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PET | Serviço »

Castração agora é lei

Legislação federal obriga estados e municípios a se organizarem para oferecer o serviço de controle de natalidade de cães e gatos. Saiba por que a medida ajuda os animais e quais os cuidados necessários

Paloma Oliveto - Publicação:03/07/2017 15:50Atualização:03/07/2017 17:24
O tema ainda é polêmico, mas não deveria ser. Afinal, a castração só traz benefícios, tanto para a saúde dos animais quanto para o controle populacional. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o Brasil tem 30 milhões de cães e gatos abandonados. Além de oferecer um risco para os humanos – eles podem transmitir doenças, já que não são vacinados –, essa situação é cruel com os bichos, que sofrem maus tratos, fome e frio nas ruas. Para tentar solucionar o problema, recentemente, foi aprovada uma lei federal, que trata da esterilização dos animais. Mesmo aqueles que têm um lar devem passar pelo procedimento. 
 
Ao fazê-lo, evitam-se diversos tipos de câncer e gestações indesejadas. Contudo, muitos tutores têm ideias equivocadas sobre a cirurgia. Acham que estão privando os pets de prazer sexual ou que estão “mutilando” o animal e deixam de contribuir para a longevidade do melhor amigo. “O conjunto de benefícios varia de animal para animal, pois cada um tem características e personalidades específicas, mas, para as fêmeas, há uma redução muito grande do risco de desenvolverem tumores de mama e ovários e infecções uterinas (piometra)”, explica a veterinária Lorena Nichels, do Vet em Casa. Ela destaca as vantagens comportamentais: o cio, muitas vezes, desencadeia gravidez psicológica, algo que traz sofrimento para as cachorrinhas, além de complicações como aumento das glândulas mamárias, produção de leite e agressividade. “Para os machos, os benefícios maiores são no lado comportamental, como redução da demarcação de territórios, instinto de dominância, agressividade e ato de montar em pessoas e cães”, destaca. 
A veterinária Lorena Nichels, que defende a castração, com a cadela Princesa: 'Para as fêmeas, há uma redução muito grande do risco de desenvolverem tumores de mama e ovários e infecções uterinas' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A veterinária Lorena Nichels, que defende a castração, com a cadela Princesa: "Para as fêmeas, há uma redução muito grande do risco de desenvolverem tumores de mama e ovários e infecções uterinas"
 
Tmbém há ganhos para a saúde, pois evita o desenvolvimento de tumores de próstata. Lorena Nichels esclarece que, com a cirurgia, há uma alteração hormonal que muda o comportamento sexual do cão: “A maioria dos machos perde o interesse em fêmeas no cio”, diz. Com isso, evitam-se, inclusive, as fugas que costumam ocorrer durante esse período, quando os machos podem desaparecer de casa, atrás de cadelas em período fértil. “Outra questão é que os pets não sentem prazer. Eles copulam apenas por instinto. Não existe aquela situação de que ‘meu cão que namorar porque fica montando nos brinquedos ou nas pessoas’. Isso é unicamente dominância”, explica Lorena. De acordo com ela, animais castrados são mais alegres, curiosos e têm interesse maior no que acontece ao seu redor.
 
Pensando na saúde do maltês Luke Skywalker, de 2 anos e 10 meses, a especialista em mídias sociais Adriana Fortes optou por castrá-lo quando tinha 3 meses de idade. “O principal motivo foi por uma questão de saúde. No caso do Luke, a cirurgia elimina o risco de câncer de testículo e de próstata. Mas também considerei outros benefícios, como diminuir o risco de fugas e brigas com outros machos e marcação de território”, conta. O maltês não teve nenhuma complicação no procedimento e, no mesmo dia, estava em casa.
 
O maltês Luke Skywalker foi castrado aos 3 meses de idade: hoje, aos 2 anos de 10 meses, ele tem boa saúde e nunca fugiu de casa, segundo sua dona, Adriana Fortes (Divulgação )
O maltês Luke Skywalker foi castrado aos 3 meses de idade: hoje, aos 2 anos de 10 meses, ele tem boa saúde e nunca fugiu de casa, segundo sua dona, Adriana Fortes
No caso da psicóloga Niely Gonçalves, a recuperação da labradora Safira, 4 anos e 9 meses, não foi tão tranquila assim. Não por causa da castração, mas devido à retirada de um tumor, procedimento que foi feito ao mesmo tempo. Em março do ano passado, o veterinário do day care que a cachorrinha frequentava notou um caroço na lateral direita de Safira e avisou Niely. “Descobrimos que era um tumor, conversamos com a oncologista, que recomendou a cirurgia. Como a Safira já ia ser operada para a retirada do tumor, optamos por incluir a castração”, diz. “A recuperação não foi legal e nada agradável, fiquei quatro noites sem dormir nada, revezando com meu marido e minha mãe nos cuidados dela”, conta Niely.
 
