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CULTURA | Artes Cênicas »

Teatro em movimento

Companhias independentes agitam a cena teatral do DF e jovens atores de cinco grupos mostram como se esforçam para produzir seus espetáculos e atrair o público da capital

Isabella de Andrade - Publicação:29/06/2017 15:12Atualização:29/06/2017 16:36
O teatro produzido por grupos de atores, músicos, cenógrafos e diretores, que se unem para manter viva sua criação, aparece como ponto forte no trabalho feito entre palcos candangos e espaços alternativos nos mais diferentes pontos do Quadradinho. Produções independentes, criações coletivas e muita vontade de criar um diálogo cada vez mais amplo com o público são alguns dos pontos de incentivo para permanecer em constante movimento. É o caso da Fábrica de Teatro, companhia que ampliou seu trabalho para além dos palcos e aventurou-se em produções fotográficas, cinema, televisão e, mais recentemente, em um projeto para a internet. O grupo teatral, criado em 2009, investe atualmente, para além de seus espetáculos, em vídeos divulgados periodicamente no projeto Valorizando Conhecimentos. A proposta é estimular o diálogo entre artistas participantes de diferentes grupos, companhias e coletivos da capital. A economia colaborativa é base do trabalho, que busca levar informação, dicas e debates a artistas iniciantes e veteranos do DF, ampliando as frentes de trabalho e produção.
A Volta dos que Não Foram, um dos espetáculos da Cia. Teatro de Açúcar: desde 2013 eles têm incentivo de instituições internacionais (Diego Bresani/Divulgação )
A Volta dos que Não Foram, um dos espetáculos da Cia. Teatro de Açúcar: desde 2013 eles têm incentivo de instituições internacionais
 
Josuel Júnior, um dos integrantes e fundadores da Fábrica, conta que começou a fazer teatro em Samambaia, durante uma preparação para encenar a Paixão do Cristo Negro. Era a única opção para quem buscava cultura no local e o contato com bons professores, além da possibilidade de participar de uma grande montagem, bases que serviram como estímulo para pensar em criar novos espaços e opções artísticas para a cidade. Josuel lembra que era difícil encontrar opções fora do Plano Piloto: “Samambaia era lugar de contrapartida de um projeto sociocultural e nós, quando fazíamos uma peça e entrávamos em cartaz, éramos sempre os ‘meninos de Samambaia’, os ‘jovens em situação de risco’. Isso foi criando uma resistência em nós mesmos”, diz. 
 
A partir dessa vontade de ampliar os caminhos de cultura no DF, o ator se uniu à amiga de palco e atriz Tássia Aguiar. O encontro resultou na criação da companhia, que no início pretendia trabalhar numa linha de produção cultural que os valorizasse mais como pessoas e artistas. Atualmente, a Fábrica é composta também por Rafael Soul e Júnior Ribeiro, e conta com diversidade de estilo e gênero em suas produções. “Se temos, hoje, essa veia empreendedora é porque acreditamos muito em nós mesmos, mantendo o princípio de multiliderança. Uma hora eu sou o líder e outra hora outros integrantes são líderes de projetos que surgem. Assim, trabalhamos a vaidade no grupo e sempre nos retroalimentamos”, afirma Josuel. 
 MÚLTIPLAS LINGUAGENS   
A Fábrica de Teatro é um grupo cultural, fundado em 2009, que trabalha com diferentes linguagens artísticas, como teatro, cinema, televisão, fotografia e produção cultural. Com outros espetáculos no repertório, como A Dieta do Calango, Beijo no Asfalto, Claríssimo, Dia de Visita, Tabus? e Resquícios, a companhia alcançou a marca de 30 mil espectadores de suas obras. Em 2012, a Fábrica assumiu a gestão de comunicação do Espaço Imaginário Cultural, importante centro artístico de Samambaia-DF. Integram o grupo os atores Josuel Júnior, Tássia Aguiar, Júnior Ribeiro e Rafael Soul.

