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Parkour para crianças

Depois de conquistar os adultos, a prática encanta o público mirim e já é possível ver crianças entre 5 e 13 anos superando os medos e dando grandes saltos. Os especialistas dizem, no entanto, que é preciso ter muito cuidado

Thiago Soares - Da redação Publicação:05/07/2017 13:56Atualização:05/07/2017 15:26
Pela frente pode haver uma pedra, um muro, um barranco, entre outros bloqueios, e os movimentos são bem pensados para superar obstáculos. O caminho pode desviar-se conforme a orientação, mas não é isso que o parkour prega. A filosofia, que não é tida como esporte, apesar de muitos acharem que é uma modalidade esportiva, nasceu em 1980 pelas mãos de um francês, baseada em movimentos militares. Com o passar do tempo, ela passou a ganhar mais adeptos em todo o mundo e no Brasil. Em Brasília, a modalidade ganha ainda mais força, agora também entre os pequenos. Aliada a uma boa orientação, a prática pode ser benéfica ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. 
 
A atividade não é considerada esporte, pois não dispõe de regras específicas nem de competições. O parkour consiste em um treino de transposição de obstáculos que integram o ambiente. Escalar e pular muros, saltar escadas e corrimões e desviar-se de buracos e portões são alguns dos exemplos dos desafios dessa modalidade. Quem começa, depara-se com exercícios de força, coordenação, mobilidade e equilíbrio. “O foco não é o alto rendimento e sim o aperfeiçoamento do indivíduo. É algo mais filosófico. Tentamos trabalhar os valores com as técnicas da atividade”, explica Felipe Ramos, instrutor de parkour em Brasília. A atividade migrou dos subúrbios franceses para a capital federal há cerca de 11 anos. Começou, primeiro, com os adultos encarando obstáculos da cidade.
Para o instrutor Felipe Ramos, parkour é uma prática mais filosófica: 'O foco não é o alto rendimento e sim o aperfeiçoamento do indivíduo' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o instrutor Felipe Ramos, parkour é uma prática mais filosófica: "O foco não é o alto rendimento e sim o aperfeiçoamento do indivíduo"
 
No caso das crianças uma das questões trabalhadas é a autonomia: “Não é apenas saltar algum obstáculo. O parkour ensina a superar os medos, a pensar os trajetos antes de executá-los. Isso é extremamente positivo para o futuro de todos”, destaca Felipe. Valores morais também são constantemente trabalhados com a atividade. “O altruísmo e a autonomia são ensinamentos constantes. A atividade não se resume a pulos. O aluno tem de conseguir desenvolver algo sozinho para saber lidar com obstáculos fora do ambiente de treino, sejam físicos ou aqueles que a vida proporciona”, exemplifica Felipe.
 
A baixa estatura de Ana Luísa Costa, de 9 anos, não é empecilho para ela saltar os obstáculos com uma velocidade maior que a dos demais alunos. Há quase dois anos no parkour, ela aprendeu a superar seus medos. A modalidade a ajudou a superar uma dificuldade enfrentada no ambiente escolar, o bullying. “Sofria críticas por causa da aparência dos meus dentes e isso tudo era complicado, porque eu tinha medo de todos. Com o parkour fui aprendendo que tinha de superar meu medo para ultrapassar as barreiras”, conta a menina.
Ana Luiza conseguiu superar o bullying por causa dos dentes: 'Com o parkour fui aprendendo que tinha de superar meu medo para ultrapassar as barreiras' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Ana Luiza conseguiu superar o bullying por causa dos dentes: "Com o parkour fui aprendendo que tinha de superar meu medo para ultrapassar as barreiras"
 
A mãe dela também percebeu essa melhora no comportamento da filha: “A atividade despertou muito a autoconfiança dela. Em diversas situações, a Ana Luísa era um pouco insegura e com essa questão do desafio ela aprendeu a superar o medo”, afirma a publicitária Renata Costa Duarte. Para a menina, a prática é um momento de relaxamento: “Gosto bastante de estar aqui e pular os obstáculos. Eu me sinto bem quando estou treinando”, diz Ana Luísa.
 
