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Águas Claras ganha força para ser o novo polo gastronômico do DF

Na região administrativa não param de inaugurar restaurantes nem de chegar marcas do centro do planalto

Jéssica Germano - Redação Publicação:03/07/2017 14:41Atualização:03/07/2017 15:27
Há não muito tempo, a jovem região de prédios altos e próximos recebia associações rápidas e fáceis. Muito trânsito, falta de opção para entretenimento e até o título de cidade-dormitório – pelo pouco fluxo durante o dia – cercavam o bairro fundado há apenas 24 anos. Em meio aos seus mais de 700 edifícios já erguidos, e os ainda cerca de 250 lotes vazios, segundo números da administração regional, Águas Claras parece ter atingido sua maioridade em termos de personalidade e já dita formas de consumo. Tanto que, atentos ao potencial do mercado local, empresários visionários e de sucesso não param de escolher o território como aposta para grifes gastronômicas. 
 
De hambúrguer artesanal a sushi de qualidade, sobram opções para não precisar mais sair do conglomerado que já reúne quase 2 mil comércios e é foco de atenção do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) do Distrito Federal. “No começo não foi muito fácil. Não havia muitas opções de restaurantes nem o fluxo de pessoas que existe hoje”, afirma Lídia Nasser, um dos principais nomes de empreendedorismo na região administrativa vizinha a Taguatinga. É a empresária e chef de cozinha que responde pelas operações do Empório Árabe e da Dolce Far Niente, com filiais na Asa Sul, e do recente Mayuu que, juntos, formam um complexo integrado em Águas Claras. 
A chef proprietária Lidia Nasser, do Mayu, Empório Árabe e da Dolce Far Niente: 'No começo não foi muito fácil. Não havia muitas opções de restaurantes nem o fluxo de pessoas que existe hoje' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A chef proprietária Lidia Nasser, do Mayu, Empório Árabe e da Dolce Far Niente: "No começo não foi muito fácil. Não havia muitas opções de restaurantes nem o fluxo de pessoas que existe hoje"
 
Quando decidiu investir no bairro há quase oito anos, com a culinária do Líbano, o perfil do consumidor que se conhecia ainda era outro, segundo ela. Hoje, com certeza de casa cheia nos finais de semana – mesmo com capacidade para 250 e 160 pessoas nas grifes pioneiras –, a empresária entendeu o filão em que atua: “Águas Claras está ficando cada vez mais madura. Não é só mais público jovem e famílias novas”, diz. 
 
A faixa etária que caminha ao lado do bom poder aquisitivo carrega também o horário diferenciado para movimento, ainda reflexo da EPTG engarrafada na volta para casa. Lá, os restaurantes costumam encher a partir das 20h30, mas também seguram o cliente por mais tempo. “Águas Claras à noite é, sem sombra de dúvida, um local com movimento muito legal para as casas”, afirma, após quase dois anos atuando também no Plano Piloto.
Prato Mayuu blue do restaurante Mayuu (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Prato Mayuu blue do restaurante Mayuu
 
E, apesar de ainda enxergar um paradigma em relação ao centro brasiliense como oferta para almoço, Lídia já vislumbra o potencial do dia para a região administrativa. Para responder à demanda em que acredita acabou de lançar o formato de almoço no japonês Mayuu, com opções leves e de peixes frescos do dia. Questionada sobre o local ainda ser uma cidade apenas para descanso noturno, a empresária explica: “Não é mais. Águas Claras já tem vida própria e tem tudo para continuar crescendo”.