  'Se temos, hoje, essa veia empreendedora é porque acreditamos muito em nós mesmos, mantendo o princípio de multiliderança. Uma hora eu sou o líder e outra hora outros integrantes são líderes de projetos que surgem'
  Josuel Júnior, ator  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
MÚLTIPLAS LINGUAGENS

A Fábrica de Teatro é um grupo cultural, fundado em 2009, que trabalha com diferentes linguagens artísticas, como teatro, cinema, televisão, fotografia e produção cultural. Com outros espetáculos no repertório, como A Dieta do Calango, Beijo no Asfalto, Claríssimo, Dia de Visita, Tabus? e Resquícios, a companhia alcançou a marca de 30 mil espectadores de suas obras. Em 2012, a Fábrica assumiu a gestão de comunicação do Espaço Imaginário Cultural, importante centro artístico de Samambaia-DF. Integram o grupo os atores Josuel Júnior, Tássia Aguiar, Júnior Ribeiro e Rafael Soul.

"Se temos, hoje, essa veia empreendedora é porque acreditamos muito em nós mesmos, mantendo o princípio de multiliderança. Uma hora eu sou o líder e outra hora outros integrantes são líderes de projetos que surgem"
Josuel Júnior, ator
 
O exemplo da Fábrica mostra um dos pontos fortes entre os grupos cênicas que criam atualmente no DF: a vontade de produzir seus próprios trabalhos e o despertar de uma veia empresária, que possibilita a continuidade da criação mesmo sem incentivos ou facilidades. Atualmente, Samambaia é um dos celeiros culturais do DF, com a presença do Galpão do Riso, da cia. Roupa de Ensaio e do Espaço Imaginário Cultural, que tem contribuição dos integrantes da Fábrica de Teatro. “Os projetos culturais de teatro, circo e cinema desenvolvidos aqui são exemplos de gestão cultural por todo o DF. Mas isso tudo porque nós, artistas da cidade, renegamos esse rótulo de marginalizados. Vivíamos na pobreza e numa cidade simples, sim, mas com muita gente inteligente e atuante”, destaca o ator. 
 
O grupo tenta participar de festivais nacionais e internacionais e montar ensaios fotográficos com constância, colocando-se sempre como artistas de teatro que buscam ampliar suas perspectivas, sendo líderes de seus próprios projetos. Josuel diz que está sempre de olho nas publicações dos grupos Desvio, Tripé e Liquidificador, outros grandes agitadores cultuais da cidade. O ator e produtor acredita na economia colaborativa e na gestão compartilhada como soluções para o atual cenário teatral do DF. A união entre os grupos, com colaboração e compartilhamento de ideias e ações, segundo ele, é um forte caminho para ampliar essa produção na capital. 
 
Enquanto isso, o grupo Tripé, criado em 2012, representa um dos expoentes da nova geração de artistas do DF. Entre seus integrantes, com idades por volta de 20 anos, está Gustavo Haeser, que venceu o Prêmio Sesc de Teatro Candango de Melhor Ator de 2016. O ator se formou e se inspira em grandes nomes da cena teatral da cidade, como Giselle Rodrigues, Jonathan Andrade e Simone Reis. Para ele, o entendimento de que a cidade é nova e constrói continuamente sua própria tradição tem levado os artistas locais a buscar mais união, reciclando-se em intercâmbios e troca de experiências. O diferencial dos grupos da cidade seria a força de seus próprios artistas, que aprenderam que, por aqui, o ator não trabalha somente atuando. “É uma característica do nosso curso de artes cênicas na Universidade de Brasília, que nos prepara para processos coletivos, como atores e criadores do próprio trabalho”, afirma Gustavo Haeser.
ESPAÇO LIVRE PARA A CRIAÇÃO   
O Tripé nasceu em 2012, da união de jovens artistas em busca de um teatro independente e autoral. O grupo se estabeleceu como espaço livre para estudo, experimentação, criação e pesquisa. Em 2014, por meio de um financiamento coletivo, produziu e estreou Entre Quartos, seu primeiro espetáculo. Em 2015, o Tripé estreou sua segunda montagem, O Novo Espetáculo (Tudo Está à Venda), com direção de Similião Aurélio. Entre Quartos recebeu o Prêmio Sesc do Teatro Candango nas categorias Melhor Dramaturgia e Melhor Ator (Gustavo Haeser), sendo indicado também as categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Sonoplastia, Melhor Ator (Davi Maia), Melhor Atriz (Bruna Martini) e Melhor Figurino. Com isso, integrará a programação do Festival Palco Giratório - Brasília 2017.

