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COMPORTAMENTO | FINANÇAS »

Mesada, sim, senhor!

Dar dinheiro todo mês aos filhos os ajuda a lidar desde cedo com os gastos básicos. O que dizem especialistas em educação financeira sobre as responsabilidades de quem recebe e de quem paga a mesada

Maíra Nunes - Publicação:05/07/2017 15:05Atualização:05/07/2017 16:02
Controlar as finanças não é tarefa fácil. Não à toa, as prateleiras de livrarias costumam ficar repletas de obras com dicas e conselhos sobre o tema, assim como parecem multiplicar-se os aplicativos disponíveis em celular para colaborar na gestão dos próprios gastos. A questão é que a relação com o dinheiro é criada desde criança e provavelmente traz reflexos no comportamento da pessoa ao chegar à fase adulta. E, na árdua missão de desenvolver uma consciência financeira em crianças e jovens, pais, mães e familiares costumam recorrer à mesada, uma prática que resiste por gerações.
 
O funcionário público Leonardo Soares paga a mesa
ao filho João Guilherme, de 10 anos, desde que ele 
tinha 5: o filho já aprendeu a economizar e comprou
coisas que queria muito, como um skate  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O funcionário público Leonardo Soares paga a mesa
ao filho João Guilherme, de 10 anos, desde que ele
tinha 5: o filho já aprendeu a economizar e comprou
coisas que queria muito, como um skate
Por mês, o funcionário público Leonardo Soares dá ao filho 30 reais. A maior parte dos gastos de João Guilherme Soares, de 10 anos, são com o lanche na escola. O que sobra, porém, ele junta e até conseguiu o suficiente para comprar um skate eletrônico, que custou 1 mil reais. Algumas contribuições de familiares em datas comemorativas também entraram no cofrinho do menino. Foi assim que, em vez de esperar pelo brinquedo como presente de aniversário ou Natal, ele teve a satisfação de adquiri-lo com as próprias economias. “A mesada é bom para a criança aprender a dar valor ao dinheiro e começar a administrar e valorizar as coisas”, afirma o pai, Leonardo Soares, morador do Sudoeste, que adotou a prática quando o filho tinha 5 anos. O mesmo caminho ele está seguindo a filha mais nova, Maria, 3 anos. “Ao ver o exemplo do irmão, ela também quis ter seu dinheiro. Então, dou a ela um pouquinho e acho que ela já vai aprendendo”, diverte-se. 
 
Educadora financeira do grupo DSOP, Teresinha Maria da Cruz Rocha alerta para alguns equívocos no entendimento da mesada, que deve ter o caráter de doação e portanto não deve-se cobrar nada em troca: “Às vezes, os pais condicionam a mesada a boas notas na escola ou a um bom comportamento, fazendo relação com um possível castigo”. Teresinha, no entanto, esclarece que ela deve ser usada da maneira que o beneficiário bem entender. 
Teresinha Rocha diz que os pais devem manter o acordo com os filhos: 'Antes de se comprometer em dar a mesada, é importante avaliar a própria situação financeira para saber qual o valor poderá doar na data combinada' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Teresinha Rocha diz que os pais devem manter o acordo com os filhos: "Antes de se comprometer em dar a mesada, é importante avaliar a própria situação financeira para saber qual o valor poderá doar na data combinada"
 
Outra característica desse tipo de recurso é a periodicidade com que o valor é doado, sendo os mais comuns feitos mensalmente ou semanalmente. Mas não há uma regra, já que ela é resultado de um acordo entre as pessoas envolvidas. “Antes de se comprometer em dar a mesada, é importante avaliar a própria situação financeira para saber qual o valor poderá doar na data combinada — além de levar em consideração as necessidades da criança. Após firmado o acordo em relação ao valor, convém cumpri-lo”, afirma Teresinha.
 
