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DEZ PERGUNTAS PARA | LÍVIA PENNA »

"A menopausa é tratada como doença"

Especialista em ciências da saúde diz que o fim da menstruação é fase normal da vida da mulher, mas que ainda existem muitos mitos sobre o tema

Paloma Oliveto - Publicação:04/07/2017 13:21Atualização:04/07/2017 14:05
Livia Penna Firme Rodrigues, nutricionista e doutora em ciências da saúde pela Universidade de Brasília (UnB), onde é professora, sempre ajudou mulheres a enfrentar as diferentes fases da vida. Começou incentivando o parto natural, foi doula e depois voltou-se ao fechamento do ciclo reprodutivo. Autora do livro Maturescência, Poder e Cura da Mulher na Menopausa e do site http://menopausacomsaude.com, ela é coach e organiza workshops, nos quais divide vivências e derruba mitos, auxiliando mulheres a atravessar mais esse período com saúde e força. Mesmo reconhecendo as dificuldades físicas e emocionais de um momento em que cai a produção de importantes hormônios, ela destaca que a menopausa fortalece. “Essa é a fase em que vem a sabedoria, a criatividade. Mas você tem de dar espaço para isso”, diz.

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
1 | ENCONTRO BRASÍLIA – Como a senhora começou a se interessar por esse tema?
LÍVIA PENNA – Na década de 1980, iniciei em Brasília um trabalho com parto humanizado, de preparação para o parto, paralelamente à UnB. Então, saí da cidade, fui para Alto Paraíso (GO), onde acompanhei parteiras tradicionais e depois voltei para Brasília. Aqui, comecei a trabalhar como doula e continuei até 2010. Mas, desde que iniciei meu próprio processo de menopausa, comecei a observar que o que acontecia na gravidez, como excessos de medicação e cesárias desnecessárias, de certa forma também estava acontecendo com as mulheres na menopausa. Ou seja, a menopausa é tratada como doença e não como uma fase normal da vida da mulher. Passei a pesquisar, escrevi um livro sobre isso e desde o ano passado faço os workshops.

 
2 | Existe preconceito contra a menopausa?
O Brasil é um país jovem e sempre valorizou muito a juventude e a fertilidade. As mulheres acabam ficando constrangidas quando começam a entrar na menopausa. Vivemos em uma sociedade de pressões. Se você não tem filho, há cobrança. Se tem um filho, já perguntam cadê o segundo. Se tem o terceiro, criticam: “nossa, já vai ter o terceiro!”. Nos workshops, sinto que todo mundo acha o tema bacana, mas poucas mulheres têm coragem de chegar e falar: “Estou entrando na menopausa”.

3 | De onde vem essa resistência?
Acho que existem muitos mitos, passados de geração em geração, que a mulher ainda traz no inconsciente dela. Isso está no inconsciente coletivo. Mitos como a de que o “ovário secou”, de que ela perdeu a feminilidade, de que está com o “útero seco”, coisas pejorativas, que assustam. As mulheres também se preocupam porque há uma diminuição da libido, mas não é que não queiram mais fazer sexo. O corpo é que demora mais para responder e muitas vezes o homem quer que ela dê a mesma resposta que tinha há 20 anos. A proposta do meu trabalho é mostrar que, na hora em que a mulher para de menstruar, vai adquirir uma sabedoria nova.

4 | De que maneira isso acontece?
Muitas autoras internacionais dizem que quando a mulher entra nessa fase há uma mudança de mentalidade, ela fica mais poderosa, decide mais as coisas dela. Muitas vão atrás de coisas novas. Mas nossa sociedade ainda não valoriza essa nova mulher, um problema do mundo ocidental. Nas sociedades orientais, como Japão, Egito e Índia, as mulheres são supervalorizadas nessa fase e, inclusive, convidadas a participar de atividades espirituais, trabalhos que não podiam fazer quando menstruavam. A mulher passou a vida cuidando de filho, reproduzindo, acumulou toda uma sabedoria, que ela pode usar agora para ajudar a sociedade. Muitas mulheres vão ser as conselheiras, matriarcas, porque têm toda a sabedoria interna. 