 'Temos uma tabela de projetos que só poderemos executar com dinheiro, e uma outra, a do aqui e agora, que são produções que vamos fazer independentemente do que aconteça'  
 Gustavo Haeser, ator 



 (Raimundo Sampaio/Esp. Especial/DA Press)
ESPAÇO LIVRE PARA A CRIAÇÃO

O Tripé nasceu em 2012, da união de jovens artistas em busca de um teatro independente e autoral. O grupo se estabeleceu como espaço livre para estudo, experimentação, criação e pesquisa. Em 2014, por meio de um financiamento coletivo, produziu e estreou Entre Quartos, seu primeiro espetáculo. Em 2015, o Tripé estreou sua segunda montagem, O Novo Espetáculo (Tudo Está à Venda), com direção de Similião Aurélio. Entre Quartos recebeu o Prêmio Sesc do Teatro Candango nas categorias Melhor Dramaturgia e Melhor Ator (Gustavo Haeser), sendo indicado também as categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Sonoplastia, Melhor Ator (Davi Maia), Melhor Atriz (Bruna Martini) e Melhor Figurino. Com isso, integrará a programação do Festival Palco Giratório - Brasília 2017.

"Temos uma tabela de projetos que só poderemos executar com dinheiro, e uma outra, a do aqui e agora, que são produções que vamos fazer independentemente do que aconteça"
Gustavo Haeser, ator
 
Ele destaca ainda que, na capital, pouca gente consegue manter-se apenas como ator de elenco, característica primordial da força produtora. O ator afirma que o Tripé mantém uma estrutura de trabalho continuada ao longo do ano, com encontros semamais, independentemente da montagem de espetáculos. “O trabalho não para. Temos uma planilha de metas e objetivos, separada em três níveis: curto, médio e longo prazo. Temos também uma tabela de projetos que só poderemos executar com dinheiro, e uma outra, a do aqui e agora, que são produções que vamos fazer independentemente do que aconteça”, diz. A realização de financiamentos coletivos on-line e a busca de patrocínio por pequenas empresas são outras opções que entram no processo produtivo do grupo. 
 
Para levar mais pessoas aos teatros seria preciso que cada artista entenda que tipo de público quer atrair, pensando nessa influência na hora de executar seus projetos. A atriz e iluminadora cênica Ana Luisa Quintas, integrante do Tripé, afirma que enxerga uma tendência de aproximação com o espectador na cena brasiliense. Entre os objetivos estão a criação de um espetáculo que coloque esse público em um lugar ativo, não apenas sentado passivamente na cadeira de teatros. “Acho muito interessante essa tendência crescer em uma cidade que é conhecida pelas pessoas não se falarem direito, de não ter calçadas. Acredito que é o teatro se mostrando como esse lugar de transformação, de mostrar a necessidade e importância da conexão entre as pessoas, do tato, do olhar, do estar perto, da intimidade”, afirma a atriz. Para Ana Luisa, a quantidade de teatros fechados ainda é um incômodo, mas, ao mesmo tempo, há muitos grupos que criam em meio à adversidade e inventam novos espaços alternativos. Davi Maia e Miguel Peixoto completam o elenco produtivo do Tripé.
 