A universitária Gabriela Coelho, 18 anos, recebe mesada desde os 15 anos da tia Marina dos Santos Silva, analista de finanças aposentada. A iniciativa partiu da tia, moradora da Asa Norte, por acreditar que a prática ajudaria a sobrinha a administrar melhor o dinheiro. Parece ter funcionado. “Como eu sabia que tinha só aquele valor no mês, eu tinha de guardar se quisesse fazer alguma coisa”, conta a estudante. “O gostinho é diferente de quando sou eu quem compro alguma coisa, porque me sinto mais independente”, diz Gabriela. 
A universitária Gabriela Coelho (de pé) com a tia Marina Silva, que dá a mesada à sobrinha há três anos: 'O gostinho é diferente de quando sou eu quem compro alguma coisa, porque me sinto mais independente', diz Gabriela  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A universitária Gabriela Coelho (de pé) com a tia Marina Silva, que dá a mesada à sobrinha há três anos: "O gostinho é diferente de quando sou eu quem compro alguma coisa, porque me sinto mais independente", diz Gabriela
 
O doutor em educação financeira Reinaldo Domingos defende que não existe uma idade certa para começar a dar a mesada: “Depende do interesse e do entendimento que a criança demonstrar em relação ao uso do dinheiro”, diz. Presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e da DSOP, Reinaldo sugere que um bom momento é nos 7, 8 anos porque nessa idade a criança já tem vontades e entendimento suficiente de que para ter um produto ou serviço é necessário “trocá-lo” por dinheiro. 

Caso os pais decidam recorrer à mesada, a maneira como abordá-la com os filhos também deve ter alguns cuidados. Primeiramente, é importante entender que cada um tem um comportamento particular. Reinaldo Domingos alerta, inclusive, que não são todas as crianças que devem receber mesada, porque muitas delas não têm uma relação direta com o dinheiro. E impor essa prática pode não ser saudável. Para não exigir mais deles do que estão assimilando, então, deve-se tratar o assunto de forma leve e lúdica, sem imposições ou ameaças. Teresinha Rocha diz que os pais acabam percebendo a hora “apropriada” quando a criança começa a pedir dinheiro com frequência.
 
O capitão do Corpo de Bombeiros militar Edisio dos Santos Lacerda nunca havia pensado em dar mesada aos filhos até que a mais velha, Júlia Alves Lacerda, de 12 anos, pediu ao pai. “Eu não tive isso na minha infância. Depois que comecei a dar o dinheiro a eles, passei a refletir sobre a importância de a criança valorozar o que tem, saber juntar e ter as conquistas dela”, afirma. Há um ano, Edisio passou a adotar a prática e diz já ter percebido mudança no trato com as coisas que a filha conquista por meio do dinheiro que recebe em relação ao que ela simplesmente ganha.
O capitão do CB militar Edisio Lacerda, entre os filhos Rodrigo, de 8 anos, e Júlia, de 12: 'Eu não tive isso na minha infância. Depois que comecei a dar o dinheiro a eles, passei a refletir sobre a importância de a criança valorizar o que tem' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O capitão do CB militar Edisio Lacerda, entre os filhos Rodrigo, de 8 anos, e Júlia, de 12: "Eu não tive isso na minha infância. Depois que comecei a dar o dinheiro a eles, passei a refletir sobre a importância de a criança valorizar o que tem"
Certo dia, Júlia pediu uma sapatilha de ponta ao pai para usar no balé. Edisio, então, disse à filha que comprasse com o próprio dinheiro e que se ainda não tivesse o suficiente para esperar o dia da mesada. E ela assim fez. No dia que foram à loja, faltava pouco para comprar a sapatilha e o pai completou o dinheiro. “Ela teve de esperar, juntar o dinheiro e, no fim, a sapatilha foi uma conquista dela”. A mesma situação está se repetindo com o mais filho novo, Rodrigo Alves Lacerda, de 8 anos que deve comprar uma bola em breve com as próprias economias. 
 
Já o professor Marcus Régis de Oliveira segue com a filha mais nova, Marcella de Oliveira, de 17 anos, a estratégia usada com o filho Matheus Oliveira, de 24. Morador da Asa Sul, ele dá dinheiro todo domingo a Marcella desde que ela tinha 14 anos. O valor é fixo e foi estabelecido com a filha para comprar o lanche na escola. Pai e filha combinaram que aquele dinheiro teria de durar a semana inteira. “Claro que se acabasse antes, eu não a deixaria sem lanche. Mas ela nunca me pediu mais no meio da semana”, conta Marcus. 
Para o professor Marcus Oliveira, a mesada semanal é uma forma de a filha Marcella administrar seus recursos: 'Ela nunca mais me pediu mais dinheiro no meio da semana' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o professor Marcus Oliveira, a mesada semanal é uma forma de a filha Marcella administrar seus recursos: "Ela nunca mais me pediu mais dinheiro no meio da semana"
 
Para ele, a mesada é um bom ponto de partida para começar a administrar recursos e ver que se cometem exageros existem consequências. Mas nunca foi o caso dos filhos de Marcus. Marcella, por exemplo, teve experiência oposta. Interessada em ir ao festival de música Lollapalooza, em São Paulo, ela economizou o suficiente para ainda levar o irmão aos shows. “Ela administra o dinheiro de forma bem positiva. Tinha dia que levava o lanche de casa e por isso conseguiu juntar para fazer a viagem”, orgulha-se o pai.
 
