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Ficar sem comer faz bem?

Especialistas explicam as vantagens e os riscos do jejum intermitente, usado para ajudar no controle do peso e na renovação do sistema imunológico

Isabela de Oliveira - Redação Publicação:07/06/2017 12:39Atualização:07/06/2017 13:07
Sem pílulas, sem milagres, sem custos. Por outro lado, sobra sacrifício: essa é a promessa de emagrecimento do jejum intermitente (JI), prática milenar que perdeu a exclusividade religiosa e política para se firmar como uma tendência fitness. Consiste, basicamente, em intercalar períodos de alimentação normal com outros de abstinência. O propósito não é morrer de fome, mas concentrar as refeições diárias em uma janela de tempo que varia de uma a 12 horas. Sem acompanhamento profissional, contudo, o método oferece riscos que não se deve correr.
 
O JI não é uma dieta e não altera, por si só, o que se come, mas quando se come. Está mais para um estilo de vida que promove maior queima de gordura. Quem jejua fica de 12 horas a 48 horas sem se alimentar, podendo ser até mais. “Existem vários protocolos, mas o mais comum é o de 16 horas sem comida, diariamente ou algumas vezes na semana”, esclarece Débora Melo, professora do Departamento de Nutrição do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). 
A professora de nutrição do Uniceub 
Débora Melo explica que para cada tipo 
de jejum há um protocolo a ser seguido: 
'O mais comum é o de 16 horas sem comida, diariamente ou algumas vezes na semana' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A professora de nutrição do Uniceub Débora Melo explica que para cada tipo de jejum há um protocolo a ser seguido: "O mais comum é o de 16 horas sem comida, diariamente ou algumas vezes na semana"
 
Pode parecer difícil, mas há um alento: as horas de sono contam, o que torna o jejum menos assustador. Mesmo assim, os primeiros dias são difíceis, avalia Fernanda de Carvalho, de 17 anos, uma adepta recente. “Achamos que estamos com fome, ficamos ansiosas e querendo comer tudo, mas depois o corpo se acostuma. O meu demorou três dias para que eu não ficasse mal”, conta a estudante, que faz a última refeição do dia às 18h, antes de ir à academia. “Chego em casa por volta de 21h e não como mais nada. Só no dia seguinte, no café da manhã”, conta.
A estudante Fernanda de Carvalho conta que os primeiros dias foram muito difíceis, mas já se acostumou: sua última refeição diária é às 18h, antes de ir para a academia, e só volta a comer no café da manhã seguinte (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A estudante Fernanda de Carvalho conta que os primeiros dias foram muito difíceis, mas já se acostumou: sua última refeição diária é às 18h, antes de ir para a academia, e só volta a comer no café da manhã seguinte
 
Cardiologista e clínico ortomolecular, Herval Cavalcanti Martins diz que o jejum é um período de “férias para o organismo”. “Antigamente, não existia lanchinho, e comer de três em três horas é um hábito novo na sociedade, coisa de 50 anos para cá. A pessoa fica o dia inteiro digerindo, então o corpo não descansa.” O médico completa que devido aos milênios de fome, o organismo humano evoluiu para tirar proveito de poucas refeições, mantendo-se saudável e longevo com poucas calorias diárias. 
Para quem não tem contraindicações, o cardiologista e clínico ortomolecular Herval Martins recomenda 
a restrição alimentar como um descanso para o corpo: 'O objetivo é aliviar o pâncreas, fígado e intestino' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para quem não tem contraindicações, o cardiologista e clínico ortomolecular Herval Martins recomenda a restrição alimentar como um descanso para o corpo: "O objetivo é aliviar o pâncreas, fígado e intestino"
 
Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Fábio Trujilho acrescenta que não há evidências científicas que sustentem a alimentação de três em três horas. Para os que se adaptam, há redução de 3% a 8% do peso corporal, sem prejuízo da massa magra. “Isso se deve à engenharia que o corpo cria para lidar com o período sem comida”, diz. 
 
O alvo principal do JI é a insulina, hormônio que transporta glicose – um tipo de açúcar obtido nos alimentos, sobretudo carboidratos – às células, onde transforma-se em energia. Liberada durante a alimentação, a insulina também sinaliza ao organismo que parte dessa energia deve ser armazenada como gordura. Como esse hormônio é baixo no JI, pois não há ingestão de glicose, a gordura é usada para gerar energia e isso preserva os músculos, ao mesmo tempo que acelera o emagrecimento.
O endocrinologista Fábio Trujilho diz que no JI há redução de 3% a 8% do peso, sem prejuízo da massa magra: 'Isso se deve à engenharia que o corpo cria para lidar com o período sem comida' (Celso Pupo/Divulgação )
O endocrinologista Fábio Trujilho diz que no JI há redução de 3% a 8% do peso, sem prejuízo da massa magra: "Isso se deve à engenharia que o corpo cria para lidar com o período sem comida"
 
Segundo Fábio Trujilho, o jejum intermitente atua também nos hormônios de crescimento, beneficiando a massa muscular. Ele alerta, entretanto, que não existem muitas pesquisas com humanos para atestar tudo isso. “O que sabemos é que o jejum promove a perda de peso”, diz. “Mas se é apenas porque a pessoa come menos ou por outros fatores, não sabemos.”
 
