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NEGÓCIOS | Design »

DNA empreendedor

Empresários com menos de 40 anos apostam em marcas próprias, driblam a crise e conseguem reconhecimento nacional com produtos criativos

Rebeca Oliveira - Publicação:05/06/2017 12:31Atualização:05/06/2017 13:11
A passos lentos, o Brasil ensaia uma recuperação financeira e depois de meses de quedas sucessivas estima-se que o Produto Interno Bruto (PIB) finalmente volte a crescer e aumente cerca de 0,5% até o fim de 2017. Ainda assim, no país onde há mais de 12 milhões de desempregados nas contas do IBGE, o medo de empreender é real. Basta uma volta nas quadras de Brasília para notar o fechamento de muitas lojas nos mais diversos segmentos, algumas com décadas de existência. 
 
Nesse cenário hostil e pouco amigável aos negócios, marcas capitaneadas por jovens empresários nadam em corrente contrária. Ousadas, consolidam-se dentro e fora do quadrado do Distrito Federal. Rompem fronteiras, expandem os lucros e dão um chega pra lá na recessão. Oportunidade de negócio, vontade de empreender e independência financeira estão entre os motivos para enfrentar a maré negativa. Quem arriscou garante: o suor e os investimentos são recompensados.
 
Destemor que não poderia deixar de ser uma das características da geração Y quando o assunto é criar a própria empresa. Este, aliás, é um dos motores da dane-se (com letra minúscula mesmo), marca de roupas minimalista mas cheia de atitude criada por Daniel Moreira, de 29 anos, e Enozor Junior, de 34 anos. Para não cair no marasmo, eles lançam novas coleções a cada dois meses, com 40 produtos diferentes por troca sazonal. Esse ciclo se repetiu quase 15 vezes desde que deram os primeiros passos em 2015 e parece longe de acabar. Em abril, aniversário de Brasília, chega ao showroom da grife, na 102 Norte, uma coleção com ares especiais. “Fizemos uma parceria com a Fundação Athos Bulcão”, adianta Daniel, emendando que as futuras peças respiram o modernismo de Lucio Costa e Oscar Niemeyer.  
Irreverência para eles  



Junção do prefixo Dan, de Daniel Moreira, e E, de Enozor Junior, a dane-se surgiu no começo de 2015. O gosto comum por moda uniu a dupla, insatisfeita com os produtos e preços das marcas masculinas que dominavam o mercado. Malha de qualidade, corte com bom caimento e preço justo são os pilares da empresa criada por eles. As peças chamam atenção, mesmo com pegada minimalista. 'Todo o processo de criação das coleções é feito e desenhado por nós', diz Daniel.  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Irreverência para eles

Junção do prefixo Dan, de Daniel Moreira, e E, de Enozor Junior, a dane-se surgiu no começo de 2015. O gosto comum por moda uniu a dupla, insatisfeita com os produtos e preços das marcas masculinas que dominavam o mercado. Malha de qualidade, corte com bom caimento e preço justo são os pilares da empresa criada por eles. As peças chamam atenção, mesmo com pegada minimalista. "Todo o processo de criação das coleções é feito e desenhado por nós", diz Daniel.
 
A moda tem assumido um viés cada vez mais sustentável, com preocupação social, e as marcas locais estão atentas a isso. Não basta lucrar. Muitas criam elo e exercitam a empatia com a população afetada pelas disparidades econômicas globais. “Temos uma parceria com o projeto ‘I see Lolei’. Ele ajuda de forma voluntária o vilarejo de Lolei, no Camboja, um dos mais pobres do mundo. Dessa união nasceu uma linha de camisetas, em que parte do nosso lucro vai direto para a iniciativa”, conta Daniel, sem esconder o orgulho dessa ação. 
 
Orgulho também é o que sente o quarteto Felipe Kuhlmann, de 30 anos, Will Pedrosa, de 33, Bruno Nóbrega e Fernando Macedo, ambos de 35 anos, responsáveis pela marca de artigos de couro Braveman Handmade. Como o nome já diz, as peças são feitas à mão e a matéria-prima vem de um fabricante do interior de São Paulo, o mesmo que fornece couro para a gigante marca de motocicletas americana Harley-Davidson. “Por si só, o couro é uma matéria-prima nobre. Tivemos um golpe de sorte de ter um fornecedor como o nosso. Eles pedem para não divulgarmos o nome, mas estão entre os maiores do país, com 90% da produção para exportação”, afirma Will. 
Couro de primeira linha

