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SAÚDE | Comportamento »

O suicídio sai das sombras

Após lançamento da série 13 Reasons Why e aparecimento do desafio da Baleia Azul, especialistas discutem o tema que afeta cada vez mais os jovens e ainda é tabu para as famílias

Marina Dias - Redação Publicação:07/06/2017 15:11Atualização:07/06/2017 15:40
O lançamento da série da Netflix 13 Reasons Why (baseada no livro homônimo, traduzido em português como Os 13 Porquês) e a divulgação de casos de mortes de adolescentes brasileiros com possível ligação com o desafio da Baleia Azul, nos últimos meses, colocaram em pauta o tema do suicídio entre jovens. O seriado conta a história de uma jovem que sofre bullying, abuso sexual e problemas na escola e, por isso, decide se matar. Antes, grava fitas para serem ouvidas pelas pessoas que considera culpadas por sua decisão. Já o desafio – que não se sabe ainda se é real e é alvo de investigação policial – tem sido divulgado como uma série de tarefas que um curador de grupo de WhatsApp envia para os membros, sendo que a última seria uma ordem de tirar a própria vida.  
 (Divulgação)
 
Diante desses dois eventos e de todas as discussões em torno deles (se a série foi feita de maneira educativa, se a cena de suicídio deveria ter sido tão expositiva, como evitar que jovens entrem no desafio…), pais têm se questionado sobre se e como devem abordar o assunto com os filhos. Encontro conversou com dois especialistas a respeito da questão. Eles apontam os problemas da série e a forma como o tema tem sido abordado, mas concordam que discutir o assunto em casa é essencial. Aliás, já seria, mesmo sem esses acontecimentos. Confira abaixo o que dizem o psiquiatra Humberto Corrêa e a psicanalista Juliana Marques Caldeira Borges.
Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, vice-presidente 
da Associação Mineira de Psiquiatria, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio 
e presidente da Associação 
Latino-Americana de Suicidologia (Claudio Cunha)
Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, vice-presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia
 
Deve-se contar histórias de suicídio, especialmente em obras voltadas para o público jovem?
Falar sobre o assunto é fundamental, pois suicídio é questão de saúde pública no Brasil e no mundo. Na maioria dos países, está entre as principais causas de morte, e tem-se observado o aumento da mortalidade por suicídio na população entre 15 e 29 anos – no Brasil inclusive. Então é preciso falar do tema, sim, e sempre. Até porque é um assunto negligenciado, tabu. Contudo, há formas adequadas e inadequadas de se falar sobre isso. O seriado, em alguns aspectos, aborda o tema de maneira muito negativa.

Seria negativo o fato de a série mostrar o suicídio da protagonista de forma detalhada?
Sim. A série é destinada a adolescentes, que são um público mais propenso ao que chamamos de contágio do suicídio. Esse é um efeito que já se conhece há séculos. Sabe-se, por exemplo, que em uma escola, quando ocorre um suicídio, nos dias e semanas seguintes, aumentam a ideação suicida dos alunos, as tentativas e os suicídios. E a série mostrou o ato de forma detalhada. Isso é a primeira coisa que não se deve fazer: mostrar meios de se matar, porque isso dá o exemplo a outras pessoas.

A pessoa que tiver essa intenção não vai procurar formas de fazê-lo?
A maioria dos suicídios é impulsiva. Um exemplo concreto: qualquer medida de restrição do acesso ao método reduz a mortalidade por suicídio. Se a pessoa não tem acesso àquele meio na hora, a ideia passa e ela não se mata.

Como os pais podem lidar com o desafio da Baleia Azul?
Nós não temos a exata dimensão do que seja esse jogo no Brasil. Mas os adolescentes, que estão passando por um momento de formação de personalidade, têm essa tendência de se identificar em grupo, e às vezes é difícil para os adultos penetrar nos códigos que eles criam entre si. Isso faz parte do processo de individualização, e pode-se perceber que num grupo sempre há líderes e seguidores. Então isso faz parte do processo, mas é preciso estar atento. Se o pai perceber que o filho está envolvido em algo do tipo, é preciso dar um “não” imediatamente e chamar a polícia, pois quem promove esses desafios está cometendo um crime.

A que sinais os pais devem estar atentos?
Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas tinham uma doença mental no momento em que se mataram. Em termos absolutos, a mais importante é a depressão. No adolescente, muitas vezes se pode identificar a depressão por mau desempenho na escola, isolamento, irritabilidade, mudanças no padrão de comportamento. E muitas vezes ele pode expressar tristeza, ideia de morte. E aí deve-se procurar ajuda profissional rapidamente.