Para mostrar que o teatro se reforça como espaço de valorização da pluralidade e da diversidade, o grupo Embaraça executa seus trabalhos há cinco anos, tendo como bagagem a trajetória de suas atrizes, principalmente suas experiências com o racismo. O grupo possibilitou que elas encontrassem um espaço de fala, aprendendo a questionar e mudar seus referenciais junto aos espectadores. Tuanny Araujo, uma das integrantes, explica que o Embaraça é totalmente independente e por isso encontra dificuldade para se manter vivo na cidade. 
 DESEMBARAÇANDO O PRECONCEITO   

A primeira montagem do grupo Embaraça foi em 2012, na UnB. O foco da companhia é discutir o preconceito racial e o autoconhecimento. Das primeiras apresentações em festivais universitários, o espetáculo cresceu em pesquisa sobre o tema étnico racial e é apresentado em 2015 com elenco formado pelas atrizes Fernanda Jacob, Tuanny Araújo, Ana Paulo Monteiro e Elisa Carneiro. Seu principal espetáculo, Pentes, tem inspiração nas poetisas e pensadoras contemporâneas Elisa Lucinda, Bell Hooks e Conceição Evaristo, e tendo outras referências do universo negro e até do movimento black power.  

'Estamos aprendendo a nos organizar ainda e precisamos deixar nosso movimento mais forte. Buscamos alternativas de levantar recursos para produzir, então trabalhamos para arrecadar dinheiro para o nosso caixa'

 Tuanny Araujo, atriz  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
DESEMBARAÇANDO O PRECONCEITO

A primeira montagem do grupo Embaraça foi em 2012, na UnB. O foco da companhia é discutir o preconceito racial e o autoconhecimento. Das primeiras apresentações em festivais universitários, o espetáculo cresceu em pesquisa sobre o tema étnico racial e é apresentado em 2015 com elenco formado pelas atrizes Fernanda Jacob, Tuanny Araújo, Ana Paulo Monteiro e Elisa Carneiro. Seu principal espetáculo, Pentes, tem inspiração nas poetisas e pensadoras contemporâneas Elisa Lucinda, Bell Hooks e Conceição Evaristo, e tendo outras referências do universo negro e até do movimento black power.

"Estamos aprendendo a nos organizar ainda e precisamos deixar nosso movimento mais forte. Buscamos alternativas de levantar recursos para produzir, então trabalhamos para arrecadar dinheiro para o nosso caixa"
Tuanny Araujo, atriz
 
A atriz acredita que há menos possibilidades de fomento cultural no DF atualmente e que a capacidade de resiliência dos artistas locais é a grande responsável pela realização de seus trabalhos. “Estamos aprendendo a nos organizar ainda e precisamos deixar nosso movimento mais forte. Buscamos alternativas de levantar recursos para produzir, então trabalhamos, por exemplo, no Samba na Rua, que é uma festa, vendendo caipirinhas para arrecadar dinheiro para o nosso caixa”. Tuanny destaca o trabalho autoral como forte característica do movimento cênico de Brasília e lembra que a falta de plateia deve ser sanada na formação, desde a base educacional. Seria preciso sensibilizar o público local de que o teatro é socialmente importante, tendo um papel que reverbera positivamente em seus espaços de execução. Ana Paula Monteiro e Fernanda Jacob completam o trio. 
 
Com o grupo Liquidificador, que fez seu primeiro espetáculo em 2010, a atriz Fernanda Alpino produz continuamente na capital. Para ela, uma das características mais fortes de Brasília é o caráter experimental: a jovem cidade ainda desenvolve suas tradições e dessa maneira os espetáculos são criados com total liberdade estética e diversidade. O grupo trabalha incansavelmente para pensar novas maneiras de atrair um público cada vez maior para os teatros da cidade. Segundo Fernanda, entre as soluções está a criação de experiências teatrais diversas, que priorizem o encontro, a atmosfera, o instante, e que não possam ser substituídas por uma ida ao museu ou ao cinema. “Acredito que o maior aprendizado que tive no teatro seja o de descontruir supostas contradições, entre a técnica e a inspiração, entre a criação e a produção, a disciplina e liberdade e a teoria e a pratica”, conta a atriz, que já cursou oficinas do saudoso Espaço Cultural Renato Russo, com Adriana Lodi, e em seguida cursou artes cênicas na UnB.
 DIÁLOGO COM SUA GERAÇÃO   