Quem faz coro à impressão é José Moreira, fundador e proprietário da grife especializada em hambúrgueres e grelhados Cumarim. Há nove anos, ele investiu na produção de receitas artesanais e diárias, e viu de perto a evolução do lugar. “Tanto que, hoje, grandes empresas do segmento de alimentação estão com olhar muito forte para cá.” Com uma loja na avenida Castanheiras e outra na rua Manacá, Moreira se prepara para abrir sua terceira unidade na 204 Sul, após receber muitos clientes do Sudoeste, Lago Sul e do próprio bairro em que está prestes a investir. Para o visionário, o ritmo não deve diminuir por onde começou. “Com certeza, Águas Claras ainda tem espaço para outras casas”, garante.
Proprietário da rede Cumarim, José Moreira está há nove anos em Águas Claras e viu a evolução 
do bairro: 'Hoje, grandes empresas do segmento de alimentação estão com olhar muito forte para cá' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Proprietário da rede Cumarim, José Moreira está há nove anos em Águas Claras e viu a evolução do bairro: "Hoje, grandes empresas do segmento de alimentação estão com olhar muito forte para cá"
Super Cheddar servido na loja Cumarim  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Super Cheddar servido na loja Cumarim
É à frente de quatro marcas situadas exclusivamente na região que o empresário Rodrigo Fiuza tem impulsionado seus negócios. Primeiro, foi o Manatí, que abriu as portas há três anos, quando ainda existiam poucas opções com proposta jovem por ali. Depois foi o Cuzco, voltado para a cozinha japonesa e nikkei, e mais recentemente o italiano Toretto e a lanchonete Durango Burger. “Nós acreditamos que Águas Claras é o maior potencial gastronômico do DF”, justifica ele, sobre as escolhas feitas com os três irmãos e sócios, incluindo Elaine, que ajuda nas operações.
Rodrigo Fiuza e Elaine, donos do Toretto, um dos negócios da família: 'Nós acreditamos que Águas Claras é o maior potencial gastronômico do DF', diz ele (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Rodrigo Fiuza e Elaine, donos do Toretto, um dos negócios da família: "Nós acreditamos que Águas Claras é o maior potencial gastronômico do DF", diz ele
 
A identificação com o mercado também ajudou: “Nós somos daqui, fomos nascidos e criados em Taguatinga. Seria arriscado investir na Asa Norte e na Asa Sul, que nós não conhecemos a fundo”, pondera. A bagagem parece ter ajudado. Na maior operação de todas, em funcionamento há cerca de cinco meses, os irmãos já se acostumaram com filas de espera para uma das 600 vagas disponíveis no salão, nos finais de semana, em busca de pratos inspirados na Itália.
 
O amadurecimento da região traz à tona, ainda, outras características específicas do lugar. “A concentração de pessoas aqui é muito maior por metro quadrado”, diz Rodrigo. Além disso, a estrutura da cidade ajuda na locomoção sem carro, hábito pouco assimilado pelo brasiliense da gema. “Aqui a pessoa pega o elevador, desce do prédio e já tem um comércio. E temos três estações de metrô que cruzam a cidade toda praticamente. A pé ou de metrô, a pessoa consegue andar pela cidade toda”, afirma o empresário.
Filetto Vino Rosso, servido para 2 pessoas, no restaurante Toretto (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Filetto Vino Rosso, servido para 2 pessoas, no restaurante Toretto
 
Não à toa a antes “cidade-dormitório” está no radar do Sebrae-DF como foco de projeto para torná-la um novo polo gastronômico. “O que nós identificamos em Águas Claras foi um mercado fantástico para as empresas”, diz Aparecida Vieira, gerente da Unidade de Serviços e responsável pela proposta batizada de Food Experience. A iniciativa inspirada no Rio de Janeiro começa com um mapeamento de áreas que tenham alta demanda ou concentração de comércio – com cerca de 30 casas –, seguida por visitas-diagnóstico do Sebrae, que atende e auxilia os empresários em questões que vão de formatação de plano de negócio à implementação de site, com 70% dos gastos custeados. “O foco do Sebrae é a gestão do negócio, melhorando a competitividade”, explica a representante, citando os expressivos números da alimentação fora do lar no Distrito Federal e o porquê de estarem investindo no segmento. “Só na gastronomia, nós temos cerca de 22.500 mil empresas. É mais de 11% do total do DF”, frisa. E, segundo Aparecida, o ramo deve crescer ainda mais, já que a previsão é de que, até 2025 a renda familiar destinada a isso passe de 32% para 40%. Nessa fase inicial, o Sebrae tem ajuda da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) e do Sindhobar (Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes do DF), para identificar marcas com interesse para promover a região. A comprovação de que a localidade tem potencial, fica mais clara com a chegada de marcas de destaque. 
Aparecida Vieira, gerente do Sebrae-DF: instituição faz um mapeamento de áreas que tenham alta demanda ou concentração de comércio, especialmente na gastronomia (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Aparecida Vieira, gerente do Sebrae-DF: instituição faz um mapeamento de áreas que tenham alta demanda ou concentração de comércio, especialmente na gastronomia
 