Mas valeu a pena: “Depois foi só alegria. Se precisasse fazer tudo novamente, faria de olhos fechados. As médicas dela acompanharam tudo e eu já tinha estudado demais a respeito, estava tranquila. Safira engordou um pouco por conta do tratamento do câncer e quando as atividades voltaram ao normal, tudo estabilizou”, diz. “Em relação ao preconceito, o nome já diz tudo. É falta de informação e falta de interesse em aprender e entender a respeito. A maioria dos donos apenas tem o animal e não busca estudar, não busca ter informações e, isso gera muita dúvida mesmo. Em vez de procurarem sanar tudo, ficam no achismo. Castrar é um ato de amor”, diz.
Niely Gonçalves diz que a recuperação de sua labradora Safira só não foi tranquila porque foi feita com a retirada de um tumor: 'Depois foi só alegria. Se precisasse fazer tudo novamente, faria de olhos fechados' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Niely Gonçalves diz que a recuperação de sua labradora Safira só não foi tranquila porque foi feita com a retirada de um tumor: "Depois foi só alegria. Se precisasse fazer tudo novamente, faria de olhos fechados"
 
Já a SRD Sushi, de 1 ano, foi castrada por controle populacional: “Como ela é vira-lata e sempre há o risco de fugir e engravidar, preferi castrar para não ter de arcar com um monte de vira-latinhas. Sabemos que as pessoas têm preconceito e, infelizmente, não adotam os SDR. Seria uma irresponsabilidade deixá-la engravidar, estando ela aos meus cuidados”, explica a médica Thereza Racquel de Mello Nogueira, tutora de Sushi. Ela conta que até agora não viu mudança no comportamento da agitada e alegre cachorrinha, que fez o procedimento em janeiro. “Acho que a agitação melhora com o tempo, pois demora para os hormônios se estabilizarem”, diz.
A médica Thereza Racquel Nogueira com a SRD Sushi, de 1 ano: 'Como ela é vira-lata e sempre há o risco de fugir e engravidar, preferi castrá-la para não ter de arcar com um monte de vira-latinhas' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A médica Thereza Racquel Nogueira com a SRD Sushi, de 1 ano: "Como ela é vira-lata e sempre há o risco de fugir e engravidar, preferi castrá-la para não ter de arcar com um monte de vira-latinhas"
 
Uma alteração que preocupa os tutores é o ganho de peso. “Após a castração, existe um aumento do apetite”, reconhece a veterinária Lorena Nichel. “Porém, se o tutor mantiver uma alimentação saudável e balanceada, rotina de passeios e atividade física, o animal continuará no peso ideal”, esclarece a especialista. “A melhor maneira de lidar com isso é com acompanhamento de médio veterinário, que indicará o melhor manejo, ração e a quantidade de acordo com cada cãozinho”, aconselha o veterinário Rangel Barcelos, da DrogaVet.
 
FIQUE POR DENTRO DA LEI

Em 31 de março, entrou em vigor a Lei 13.426/2017, que cria a política de controle de natalidade de cães e gatos. Segundo o texto, esse controle, em todo o território nacional, será por meio de castração ou “por outro procedimento que garanta eficiência, segurança e bem-estar ao animal”. O programa de esterilização será realizado depois de um estudo que identificará as localidades com superpopulação de animais. Também será considerada a quantidade de animais a serem esterilizados.
 