O Liquidificador também nasceu dentro da UnB a partir da vontade comum de oito amigos de pensar e produzir teatro na capital federal. Atualmente formado por Karinne Ribeiro, Fernanda Alpino, Fernando Carvalho, Iza Cavanellas e Kael Studart, o Liquidificador busca o diálogo com sua geração. A primeira montagem, A Cartomante, de 2010, colocou o texto, escrito em 1884, por Machado de Assis, no centro de uma arena que une elementos do flamenco, do melodrama e das cultura pop e cigana. O segundo projeto, Ultra Romântico, de 2012, foi uma peça-festa que transformou um subsolo abandonado no centro de Brasília em uma taverna do século XXI, na livre adaptação feita coletivamente pelo grupo do livro Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo.   

'A oficina tem nos dado, além de uma forma de subsistência um exercício constante de rever a nossa maneira de trabalhar' 

Fernanda Alpino, atriz  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
DIÁLOGO COM SUA GERAÇÃO

O Liquidificador também nasceu dentro da UnB a partir da vontade comum de oito amigos de pensar e produzir teatro na capital federal. Atualmente formado por Karinne Ribeiro, Fernanda Alpino, Fernando Carvalho, Iza Cavanellas e Kael Studart, o Liquidificador busca o diálogo com sua geração. A primeira montagem, A Cartomante, de 2010, colocou o texto, escrito em 1884, por Machado de Assis, no centro de uma arena que une elementos do flamenco, do melodrama e das cultura pop e cigana. O segundo projeto, Ultra Romântico, de 2012, foi uma peça-festa que transformou um subsolo abandonado no centro de Brasília em uma taverna do século XXI, na livre adaptação feita coletivamente pelo grupo do livro Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo.

"A oficina tem nos dado, além de uma forma de subsistência um exercício constante de rever a nossa maneira de trabalhar"
Fernanda Alpino, atriz
 
O Liquidificador decidiu investir, além da produção de espetáculos, na frente do aprendizado, percebendo uma lacuna importante na cidade em relação às oficinas de teatro. Fernanda conta que o grupo não encontrou opções que trabalhassem com o processo de criação colaborativo, então decidiram dar início ao novo braço de produção do coletivo, com as oficinas do Teatro Elétrico: “A oficina tem nos dado, além de uma forma de subsistência um exercício constante de rever a nossa maneira de trabalhar”. O ensino continuado seria também uma forma de ampliar as possibilidades financeiras de produção do grupo. 
 
Ampliando ainda mais os horizontes no que diz respeito ao escoamento de produções artísticas, o Teatro de Açúcar trabalha desde 2013 produzindo espetáculos entre Brasília e Europa. O apoio internacional de instituições francesas e espanholas tem ajudado muito tanto na manutenção da companhia como na sua projeção nacional e internacional. Mais de 80% das apresentações realizadas pelo grupo nos últimos três anos está financiada por instituições estrangeiras ou promovidas pelo Sesc no Brasil. Gabriel F. Calonge, um dos integrantes da companhia, conta que encontrou no teatro ferramentas para exercer o que já fazia de melhor: contar histórias. 
 
Gabriel Calonge diz que o início não foi fácil, pois a burocracia ainda é grande para a cessão de espaços de ensaio e criação na capital. “Por isso ensaiávamos em casa de alguém, na rua, em garagens, e alguma vez com sorte e ajuda de alguém, em salas de aula no Dulcina ou na UnB”, diz. O ator pondera que mais grupos jovens surgiram nos últimos anos e espera que os processos de criação se facilitem progressivamente para eles: “Mesmo com a falta de espaços, muitos grupos se formaram ou resistiram em Brasília nos últimos 10 anos. Se o artista não tem espaço, ele cria. A falta de recursos acaba nos obrigando a explorar ainda mais nossas ferramentas criativas”. Calonge destaca o espetáculo Carnaval de Kitinete, a que assistiu na capital em 2016, em um pequeno apartamento na Asa Norte, como um bom exemplo disso: “Nós nos adaptamos para sobreviver”. 
 TRABALHO INTERPRETATIVO   

