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COLUNA | Nas telas »

David Lynch retorna a Twin Peaks

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:29/06/2017 13:05
No tempo da televisão a lenha, quando as opções se restringiam a cinco ou seis canais abertos, a TV Globo trazia para o Brasil a série que revolucionou o gênero nos Estados Unidos. Com exibição aos domingos, depois do Fantástico, Twin Peaks (1990/1991) foi lançada como um seriado de mistério, com a pergunta: “Quem matou Laura Palmer?”, na folgada estrutura de costume usada nas telenovelas. Mas quem conhecia David Lynch, inventor da referência cult Veludo Azul (1986), sabia que a sua nova produção iria muito além de um pacato jogo investigativo, situado numa cidadezinha do interior.
 
Subestimando os fãs de Lynch, temendo passar do que acreditava ser palatável para seu telespectador comum, a TV Globo retalhou as duas temporadas exibidas, para escapar das sequências confusas ou chocantes. Mesmo assim, Twin Peaks, criação de David Lynch e Mark Frost, ficou no imaginário de quem tinha mais de 10 anos na época. O visual e a linguagem eram uma enorme ousadia para os padrões televisivos. David Lynch fazia cinema, recortado em capítulos por semana. Aposta alta que deu resultado, principalmente pela inteligência de Lynch em saber dosar o desequilíbrio com o ritmo didático, quando da urgência de um respiro.
David Lynch entre a mulher, Emily Stofle, e o ator Kyle MacLachlan, 
no Festival de Cannes: diretor e ator voltam com tudo na série de TV ( Oleg Nikishin/Epsilon/Getty Images)
David Lynch entre a mulher, Emily Stofle, e o ator Kyle MacLachlan, no Festival de Cannes: diretor e ator voltam com tudo na série de TV
 
Tudo que a televisão inventou depois tinha a influência direta ou disfarçada das duas temporadas de Twin Peaks. JJ Abrams admirador confesso, disse para a equipe de Lost, que sua meta era se aproximar da excelência do mítico seriado. Sem o salto de Twin Peaks seria impossível imaginar que existisse, por exemplo, Breaking Bad, Arquivo X, Walking Dead e, até mesmo, Game of Thrones.
 
Com a volta da série 26 anos depois, agora produzida para o canal Showtime, com exibição simultânea para o Brasil através da Netflix, a impressão maior é a de que Twin Peaks sempre existiu, permanecendo guardada em algum lugar do inconsciente esse tempo todo. A atmosfera é retomada de forma extraordinária, agradando o fã do gênero David Lynch, único capaz de amarrar o sonho ao cotidiano mais suburbano e caipira.
 
Astro máximo do show, o agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) regressa preso na dimensão paralela, espécie de inferno para uns e purgatório para outros, com o inesquecível cenário das suntuosas cortinas de veludo vermelho, em contraste com o chão em mosaico. Ao mesmo tempo, sua cópia, com traços indígenas e cabelos compridos, toca o terror, usando seu título do FBI na prática de delitos, ao cruzar de carro vários estados norte-americanos.
 
Explicar a trama é profanar a intenção primeira dessa ficção. Em cada episódio, David Lynch surpreende o público. Quando se cogita que a história caminha em direção à lógica o inquieto diretor saca da manga uma vertente bizarra, que pode insinuar, por exemplo, o contato com extraterrestres ou a interação com criaturas malignas. Fica a interpretação, a teoria que junta os núcleos ao gosto e de acordo com o ponto de vista que se quiser acreditar.
 
Sabedor de explorar a fotografia feminina, David Lynch tem várias de suas divas à disposição na nova temporada de Twin Peaks. Caso das consagradas Laura Dern e Naomi Watts. Sua câmera, porém, descobre novos talentos, a exemplo da incrível cena com a presença da linda atriz Amanda Seyfried. Terminando cada capítulo no icônico Bar Bang Bang, ao som da nova boa música norte-americana, David Lynch paga uma dívida deixada há duas décadas, agora com todos os recursos possíveis para mergulhar cada vez mais fundo nas suas alucinações.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017