Qual a importância de não se banalizar as questões pelas quais os jovens estão passando?
Alguns motivos podem nos parecer fúteis, mas não o são para eles. Na Inglaterra, estudiosos acompanharam adolescentes que haviam tentado suicídio por ter brigado com a namorada, tomado bomba na escola… Acompanharam esses jovens por dois anos. Depois desse tempo, 75% deles tentaram de novo, mesmo aquele motivo não existindo mais.  

Políticas públicas de prevenção de suicídio têm efeitos consideráveis?
Países que definiram estratégias nacionais de prevenção têm conseguido, do ano 2000 para cá, reduzir 10%, 15%, 20% da mortalidade por suicídio. As estratégias variam, mas normalmente incluem, entre outras coisas, restrição ao método. Na Inglaterra, nos anos 1970, por exemplo, 90% das pessoas se suicidavam com gás de cozinha. Eles modificaram a fórmula do gás, e as pessoas deixaram de se matar assim. Houve uma pequena migração para outros métodos, mas inferior ao número de óbitos que conseguiram evitar. O Brasil, infelizmente, não tem nenhuma política nesse sentido.  
Psicanalista, presidente do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, vice-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise e especialista na área da infância e adolescência (Ronaldo Dolabella  )
Psicanalista, presidente do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, vice-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise e especialista na área da infância e adolescência
O que acha de o tema suicídio ter vindo à tona por causa da série e do desafio da Baleia Azul?
É um tema preocupante e que deve ser discutido, mas não pelo viés do sensacionalismo. Senão, perdemos a oportunidade de pensar na seriedade e profundidade da questão. O suicídio na adolescência não está restrito a esse momento da série ou do desafio. Abrange outras questões. E não é o mesmo ato para todos os adolescentes. Têm de ser levados em conta a particularidade do jovem e o momento pelo qual ele está passando. 

Por que a senhora diz que não se pode tratar a questão de forma sensacionalista?
Existem estudos que apontam que mais de 90% dos suicídios na adolescência envolvem algum problema psíquico. Então, se o adolescente está adoecido psiquicamente e começa a ver que há muita notícia em torno de uma cena de suicídio, de um jogo, de algo que capta a atenção de toda a sociedade, ele também vai se interessar. Pode buscar aquilo que está vendo como ponto de identificação. Pode pensar “estou sofrendo como essa menina” ou “estou perdido como os jovens que participam do desafio”. 

Como os pais podem abordar o tema?
O grande engano dos pais é imaginar que falar sobre temas tabus fará com que filhos passem a ter uma ideia na cabeça que não tinham antes. Nenhum jovem vai fazer alguma coisa porque os pais chamaram para conversar sobre aquilo. Muitas vezes o adolescente já discute o tema fora de casa e não fala com a família, porque não achou espaço. Então os pais devem, sim, conversar, e de maneira que respeitem o jovem. Isso porque muitas vezes a conversa é unilateral — na verdade é só um sermão. Só se o filho se sentir respeitado, terá o desejo de compartilhar seu pensamento. 

O que os pais devem esperar da adolescência? 
Quando o filho é criança, os pais são referência. Nessa fase o filho escuta o que eles determinam sem muito questionamento. Na adolescência ele reflete sobre “quem eu sou”, “meu desejo”, “quem eu quero ser”. Para lidar com isso, o jovem muitas vezes se afasta, pode apresentar-se um pouco arredio, sem querer estar perto dos pais ou aceitar sua fala. Nesse momento, o grupo de amigos é importante. Eles se juntam, fazem programas, têm comportamentos semelhantes. E os pais precisam entender que é importante respeitar esse grupo. Muitas vezes, os pais fazem críticas a um colega, como se estivessem desconsiderando a importância do grupo para o jovem. O filho pode se sentir ofendido e vai se afastar mais ainda da família.  

E quais são os sinais de que existe um problema?
Costumo dizer que tudo que vem em exagero merece atenção. Agressividade acentuada, nervosismo grande, impaciência demais, comportamento que muda rapidamente… Isso pode apontar para uma questão psíquica mais séria ou para uso de drogas ou bebida. Da mesma maneira, um jovem que começa a se isolar demais, ficar só no quarto, que não tem nenhum amigo pode ser indicativo de que algo não vai bem. Também pode ser preciso ajuda para reconstruir o laço familiar, quando pais sentirem que não conseguem se aproximar dos filhos.  

Como se envolver mais na vida do jovem sem que ele sinta que isso é uma invasão de sua privacidade?
Uma das características da adolescência é o sentimento de onipotência, de que nada de errado vai acontecer. Por isso os jovens têm tanta resistência quanto aos pais os monitorarem de perto. Então, isso tem de ser construído na família. Pais têm de conversar, orientar e dizer: “Se você perceber que está envolvido em algo complicado, tem de confiar em nós e talvez tenhamos de ver as mensagens juntos”. Mas tudo é caso a caso. Não há uma norma geral. Se a situação ficar realmente complicada, podem também procurar a ajuda de um profissional.  
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017