  

Além de comercializar artigos artesanais de couro premium, a partir de material trazido de São Paulo - como carteiras, cintos, pulseiras e até organizadores de cabos, com preços entre 30 e 315 reais -, a Braveman Handmade trabalha com quatro modelos de camiseta e bonés. 'Nossas peças são personalizadas e em sua maioria numeradas', diz o sócio Will Pedrosa, que montou a grife com Felipe Kuhlmann, Bruno Nóbrega e Fernando Macedo. Além da loja virtual, os clientes podem conversar, tomar um café ou cerveja com os empresários no showroom da empresa, na 112 Norte.  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Couro de primeira linha

Além de comercializar artigos artesanais de couro premium, a partir de material trazido de São Paulo - como carteiras, cintos, pulseiras e até organizadores de cabos, com preços entre 30 e 315 reais -, a Braveman Handmade trabalha com quatro modelos de camiseta e bonés. "Nossas peças são personalizadas e em sua maioria numeradas", diz o sócio Will Pedrosa, que montou a grife com Felipe Kuhlmann, Bruno Nóbrega e Fernando Macedo. Além da loja virtual, os clientes podem conversar, tomar um café ou cerveja com os empresários no showroom da empresa, na 112 Norte.
 
Como vende os itens principalmente por e-commerce, a fábrica viu as peças viajarem o mundo. De Portugal a Israel, dos Estados Unidos ao Japão. Apesar da forte presença no mercado internacional, o interesse que move os rapazes da Braveman é a renovação da cena local. “Queremos ver Brasília como uma cidade com ótimos business. Uma capital mais empreendedora e não tão focada no concurso público”, completa Felipe Kuhlmann. 
 
Definitivamente, nem só da aprovação em concurso público são feitos os anseios dos jovens nascidos e criados em Brasília. Um olhar afetivo para a capital do país faz com que muitos negócios saiam do papel. A harmonia entre cidade e paisagem somada ao contraste entre cerrado e arquitetura conquistaram a equipe da Hoy Ahoy, marca de roupa esportiva e urbana. Esse encantamento os faz transpor barreiras: “Estamos longe das principais regiões têxteis do Brasil. Isso dificulta bastante, mas nos deixa sempre em atividade e com vontade de aprender, de procurar saber mais sobre a área. Somos criadores que acompanham todo o processo até a venda”, diz Luiz Corrêa, da equipe da Hoy Ahoy. 
 Pegada esportiva

   

O sócio mais velho da Hoy Ahoy, Luiz Corrêa, tem 28 anos. Esse dado confirma em parte o perfil da empresa de vestuário, despojada, informal e inspirada na leveza dos sete mares. A âncora, presente como identidade visual em quase todas as peças, poderia facilmente simbolizar a amizade de Luiz com Bruna Carone, Douglas Agum e Mizue Tominaga, que completam o time. Os produtos, como bermudas e camisetas, nasceram com pegada esportiva e voltados à produção de quimonos de jíu-jitsu. A faceta continuou, mas o foco se estendeu para roupas feitas também para não atletas. 'Buscamos fugir da tendência atual do compra, usa e joga fora', explica Luiz Corrêa. (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Pegada esportiva

O sócio mais velho da Hoy Ahoy, Luiz Corrêa, tem 28 anos. Esse dado confirma em parte o perfil da empresa de vestuário, despojada, informal e inspirada na leveza dos sete mares. A âncora, presente como identidade visual em quase todas as peças, poderia facilmente simbolizar a amizade de Luiz com Bruna Carone, Douglas Agum e Mizue Tominaga, que completam o time. Os produtos, como bermudas e camisetas, nasceram com pegada esportiva e voltados à produção de quimonos de jíu-jitsu. A faceta continuou, mas o foco se estendeu para roupas feitas também para não atletas. "Buscamos fugir da tendência atual do compra, usa e joga fora", explica Luiz Corrêa.
 
Luiz, de 28 anos, está englobado na geração que cresceu quando a internet virou indissociável do mundo real, assim como seus sócios Bruna Carone, de 25 anos, Douglas Agum, de 27, e Mizue Tominaga, de 26. Justamente por isso, tem uma facilidade natural com esses recursos multimídia, como vendas feitas por meio de smartphones. Nomes como ele se valem das tecnologias, um canal de comunicação de baixo custo, mas certeiro.
 
