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SAÚDE | Sono »

Um antídoto para a insônia

Melatonina, suplemento alimentar que virou medicamento, pode ser a solução para acabar com as noites maldormidas, mas seu uso indiscriminado preocupa os especialistas

Daniela Costa - Publicação:07/06/2017 13:32
Mexe, remexe e nada de o sono chegar. Quem nunca sofreu com a insônia, que agradeça a boa sorte. Segundo pesquisa realizada pela Associated Professional Sleep Societies (Associação Profissional das Sociedades do Sono, em português), a insônia faz parte da rotina de até 40% da população mundial. O alerta também foi dado pela Associação Brasileira do Sono (ABS), que definiu alguns critérios para qualificar o problema. Quando a dificuldade de pregar os olhos à noite persiste por pelo menos três vezes na semana, é sinal de que alguma coisa vai mal. O resultado são olheiras gigantes, aparência de cansaço, mau humor, baixa da imunidade, falta de concentração e queda da produtividade. Acidentes no trânsito e no trabalho também podem ser desencadeados. Em grandes metrópoles, o ritmo frenético e a rotina estressante são gatilhos para noites em claro. 
 
Um dos grandes vilões da insônia é a diminuição nas taxas do hormônio do sono, a melatonina, responsável pelo controle do ritmo circadiano do organismo (relativo ao período de 24 horas do dia). “Produzida pela glândula pineal, localizada na região central do cérebro, regula os ciclos de sono e vigília e do metabolismo energético. Sua produção é aumentada no período noturno devido à ausência de luz”, explica o endocrinologista Paulo Augusto Carvalho Miranda. Contudo, a exposição à claridade à noite ou ao escuro durante o dia pode alterar o seu ritmo de produção, interferindo na temperatura corporal, secreção de hormônios e pressão arterial. O déficit de melatonina natural levou a indústria farmacêutica a produzir sua versão sintética. A ideia é substituir os fármacos químicos que induzem ao sono e têm muitos efeitos colaterais. A estudante de veterinária Michele Lanna Teixeira sofria com o sono desregrado. “Como dormia mal à noite, após o almoço queria cochilar até a hora do jantar e ainda assim me sentia cansada. Depois que comecei a tomar a melatonina, durmo tão bem que acordo superdisposta”, diz. 
A estudante Michele Lanna Teixeira sofria com o sono desregrado: 'Depois que comecei a tomar a melatonina, durmo tão bem que acordo superdisposta' (Ronaldo Dolabella)
A estudante Michele Lanna Teixeira sofria com o sono desregrado: "Depois que comecei a tomar a melatonina, durmo tão bem que acordo superdisposta"
 
Comercializado a princípio como suplemento alimentar, o hormônio do sono virou febre mundial. Seu uso indiscriminado, no entanto, gerou preocupação entre os especialistas. O consumo de doses excessivas – 10 mg equivalem a 60 vezes a produção natural – e a falta de fiscalização foram apenas alguns dos problemas constatados. Por não ser considerada remédio, os fabricantes não precisavam comprovar sua eficácia nem mesmo contra a insônia. A história começou a mudar a partir da década de 2000, quando vários países passaram a ter o suposto suplemento como droga, sujeito a prescrição médica (com exceção dos Estados  Unidos, onde a melatonina ainda é considerada suplemento alimentar e vendida livremente). No Brasil, a importação do insumo da versão sintética teve sua comercialização liberada em outubro do ano passado, mas somente como medicamento e por farmácias de manipulação. A importação para uso pessoal só é permitida com receituário médico. Bem antes disso, há 15 anos, o corretor de imóveis e atleta de jiu-jítsu Bruno Sussmann Guimarães já havia descoberto os benefícios do medicamento. “Na época, a rotina de treinos pesados para competição fazia com que eu tivesse uma noite agitada”, diz. “A melatonina me fez ter um sono de qualidade, reparador.”
 
A demanda pelo produto aumentou ainda mais quando pesquisas apontaram que a melatonina possuiria propriedades anti-inflamatórias. Também agiria contra a enxaqueca, atuaria nos distúrbios neurológicos e até no combate ao câncer. “Existem várias investigações sobre a atuação da melatonina no organismo, mas não há comprovação científica de sua eficácia nessas áreas”, alerta o endocrinologista Paulo Augusto. Apesar de ser eficaz nos casos de distúrbios do sono, o hormônio não deve ser consumido de forma contínua. A neurologista Elizabeth Regina Comini Frota alerta que existe um período de adaptação. Após três meses de uso, o efeito desejado diminui consideravelmente. “A dose ideal para adultos é de 2 mg diários”, diz. 
A rotina de treinos pesados para competição de jiu-jítsu comprometia as noites de sono do atleta Bruno Sussmann Guimarães: 'A melatonina me fez 
ter um sono de qualidade, reparador'' (Paulo Márcio  )
A rotina de treinos pesados para competição de jiu-jítsu comprometia as noites de sono do atleta Bruno Sussmann Guimarães: "A melatonina me fez ter um sono de qualidade, reparador''
 
Mesmo sendo questionado, o hormônio também está sendo indicado para crianças que apresentam distúrbios neurológicos. Há três anos, a empresária Luiza Guerra descobriu que a melatonina poderia auxiliar no tratamento da filha, Laura, de 9 anos, diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA). “Além de dormir pouco, o seu sono era muito inconstante. O hormônio serviu como terapia complementar e trouxe resultados muito positivos”, afirma. Para o médico e professor titular do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) José Cipolla Neto, nada justifica a proibição de sua comercialização pela indústria farmacêutica brasileira. “Acredito que a Anvisa deveria liberar a venda, tendo em vista que há dados científicos suficientes na literatura que embasam a sua prescrição médica”, diz. 
 
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