Criado em 2007, o Teatro de Açúcar é composto pelos irmãos Gabriel Calonge e Marco Michelângelo, Ada Luana, Amuramy Martins, Eli Moura, Luiza Guimarães e Camila Meskell. A companhia é um núcleo de pesquisa e produção de espetáculos com dramaturgia original e intenso trabalho interpretativo. Além do que se Vê, o espetáculo de estreia do grupo, recebeu quatro indicações ao Prêmio Sesc, do Teatro Candango - 2008 e venceu nas categorias Melhor Atriz (Eli Moura) e Melhor cenografia (Gabriel F. e Marco Michelângelo). Entre os espetáculos está também Adaptação (2013), uma coprodução entre Brasil e Espanha. A direção muda a cada espetáculo e a sede do grupo é no Setor de Mansões do Park Way.  

'Mesmo com a falta de espaços, muitos grupos se formaram ou resistiram em Brasília nos últimos 10 anos. Se o artista não tem espaço, ele cria. A falta de recursos acaba nos obrigando a explorar ainda mais nossas ferramentas criativas

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Gabriel Calonge, ator e cenógrafo  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
TRABALHO INTERPRETATIVO

Criado em 2007, o Teatro de Açúcar é composto pelos irmãos Gabriel Calonge e Marco Michelângelo, Ada Luana, Amuramy Martins, Eli Moura, Luiza Guimarães e Camila Meskell. A companhia é um núcleo de pesquisa e produção de espetáculos com dramaturgia original e intenso trabalho interpretativo. Além do que se Vê, o espetáculo de estreia do grupo, recebeu quatro indicações ao Prêmio Sesc, do Teatro Candango - 2008 e venceu nas categorias Melhor Atriz (Eli Moura) e Melhor cenografia (Gabriel F. e Marco Michelângelo). Entre os espetáculos está também Adaptação (2013), uma coprodução entre Brasil e Espanha. A direção muda a cada espetáculo e a sede do grupo é no Setor de Mansões do Park Way.

"Mesmo com a falta de espaços, muitos grupos se formaram ou resistiram em Brasília nos últimos 10 anos. Se o artista não tem espaço, ele cria. A falta de recursos acaba nos obrigando a explorar ainda mais nossas ferramentas criativas "
Gabriel Calonge, ator e cenógrafo
 
O ator Marco Michelângelo, irmão de Gabriel e também integrante do Teatro de Açúcar, lembra que “é essencial sair da ilha para entender a ilha” e destaca que o grupo viajou por 45 cidades do Brasil com um de seus espetáculos. “A cena aqui tem se desenvolvido rapidamente e se imunizado ao conservadorismo e à burocracia”. O ator afirma que a falta de competição extrema na capital, que existe, por exemplo, no Rio de Janeiro e em São Paulo, dá aos artistas a possibilidade de criar produções com estilo próprio. Para ele, um dos caminhos para encontrar sucesso e continuidade dos grupos é dedicar-se de maneira obstinada. “Devemos parar de encarar o ofício com misticismo alienante ou com autodepreciação. É um bom marco zero”, diz. Marco Michelângelo desmistifica o estrelismo e afirma que o ofício da arte é mais importante do que tudo. “Somos todos operários. Nosso trabalho não é pior nem melhor que qualquer outro trabalho digno”. O ator lembra que teve a oportunidade de aprender e experimentar em excelentes espaços da capital, como o Renato Russo, Faculdade Dulcina de Moraes, Teatro Mosaico e Oficina do Perdiz. Alguns deles não se encontram mais abertos.
 
Em relação ao público, ele afirma que seria importante mesclar os desejos revolucionários das companhias, o imaginário público, os signos estéticos e as certezas, para criar um elo entre artistas e espectadores. “Experimentar o jogo bom de tentar ser pop com inteligência”, diz. Ao seu lado, Gabriel Calonge destaca que a melhor estratégia para ampliar o público que frequenta os teatros de Brasília é produzir bons espetáculos. Assim, eles formam uma plateia fiel, que volta sempre.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017