Terão prioridade os animais situados em abrigos ou pertencentes a comunidades de baixa renda. Serão realizadas campanhas educativas nos meios de comunicação para conscientizar o público sobre a posse responsável de animais domésticos. A partir dessa lei os municípios devem dar prioridade aos problemas mais graves das suas jurisdições. “Por outro lado, reforça a necessidade dos serviços e da presença dos médicos veterinários nessa importante atividade dentro da saúde pública”, avalia o presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Benedito Fortes de Arruda.
O programa de esterilização será realizado depois de um estudo: localidades com superpopulação de animais abandonados ou não terão prioridade na castração (Minervino Junior/CB/DA Press)
O programa de esterilização será realizado depois de um estudo: localidades com superpopulação de animais abandonados ou não terão prioridade na castração
 
O texto, contudo, foi aprovado com dois importantes vetos. A proposta original que os recursos viriam da seguridade social da União, com contrapartida municipal. Além disso, determinava um prazo para as cidades sem controle de zoonoses se adaptarem à lei, o que poderia ser feito com o auxílio de organizações não-governamentais. 
 
As alterações na lei desagradaram protetores e veterinários: “Vão aparecer inúmeros aproveitadores da situação para simplesmente ganhar dinheiro em cima de um projeto que deveria beneficiar pessoas de baixa renda ou que não tenham condições de castrar seus animais em hospitais particulares”, afirma a veterinária Lorena Nichel, que integra o C.O.R.JA, projeto formado por médicos veterinários de Brasília, que fazem mutirões de castração dos animais resgatados por ONGs e protetores independentes. 
 
A mão de obra é doada pelos médicos, que cobram apenas pelo procedimento. O atendimento é de alta qualidade, com acompanhamento no pré-operatório, realização de exames e anestesia inalatória. “Existem normas estabelecidas pelo Conselho de Medicina Veterinária para que os procedimentos sejam feitos de forma correta. Porém, muitos estabelecimentos não seguem essas normas, principalmente com relação à anestesia, que deve ser inalatória, com o animal sendo acompanhado por um anestesista durante todo o procedimento cirúrgico, o que dá mais segurança”, explica a veterinária.
 
No Distrito Federal, a população de baixa renda pode cadastrar os animais para castração no Instituto Brasília Ambiental (Ibram). Por meio do serviço, clínicas cadastradas fazem o procedimento, pago pelo GDF.  
 
TRÊS PERGUNTAS PARA | RANGEL BARCELOS 
Veterinário fala sobre vantagens da castração de pets e por que o tema ainda é incompreendido
 (Divulgação )

1) Quais os principais benefícios da castração para machos e fêmeas?
Ao contrário do que muitos pensam, a castração em machos e em fêmeas não é um ato de crueldade e traz benefícios à saúde do animal. até prolongando a vida deles. Como toda cirurgia. existem riscos que podem ser reduzidos. com o procedimento sendo feito por médicos veterinários qualificados e em clínicas e hospitais veterinários que ofereçam estrutura adequada. Os benefícios em fêmeas é a prevenção de doenças, como tumores de mama, infecções uterinas, ninhadas indesejadas e, consequentemente animais abandonados, além de doenças sexualmente transmissíveis, como o TVT (tumor venéreo transmissível). Em machos, as principais vantagens são: redução da agressividade com outros cães e humanos, prevenção de problemas de próstata, de tumores de testículo, e a perda de interesse por fêmeas no cio, que reduz as fugas atrás de fêmeas e, por consequência, diminui os atropelamentos e acidentes que acontecem nesse período.

2) Algumas pessoas acham que a castração de machos é uma mutilação. Isso procede?
Essa afirmação não procede. Existem doenças que podem ser prevenidas com a castração de machos, e também outros benefícios, como a redução na agressividade. Realmente, acontece uma resistência maior por parte dos tutores, especialmente homens, quando o assunto é castração. Mas é um procedimento normal, não é uma mutilação e, se realizado por um profissional habilitado, o animal também não sofre. Em algumas situações, o tutor do cão até solicita, por questões estéticas, a adição de esferas de silicone para manter a característica do animal antes da castração.

3) Outro argumento comum é que o cão fica privado de suas funções naturais, e que ele sentiria falta da cópula. Como podemos saber que os cães, de fato, não sentem desejo sexual?
Desejo sexual dos cães está ligado a instinto, a hormônios e à reprodução. E não por prazer, como nos humanos. Então, ele não sentiria falta da cópula. Alguns profissionais defendem que, quando o animal está no cio e há privação do cruzamento, seja qual for o motivo, isso o deixaria de certo modo mais frustrado do que se fosse castrado.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017