Depois de Libanus, Soho, Brigadeirando e o chef Dudu Camargo, com o seu Simples Assim, foi a vez de o Coco Bambu subir a Estrada Parque sentido Taguatinga e inaugurar a unidade no DF Plaza, seguido pelo Outback. “O pessoal de Águas Claras estava realmente esperando a vinda da marca”, afirma Sergio Torres, sócio proprietário do Coco Bambu, rede conhecida por suas receitas com frutos do mar. Após dois anos trabalhando com o projeto de abertura na região, eles finalmente inauguraram no início de março a nova casa com capacidade para 560 lugares e diferentes salões para eventos. “A casa está cheia”, comemora ele, que ostenta com orgulho a estrutura confortável – e usada com frequência – para a fila de espera de até 40 pessoas.
Sergio Torres, sócio proprietário Coco Bambu, no endereço inaugurado em março deste ano: capacidade de 560 lugares e filas de espera nos (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Sergio Torres, sócio proprietário Coco Bambu, no endereço inaugurado em março deste ano: capacidade de 560 lugares e filas de espera nos
Cheese burguer com batatas fritas trufadas do Coco Bambu (Raimundo Sampaio/Esp. Especial/DA Press)
Cheese burguer com batatas fritas trufadas do Coco Bambu
Com menos tempo de vida, a Stonia Ice Creamland também investiu a fundo na nova área. Com pouco mais de seis meses na 405 Sul, a loja reconhecida por suas sobremesas chamativas com sorvete não temeu o momento econômico do país e optou pela expansão. “Águas Claras disputa bem com o Plano e não fica atrás”, diz Murilo Furtado, um dos sócios-proprietários e entusiastas da região. “Nos finais de semana aqui, por muitas vezes, o movimento é maior do que o da Asa Sul.” Satisfeito com a procura, ele não titubeia em levantar a teoria que vislumbrou para a aposta do segundo endereço: “Tudo que faz sucesso no Plano, faz sucesso aqui”.
O empresário Murilo Furtado, sócio da rede de gelatos Stonia Ice Creamland, que tem apenas seis meses: 'Nos finais de semana aqui, por muitas vezes o movimento é maior do que o da Asa Sul'  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O empresário Murilo Furtado, sócio da rede de gelatos Stonia Ice Creamland, que tem apenas seis meses: "Nos finais de semana aqui, por muitas vezes o movimento é maior do que o da Asa Sul"
Banana Twist servido na gelateria Stonia (Raimundo Sampaio/Esp. Especial/DA Press)
Banana Twist servido na gelateria Stonia
 
Sanduiche queijo minas, servido na Paneteria de Oliva (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Sanduiche queijo minas, servido
na Paneteria de Oliva
A Panetteria d’Oliva foi outra a seguir sentido ao território promissor com seu modelo de expansão. Com a primeira sede no Guará, o chef boulanger Felipe Oliveira já percebia a procura de clientes de Águas Claras por seus pães artesanais antes de fazer um estudo de mercado e decidir onde investir. “Nós avaliamos Sudoeste, Asa Norte, Asa Sul, Noroeste, CA, mas com o tempo fomos vendo que em Águas Claras era mais interessante”, diz, antes de completar: “E realmente é, por toda a facilidade de alugar loja. Aqui tem bastante flexibilidade: lojas grandes, pequenas, com estacionamento bom”. 

Apresentar um produto que ainda não vinha sendo explorado por ali também pesou na escolha do empreendedor. “As pessoas que moram aqui, realmente não querem sair para consumir e cada vez mais demandam coisas diferentes”, afirma Felipe. Por isso, o lançamento de opções de sanduíches feitos com os pães de fornadas diárias e alguns pratos, no estilo bistrô, tem tido boa aceitação. “Em Águas Claras, mesmo com todo o advento da crise, vemos que os negócios bacanas, com uma identidade legal, vieram para ficar”, diz o chef. 
Felipe Oliveira, chef proprietário da Panetteria d'Oliva: 'Em Águas Claras, mesmo com todo o advento da crise, vemos que os negócios bacanas, com uma identidade legal, vieram para ficar' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Felipe Oliveira, chef proprietário da Panetteria d'Oliva: "Em Águas Claras, mesmo com todo o advento da crise, vemos que os negócios bacanas, com uma identidade legal, vieram para ficar"
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017