Embora o processo seja uma reação natural do corpo à escassez de alimento, não é todo organismo que responde bem. Há casos como da administradora Ana Maria Ribeiro, de 28 anos, que comecei ficando 12 horas sem comer e depois aumentou para 16. “Eu acordava passando mal, minha pressão ficava baixa, sentia tontura, parecia que ia desmaiar”, afirma. Até pesquisar melhor sobre o assunto, Ana não sabia que quem tem hipoglicemia, como ela, não deve fazer jejum.
A administradora 
Ana Maria Ribeiro 
já ficou 16 horas 
sem comer, mas 
teve de parar porque tem hipoglicemia: 
'O médico me disse 
que o jejum não era indicado para mim. 
Hoje, sigo um plano alimentar convencional' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A administradora Ana Maria Ribeiro já ficou 16 horas sem comer, mas teve de parar porque tem hipoglicemia: "O médico me disse que o jejum não era indicado para mim. Hoje, sigo um plano alimentar convencional"
 
Uma feliz coincidência a salvou de um desfecho pior: ela iniciou o JI na mesma época em que fazia exames endocrinológicos. “Detectamos alterações e o médico me disse que o JI não era indicado para mim. Hoje, sigo um plano alimentar convencional. Se eu tivesse procurado o especialista antes, não teria me arriscado”, diz. Além de hipoglicemia, são comuns queixas de letargia, confusão mental, dor de cabeça, insônia, mau hálito, gastrite e náusea.
 
Essa lista de reações ruins é o que impede Lorrana Lopes de iniciar o JI, que ela conheceu lendo reportagens sobre celebridades. “Ainda não comecei e não conheço ninguém que jejue. O meu maior medo é passar mal e também não faço ideia de como selecionar os alimentos certos. Não tenho coragem de fazer sem apoio profissional”, admite a secretária de 23 anos. 
Decidida a mudar o estilo de vida, a secretária Lorrana Lopes procura apoio profissional para começar o jejum: 'Não faço ideia de como selecionar os alimentos certos' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Decidida a mudar o estilo de vida, a secretária Lorrana Lopes procura apoio profissional para começar o jejum: "Não faço ideia de como selecionar os alimentos certos"
 
O JI é contraindicado para diabéticos, dependentes de medicamentos que induzem a hipoglicemia, crianças em fase de crescimento, pessoas com organismos debilitados e deprimidos, insones, anoréxicos, cardíacos e indivíduos com gastrite. Para fazer valer o sacrifício, os que não têm restrições devem valorizar a nutrição. Herval Martins sugere uma dieta mais vegetariana, com pouca carne e nada de enlatados e processados. “O objetivo é gerar ganhos para o organismo, aliviar o pâncreas, fígado e intestino. O estresse deve ser compensado com alimentos saudáveis. Assim, as perdas serão só de toxinas e peso, e não de saúde”, explica o médico.
 
A alimentação adequada também evita a fome desesperadora e a compulsão. “Se a dieta for baseada em carboidratos, haverá fome em duas ou três horas após comer porque o nível de insulina desce e o organismo sente falta, já que está habituado a consumir só glicose”, explica a professora Débora Melo. As refeições saudáveis potencializam benefícios como melhor resposta imunológica, bom funcionamento do fígado, prevenção de câncer, melhora da inflamação geral e redução de risco para doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. 
 
Nutricionista especializada em vegetarianismo e veganismo, Noemy Israel acrescenta a renovação celular aos ganhos obtidos com o jejum. “Essa renovação aumenta a longevidade, pois as células ruins são eliminadas”, diz. E foi justamente esse ponto que agradou a Diogo Augusto de Almeida Campos, de 31 anos. “Assisti a um documentário sobre JI e fiquei impressionado com a possibilidade de renovação celular”, conta o fisioterapeuta, que jejua três vezes por semana, no máximo, há mais de três anos. Depois de quase um mês seguindo o sistema, ele notou mais disposição e atenção ao acordar. “Os homens das cavernas precisavam procurar comida, ficavam alertas. O jejum favorece a atenção”, diz. 
Para a nutricionista Noemy Israel, a renovação celular é um dos ganhos obtidos com o jejum: 'Essa renovação aumenta a longevidade, pois as células ruins são eliminadas ao jejuar' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para a nutricionista Noemy Israel, a renovação celular é um dos ganhos obtidos com o jejum: "Essa renovação aumenta a longevidade, pois as células ruins são eliminadas ao jejuar"
 
Noemy acreditar que é possível controlar o vício em comida com JI. “Os alimentos têm ingredientes viciantes. A indústria alimentícia nos induz a comer como malucos e é por isso também que a obesidade é uma preocupação mundial. Para quem é apto a fazer o jejum, ele ensina a controlar a fome, a compulsão e a ansiedade. Ele está aí desde que o mundo é mundo, é bíblico. Antes, as pessoas sabiam que jejuar fazia bem ao espírito. Agora, a ciência confirma que também fortalece a carne”, diz a nutricionista.   
Para o fisioterapeuta Diogo Campos, o JI é uma realidade há mais três anos, prática que ele adota três vezes por semana: mais disposição e atenção ao acordar são algumas das vantagens em sua vida (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o fisioterapeuta Diogo Campos, o JI é uma realidade há mais três anos, prática que ele adota três vezes por semana: mais disposição e atenção ao acordar são algumas das vantagens em sua vida
 (Arte/Encontro)

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017