A designer Flávia Dutra, do ateliê artesanal Baroque, fez até aluguéis de acessórios sob medida para noivas de fora da cidade usando as mídias digitais como apoio. Para ela, esse é o caminho das novas empresas. O reúso, Flávia garante, ganha força não apenas pela situação econômica do mercado, mas por uma tomada de consciência do público em relação ao consumo desenfreado: “As pessoas estão alugando mais e repensando a forma de comprar. Tive histórias legais, como de a mesma peça ser usada por amigas que foram da mesma escola na infância e só descobriram depois das cerimônias que haviam optado pelo mesmo acessório”, conta Flávia, formada em Nova York. A vitrine que mais chama a atenção, aliás, não é a do ateliê na Octogonal, mas a da linha do tempo do Instagram, onde a marca conquista cada vez mais seguidores. Hoje, são mais de 5 mil. 
Para noivas modernas   



A designer Flávia Dutra trabalha majoritariamente com noivas, que podem optar por alugar as peças prontas pagando cerca de 400 reais. O valor dá direito a dois dias de uso (geralmente a prévia de maquiagem e a data em que acontece a cerimônia). Elas também podem encomendar itens sob medida. No ateliê da Baroque, na Octogonal, é preciso agendar visita por telefone. Headbands (tiaras mais maleáveis), pulseiras e brincos são folheados em materiais nobres, como ouro branco e ouro rosa. 'Não trabalho com a estética princesa. Minha noiva é mais rústica, pé no chão, prefere casamentos menores mas cheios de personalidade. É uma tendência em Brasília', diz a empresária e artesã.  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para noivas modernas

A designer Flávia Dutra trabalha majoritariamente com noivas, que podem optar por alugar as peças prontas pagando cerca de 400 reais. O valor dá direito a dois dias de uso (geralmente a prévia de maquiagem e a data em que acontece a cerimônia). Elas também podem encomendar itens sob medida. No ateliê da Baroque, na Octogonal, é preciso agendar visita por telefone. Headbands (tiaras mais maleáveis), pulseiras e brincos são folheados em materiais nobres, como ouro branco e ouro rosa. "Não trabalho com a estética princesa. Minha noiva é mais rústica, pé no chão, prefere casamentos menores mas cheios de personalidade. É uma tendência em Brasília", diz a empresária e artesã.
 
Esse diálogo se fortalece na interação com o público, que pode trocar impressões, checar preços e opinar em tempo real. De acordo com um estudo divulgado no ano passado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o WhatsApp é a forma de comunicação com os clientes usada por 51,9% dos jovens empreendedores. 
 
Ele é o elo central entre Fabiany Christine e os fãs da Dot Paper, papelaria do segmento de luxo presente há quase 15 anos na capital. Embora brinque ao dizer que “não é tão nova assim”, a empreendedora, de 38 anos, começou cedo. Fundou a marca aos 24, realizando um sonho de infância. Todos os dias, mesmo com a empresa consolidada e reconhecida nacionalmente, acorda sabendo que precisa entender e se adaptar às mudanças do mercado. Desde que conseguiu clientes famosos, como a cantora Cláudia Leitte, Fabiany percebeu que seria preciso romper as fronteiras das Asas Sul e Norte para ver o negócio decolar: “A maior parte das vendas vai para São Paulo. Mando cerca de cinco caixas de produtos toda semana para o estado. Apesar disso, sempre continuarei investindo no mercado local”, garante.
Do convite à organização   



Do lápis aos itens decorativos, personalização é palavra de ordem na papelaria de luxo sob comando de Fabiany Christine, com vendas on-line e na loja situada no Gilberto Salomão. A mais recente empreitada da dona da Dot Paper é a curadoria completa na realização de eventos, inclusive os de grande porte. Do convite ao bufê, Fabiany toma conta de tudo relacionado aos festins. 'Era algo que muitas clientes me pediam e resolvi fazer também isso, facilitando o trabalho de quem tem um evento para organizar', afirma.  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Do convite à organização

Do lápis aos itens decorativos, personalização é palavra de ordem na papelaria de luxo sob comando de Fabiany Christine, com vendas on-line e na loja situada no Gilberto Salomão. A mais recente empreitada da dona da Dot Paper é a curadoria completa na realização de eventos, inclusive os de grande porte. Do convite ao bufê, Fabiany toma conta de tudo relacionado aos festins. "Era algo que muitas clientes me pediam e resolvi fazer também isso, facilitando o trabalho de quem tem um evento para organizar", afirma.
 