O pequeno Gabriel Silveira de Paiva, de 8 anos, encara os treinos do parkour com uma grande diversão. Na prática há quase dois anos, antes o menino fazia natação, futsal e judô. Depois que descobriu que era possível saltar obstáculos, acabou deixando de lado a piscina, a bola e o quimono. “Estava um pouco chato fazer essas atividades. Dentro do parkour eu gosto dos movimentos e da possibilidade de subir muros”, conta, empolgado. Hoje, Gabriel não perde nenhuma aula. “Tudo ficou mais divertido. Antes, eu ficava em casa sem fazer nada. Aqui, eu aprendo a lidar um pouco mais com os espaços no dia a dia. Isso é bom e é algo que quero continuar a fazer”, diz.
Com apenas 8 anos, Gabriel de Paiva adora saltar obstáculos e não perde uma aula: 'Tudo ficou mais divertido. Antes, eu ficava em casa sem fazer nada' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Com apenas 8 anos, Gabriel de Paiva adora saltar obstáculos e não perde uma aula: "Tudo ficou mais divertido. Antes, eu ficava em casa sem fazer nada"
 
A prática do parkour disseminou-se principalmente com o compartilhamento de vídeos na internet, mas ao mesmo tempo que veio o conhecimento também ocorreram algumas preocupações decorrentes desses compartilhamentos. Crianças, jovens e adultos passaram a querer imitar os movimentos vistos na web. É o que ocorreu com Nickolas Sousa Aragão Macedo, de 12 anos. Empolgado com o que via nas redes, o garoto passou a querer enfrentar obstáculos sem orientação. Na escola, além de fazer as manobras, o menino também passou a envolver outros colegas de sala. Com isso, a mãe dele, a relações-humanas Cleonice Sousa Aragão, chegou a ser convocada pela direção da instituição de ensino. “Uma professora falou sobre a existência de aulas de parkour em Taguatinga e não hesitei de inscrevê-lo, já que era um desejo do Nickolas”, conta a moradora de Taguatinga.
Nickolas e a mãe, Cleonice Aragão: ele pratica a modalidade há quase um ano, já eliminou 3 kg e melhorou a concentração nos estudos. 'Eu passei a ter reflexo e controle de mim', diz ele    (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Nickolas e a mãe, Cleonice Aragão: ele pratica a modalidade há quase um ano, já eliminou 3 kg e melhorou a concentração nos estudos. "Eu passei a ter reflexo e controle de mim", diz ele
 
Há quase um ano, o garoto começou a aprender a saltar os obstáculos e não foi somente essa habilidade adquirida pelo menino: “Ele melhorou bastante a concentração, pois precisa pensar no momento antes de agir e isso acabou ajudando um pouco na escola”, conta sua mãe. Em questão de físico, outra diferença: Nickolas eliminou ao menos 3 kg, conforme recomendação de um nutricionista. O estudante se enche de orgulho para falar do que aprendeu: “Eu passei a ter reflexo e controle de mim. Isso é muito trabalhado porque se eu fizer algum movimento falso posso cair ou me machucar. O parkour hoje representa minha liberdade de movimentos. Tudo isso é prazeroso e com certeza quero continuar na prática”, diz.
 
Na mesma turma em Taguatinga está Denys Weceslau de Oliveira, de 11 anos. Ele também conheceu a modalidade por meio de vídeos na internet, mas diferentemente do colega não passou a praticar parkour por conta própria. “Eu ficava empolgado com os movimentos, mas não tinha nenhum lugar para treinar perto de casa. Quando descobri as aulas, fiquei bem feliz. No começo tive alguns machucados, mas agora com três meses de ensinamento, isso pouco acontece”, destaca. O pai dele, o autônomo Joaquim Geraldo Lopes, apoiou a entrada do Denys no parkour por um motivo especial: cessar o sedentarismo do menino. “Notei uma melhora física significativa no meu filho. Além disso, ele melhorou a interatividade com as pessoas”, conta. 
O estudante Dennys de Oliveira com o pai, Joaquim Geraldo Lopes: 'Notei uma melhora física significativa no meu filho. Além disso, ele melhorou a interatividade com as pessoas'', diz Joaquim (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O estudante Dennys de Oliveira com o pai, Joaquim Geraldo Lopes: "Notei uma melhora física significativa no meu filho. Além disso, ele melhorou a interatividade com as pessoas'', diz Joaquim
 