5 | A senhora concorda que a menopausa ainda é associada à morte?
Sim. Em alguns workshops que fiz as mulheres ficavam revoltadas, perguntando: “E depois disso, vem a morte?”. Não é a morte! Tem essa questão de que estamos vivendo muito mais. A média de vida de uma mulher é de 75 anos, em lugares como aqui – no Plano Piloto – em São Paulo, com melhor qualidade de vida, ela vai viver 80, 90 anos. Então, se começa a se achar velha com 50 anos, é complicado. Minha mãe começou a se achar velha com 50 e morreu com 94. Passou metade da vida se achando velha. 

6 | Quais são as principais queixas das mulheres nessa fase?
O que incomoda muito é a fase da perimenopausa, quando há diminuição na fabricação dos hormônios progesterona e estrógeno, e essa diminuição vai provocando vários sintomas, como calores, insônia, às vezes depressão, cansaço, irritabilidade, diminuição da libido... E a medicina quer vender o hormônio, que é muito lucrativo, mas trabalhos científicos têm mostrado que o uso prolongado dos hormônios pode causar câncer de útero e de mama. Algumas mulheres vão tomar o hormônio tradicional e não terão nenhum problema. Existem muitas outras opções hoje, como os hormônios bioidênticos, que não causam câncer. E há, ainda, opções alternativas, não farmacêuticas, como estilo de vida e alimentação saudáveis. É importante consumir alimentos ricos em fitoestrogênios ou mesmo ingerir compridos manipulados de isoflavona. O que defendo é que tudo tem de ser olhado caso a caso. Não pode haver uma regra para todas as mulheres.

7 | A mulher deve preparar-se a vida toda para a menopausa?
A primeira coisa é que quando a mulher entra nessa fase vai viver o reflexo do cuidado que ela teve com a saúde até esse momento. Se ela nunca fez exercício, se come qualquer coisa, isso vai ser mais forte para ela. O brasileiro ainda cuida mal da saúde. Aqui, tem excesso do consumo de gordura saturada, falta de exercício físico, estresse, uso de álcool, fumo e outras drogas. Tudo isso contribui para piorar a saúde em geral. Temos de trabalhar a prevenção desde crianças. Vamos comer menos alimentos industrializados, fazer mais exercícios. Na menopausa, a mulher vai precisar relaxar mais, exercitar-se mais, usar calmantes naturais.

8 | Como foi a sua menopausa?
Foi bem difícil. A minha perimenopausa foi um momento pessoal difícil, eu estava vivendo uma separação. É uma fase da vida em que as coisas podem acontecer juntas. Casamento desgastado, saída dos filhos de casa, morte dos pais, às vezes aposentadoria... Eu estava retomando minha vida em Brasília, voltando de Alto Paraíso. Estava sem grana, meus filhos adolescentes, tive de voltar, encarar um doutorado, outro concurso na UnB, foi um recomeço, um momento muito desafiador. Foi muito bom também, porque fui me fortalecendo. A menopausa chega mesmo quando a mulher fica um ano sem menstruação regular. Quando fica um ano sem nenhuma, ela entrou na menopausa. No meu caso, foi com 56 anos. Minha médica falava: “Não se preocupe, você vai voltar ao normal”. Isso em termos de energia, de pique. E foi mesmo: eu voltei ao normal.

9 | Essa questão da falta de energia parece incomodar muito, não é?
A mulher faz mil coisas, cuida da casa, dos filhos, do trabalho. Quando entra na perimenopausa, sua energia diminui e ela quer continuar no mesmo ritmo. Não dá. Ela vai ter de descansar mais, o que a assusta muito. Mas essa é a fase da sabedoria, da criatividade. É um momento crucial para a mulher se encontrar consigo mesma, seja com terapia ou meditação.

10 | Alguns médicos estão receitando medicamentos para suspender a menopausa. O que a senhora acha disso?
Cada um faz sua escolha. Devemos respeitar os ciclos da natureza. Na nossa sociedade, queremos acabar com a menstruação porque ela é incômoda. A mulher viaja para a praia e, para não menstruar, toma hormônio.  A menstruação é grande oportunidade de renovação mensal para a mulher. É desconfortável sim, mas, por outro lado, é o organismo funcionando naturalmente. Ela está vivendo o ciclo feminino, sua natureza verdadeira. Quando engravida, também. O parto é uma iniciação para a mulher. E depois vem a menopausa, que é outra fase natural da mulher. 
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017