no jejum você fica gerando paranoia, induzindo as pessoas a ficarem horas sem comer. Esse termo detox também... A pessoa fica achando que se intoxicou. O organismo tem milhares de mecanismos para fazer isso naturalmente, e criar neuras com isso é patológico. Mas tudo vende, principalmente quando é associado a corpo. Eu ataco cada modinha dessas.

 

Então, não existe segredo?

Não, e tudo é muito simples, só que não vende. O segredo não está em nenhum feito grandioso, mas em pequenas mudanças nos seus hábitos. Agora, isso não vende produto, não vende nada grandioso, não vai induzir nenhuma grande intervenção médica, remédios, cirurgias, não vai gerar um patrocínio de não sei quantos mil reais.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017