Advogada de formação, Lucila Pena não se sentia plena com a atividade que exercia. Influente nas mídias digitais, com mais de 30 mil seguidores, resolveu lançar a marca homônima no ano passado. Para criar a linguagem elegante, romântica e cool que as peças transmitem, a brasiliense aperfeiçoou-se em cursos livres da Escola São Paulo e da Perestroika, além das aulas de modelagem e de corte e costura com o estilista Akihito Hira. Aos 30 anos, dois deles dedicados exclusivamente à marca, ela acredita que não se deve ter amarras na hora de empreender. “Aprendi muito na carreira jurídica, mas sempre soube que não era o que me trazia felicidade e realização profissional”, conta.   

Elegância sob medida  

Os vestidos festivos, principal produto da grife Lucila Pena, fazem sucesso pela versatilidade. Um deles tem uma saia que pode ser retirada, permitindo outras combinações. 'Um diferencial da marca são as peças que podem ser desmembradas ou as avulsas, tornando-se outro look', afirma a empresária. Lucila Pena atende sob medida em estúdio no Lago Sul. Há, ainda, a chance de conhecer a coleção pronta-entrega nas multibrands Q.U.A.D.R.A (também no Lago Sul) e SP Brands, no Iguatemi Brasília. 'Mas tenho clientes de fora do DF também', diz a empresária.  (Victoria Junqueira/Divulgação)
Elegância sob medida

Os vestidos festivos, principal produto da grife Lucila Pena, fazem sucesso pela versatilidade. Um deles tem uma saia que pode ser retirada, permitindo outras combinações. "Um diferencial da marca são as peças que podem ser desmembradas ou as avulsas, tornando-se outro look", afirma a empresária. Lucila Pena atende sob medida em estúdio no Lago Sul. Há, ainda, a chance de conhecer a coleção pronta-entrega nas multibrands Q.U.A.D.R.A (também no Lago Sul) e SP Brands, no Iguatemi Brasília. "Mas tenho clientes de fora do DF também", diz a empresária.
 
Para Antônio Valdir Oliveira Filho, diretor superintendente do Sebrae no Distrito Federal, empresários com esse perfil inovam com mais facilidade: “O segredo é conseguir manter essa posição ao longo do tempo, sem correr o risco de ser um mero modismo. Eu diria que é primordial se reinventar na mesma proporção em que se cria a novidade. Jovens vivem de forma mais intensa o mercado porque são eles quem fazem essas pequenas revoluções”, afirma o especialista. 
 
Com passagem pela University of London e professor de pós-graduação em marketing da Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Rossi defende: nos dias atuais, os consumidores estão escolhendo uma lista cada vez menor de marcas para depositar os dividendos. Inovação e confiança são palavras fundamentais. Precisam nortear quem está do outro lado do balcão. “Vencerão os empreendedores criativos que pensarem em produtos e serviços que possam ser compartilhados, tenham durabilidade e se fortaleçam com as comunidades digitais”, diz.  
 
QUER EMPREENDER?
Então confira algumas dicas para fazer o investimento render e o novo negócio bombar
 
Qualifique-se

Faça cursos de pós-graduação, MBA, workshops. Lembre-se de que formação educacional não é gasto, mas investimento. E quanto antes, melhor. Segundo a Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje), 86% dos jovens relatam que não se prepararam para empreender ao longo da idade escolar.

Olho nas finanças

Cerca de 31% dos empresários com menos idade veem na gestão financeira um dos principais empecilhos para crescer, segundo o Conaje. Se acha que não tem bom relacionamento com os números, procure um profissional especializado para que não aconteça o efeito "cano furado", quando não se sabe para onde estão indo os investimentos.

Invista nas redes sociais

Um estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) constatou que o WhatsApp é a principal forma de comunicação de 51,9% dos jovens empreendedores com os clientes. Outras mídias digitais como o Instagram e Facebook têm ferramentas para páginas de negócios a preços em conta, como posts patrocinados a partir de 10 reais, que prometem o triplo de alcance de usuários.  

Apaixone-se

Ter engajamento no que faz vai além de comandar uma empresa. Procure algo autêntico e com personalidade. Empenho é fundamental, mas ser encantado pelo que vende é intrínseco ao sucesso de qualquer empreendimento. 

Entenda o perfil dos clientes

Segmente os consumidores e concentre-se nos mais lucrativos e influentes. Faça perguntas como: quem são eles? Existem novos segmentos de mercado a serem traçados? Se houver, quem são e como são esses potenciais consumidores? 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017