Alisson Vieira Nunes, orientador de parkour dos dois garotos, afirma que é até um pouco mais fácil lidar com crianças, justamente pela facilidade de aprender que elas possuem: “As crianças estão com a coordenação motora em desenvolvimento, enquanto os adultos já possuem esse aspecto desenvolvido, então na hora de aprender eles têm um pouco mais de dificuldade”, explica. O instrutor diz ainda que essa facilidade vem pelo fato de elas quererem sempre conduzir outros movimentos. “É natural das crianças. Às vezes, determinamos uma atividade de uma forma e elas acabam fazendo de outra. O parkour tem um pouco disso: ver de uma maneira diferente um espaço ou caminho que era determinado para todos”.
Para o orientador Alisson Nunes, é mais fácil lidar com crianças: 'Elas estão com a coordenação motora em desenvolvimento, enquanto os adultos já possuem esse aspecto desenvolvido, então na hora de aprender eles têm um pouco mais de dificuldade' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o orientador Alisson Nunes, é mais fácil lidar com crianças: "Elas estão com a coordenação motora em desenvolvimento, enquanto os adultos já possuem esse aspecto desenvolvido, então na hora de aprender eles têm um pouco mais de dificuldade"
 
O parkour, aliás, é muito interessante para crianças, uma vez que se baseia em atividades da faixa etária, segundo o ortopedista especializado em pediatria e mestre em ciências da saúde aplicada pela Universidade de São Paulo, Thiago Coelho Paim. “É na infância que são desenvolvidos diversos movimentos. Brincar, correr, dar uma cambalhota, entre outras manobras já são movimentos incluídos no dia a dia da criança”, diz o especialista. Mas para ele é fundamental um acompanhamento profissional. “A atividade não deve ser intensa. O treino deve ter, no mínimo, um intervalo de um dia para ser realizado novamente. O excesso pode causar lesões”, explica Paim.
 
O ortopedista também ressalta que é importante fazer um aquecimento e alongar o corpo antes da atividade. “É recomendável evitar maiores saltos. Uma criança não pode executar as mesmas manobras que um adulto. Dependendo do modo de aterrissagem, mesmo o salto sendo perfeito, pode causar algum machucado ou achatamento da musculatura”, detalha Paim. De acordo com o especialista as meninas até 9 anos e os meninos até 13 anos estão com a cartilagem (ossos) em crescimento. Isso os difere de adultos que já realizam a atividade. “Geralmente, são recomendadas atividades com menor impacto, mas se o parkour for realizado com supervisão não representa problema. Sem nenhuma orientação, há riscos de entorses, fraturas por estresse, entre outras. A orientação evita esses episódios inesperados”, destaca o médico. 
O ortopedista Thiago Paim alerta para a necessidade de acompanhamento profissional: 'Uma criança não pode executar as mesmas manobras que um adulto. Dependendo do modo de aterrissagem, pode causar algum machucado ou achatamento da musculatura' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O ortopedista Thiago Paim alerta para a necessidade de acompanhamento profissional: "Uma criança não pode executar as mesmas manobras que um adulto. Dependendo do modo de aterrissagem, pode causar algum machucado ou achatamento da musculatura"
 
BRINCADEIRA SÉRIA
Saiba quais são as vantagens, os cuidados e onde praticar parkour no DF 
 
VANTAGENS
- Trabalha movimentos que as crianças já são acostumadas: correr, brincar, etc.
- Desenvolve a percepção de espaço
- Ajuda na coordenação motora do indíviduo
- Contribui para o preparo físico do praticante 
- Trabalha a superação de metas
- Desenvolve o altruísmo e a autonomia ao mesmo tempo

CUIDADOS

- Somente fazer com orientação de um profissional especializado na atividade
- Não realizar grandes saltos que possa ocasionar em lesões 
- Observar os limites de cada praticante 
- Aquecer e alongar antes do treinamento de manobras 
- Não treinar intensamente: intervalo de uma dia são necessários
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

ONDE PRATICAR 

UBT – Clube da Vizinhança 604 Sul: 
A partir dos 5 anos
Valor: a partir de R$ 180
Contato: (61) 3223-2450 

Sesc Taguatinga:
A partir dos 10 anos
Valor: a partir de R$ 80
Contato: (61) 3451-9103

Fonte: profissionais consultados

VOCÊ SABIA?

David Belle, criador do parkour cresceu vendo o pai que era ex-combatente da guerra do Vietnã, praticar exercícios relacionados às técnicas de combate de guerra. Com isso, David adaptou e criou técnicas para saltar obstáculos apenas com o movimento do corpo, superando assim os limites e vencendo barreiras. Do francês parkour, uma alteração de parcours, a palavra significa percurso. A popularização da atividade se deu em 1997, quando David concedeu entrevistas a emissoras de tevê norte-americanas. O advento do compartilhamento de vídeos nas redes sociais também ajudou nessa proliferação do parkour.   
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017