Os especialistas dizem que é recomendável que o momento de acertar o valor seja feito de forma junto de quem vai receber a mesada. Principalmente para crianças e jovens, é boa oportunidade para ensiná-los a se planejar. Ao combinar a quantia, é importante calcular que metade do valor seja voltada para gastos a curto prazo – como lanches e necessidades da rotina – e a outra metade para ser guardada com objetivo de usar a longo prazo. “Se nessa conversa ficou estabelecido que 50% será guardado para o futuro, não é necessário que a criança junte muito mais do que isso, até para evitar que se torne uma pessoa avarenta”, aconselha Teresinha Rocha. “Essa noção é importante para que ela não deixe de comer o lanche somente porque precisa economizar”, completa.
 
Definido o valor, Reinaldo Domingos aconselha explicar que a metade da mesada que ficará guardada será investida nos sonhos, mais especificamente, em três tipos diferentes: de curto prazo (realizado em até um mês); de médio prazo (em até seis meses); e de longo prazo (até um ano). O que serão esses sonhos é a pessoa beneficiada quem deve definir. A mesma estratégia pode ser usada ao dinheiro que a criança ou o jovem recebe de terceiros, como presentes da avó e de tios em datas como aniversários.  
Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros, sugere começar com a mesada por volta dos 7, 8 anos: nessa idade a criança já tem vontades e entendimento suficiente de que para ter um produto ou serviço é necessário 'trocá-lo' por dinheiro  (Divulgação )
Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros, sugere começar com a mesada por volta dos 7, 8 anos: nessa idade a criança já tem vontades e entendimento suficiente de que para ter um produto ou serviço é necessário "trocá-lo" por dinheiro
 
A mesada não precisa ser especificamente em dinheiro. O uso de cartões de débito ou crédito também geram dúvidas. Teresinha esclarece que a relação deve ser a mesma da mesada paga em dinheiro, ou seja, estabelecer um valor e deixar claro que o dinheiro tem de estar em algum lugar para pagar aquele cartão.
 
7 ERROS NA HORA DA MESADA
O doutor em educação financeira Reinaldo Domingos, da DSOP, ensina os principais cuidados ao implementar a prática
 
1   Desequilíbrio

A mesada deve ser dividida em duas partes, uma dedicada ao consumo e a outra aos sonhos. O problema é quando o filho quer usar tudo apenas para os sonhos, ou seja, guardar tudo. Então, ele pode se tornar avarento, pão-duro. O importante é manter os sonhos, sem deixar de consumir.
 
2   Violação

Pegar o dinheiro, por menor que seja o valor, do cofrinho da criança e não devolver. Além de ficar magoada, ela pode interpretar que também é permitido pegar o dinheiro da carteira dos pais.
 
3   Ruptura

Ocorre após a criança ter juntado o necessário para realizar um sonho, como comprar alguma coisa, e outra pessoa compra o item desejado para que a criança não use as economias. Ela pode se sentir desestimulada, além de tirar o aspecto de conquista dela.
 
4   Permissão

O que fazer quando a criança pede para receber a mesada antes da data combinada? Dizer não. E ensinar-lhe que deve planejar para consumir o dinheiro durante todo o período combinado.
 
5   Desmedida

A mesada não deve ser usada como prêmio ou castigo. É comum pais ou responsáveis atrelarem a mesada ao comportamento da criança, como notas boas na escola, ajuda nas atividades de casa. Isso, porém, pode dar a entender que ela pode cobrar todo tipo de tarefa e torná-la avarenta.
 
6   Remuneração

Mesada não é salário, e sim uma doação. Nunca é demais ressaltar que criança não deve trabalhar, por isso a doação é algo mais adequado para ela.
 
7   Sonegação

Parece estar distante da criança, mas não está. Os responsáveis devem ensinar as crianças a pedir nota fiscal em tudo o que comprarem, sejam serviços ou produtos. E é importante que os pais sejam os exemplos para os filhos.  
 
Fonte: especialistas consultados 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017