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COMPORTAMENTO | INTERNET »

Seu filho protegido dos perigos cibernéticos

Especialistas dão dicas de como evitar as ciladas das redes sociais, dos jogos violentos e dos sites que induzem crianças e adolescentes a atitudes violentas

Teresa Mello - Publicação:07/07/2017 15:42Atualização:07/07/2017 16:45
Internet é uma praça pública. Com essa clareza da realidade, escolas, professores, pais e especialistas debruçam-se sobre os perigos cibernéticos para proteger alunos e filhos. As ameaças não param. Há poucos meses, o desafio da Baleia Azul acendeu um alerta na sala de jantar das famílias e junto à comunidade escolar. A série de TV 13 Reasons Why estremeceu a aparente fortaleza na qual vivem pais e filhos. Como falar sobre jogos violentos que induzem ao suicídio e à automutilação? Os pais têm direito de bisbilhotar o celular do filho? Como estabelecer limites sem ser invasivo? 
A série 13 Reasons Why trouxe à discussão até que ponto os pais devem permitir que os filhos sejam livres para escolher o que ver nos celulares, tablets, computadores e TVs (Beth Duber/Netflix/Divulgação)
A série 13 Reasons Why trouxe à discussão até que ponto os pais devem permitir que os filhos sejam livres para escolher o que ver nos celulares, tablets, computadores e TVs
 
Nossos entrevistados recomendam uma série de atitudes para lidar com a insegurança que ronda a adolescência. Conversamos com representantes de dois colégios tradicionais da capital que promoveram palestras em maio sobre os riscos da internet: o Colégio Marista e a Escola Americana de Brasília. O primeiro educa cerca de 3 mil alunos em três unidades na Asa Sul. Fundado em 1962, tem 250 professores a cargo de estudantes de 2 a 17 anos. A Escola Americana, criada em 1961, reúne 678 alunos de 3 a 17 anos. Desses, 57% são brasileiros, e o restante vem de 48 países. Há 68 professores, metade estrangeira. 
 
Em maio, o Colégio Marista, de fundamentos católicos, organizou amplo debate para os pais, no auditório do Maristão. Na carta “Valorização à Vida”, distribuída antes da palestra, havia um apelo sobre a necessidade de abrir um “franco diálogo em casa e na escola” e acompanhar “de perto a rotina de seus filhos”. Entre os sinais de alerta, estão listados: indícios de automutilação, roupas de mangas compridas, isolamento, muitas horas no quarto, tristeza. “As famílias estão inseguras, não estão preparadas para lidar com as ameaças virtuais, porque elas não viveram as redes sociais há 20 anos”, analisa o psicopedagogo gaúcho Ricardo Timm, ex-aluno do Marista e pai de aluno. Para ele, nos últimos cinco anos, a internet vem sendo utilizada de forma indiscriminada: “Os jovens nunca foram orientados, nem pela escola nem pela família”. No colégio, o uso correto da tecnologia é ensinado desde os 5 anos, e os professores são instruídos por meio do curso de letramento digital.
O psicopedagogo Ricardo Timm, do Colégio Marista e pai de aluno na instituição: 'O bullying virtual é muito mais agressivo, porque você está com ele no bolso' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O psicopedagogo Ricardo Timm, do Colégio Marista e pai de aluno na instituição: "O bullying virtual é muito mais agressivo, porque você está com ele no bolso"

Outras ameaças rondam o pátio do recreio. “O bullying virtual é muito mais agressivo, porque você está com ele no bolso”, opina Ricardo, que explica a postura da escola: “Um grupo de alunos ofende um estudante pela internet, a família nos traz a queixa, nós investigamos e estabelecemos o diálogo e os limites”. Os nudes configuram mais um motivo de constrangimento, causados, na maioria das vezes, por ingenuidade: “A namorada manda para o menino, eles brigam, o menino divulga a foto. Nós enviamos uma psicóloga na sala para falar a respeito”, diz o psicopedagogo.

Os professores do Marista são incentivados, ainda, a observar a turma, detectar aquele adolescente isolado e triste. “Em casos de aparente depressão, chamamos a família e sugerimos encaminhamento médico”, acrescenta Ricardo Timm, que recomenda o site www.familiaconectada.com.br, da psicóloga escolar e escritora Ana Maria Albuquerque Lima, especializada em vida digital.
 
Uma das palestrantes no evento em maio, a psicóloga Ana Paula Rabello Chaves é focada no atendimento infantojuvenil e mãe de aluna. “Internet é uma praça pública”, define ela, que destaca a imensa falta de comunicação na família: “Muitas terceirizam a educação dos filhos”, diz. Ana Paula afirma que a proibição não é adequada e sugere a privacidade vigiada: “Há momentos em que sua filha quer ficar sozinha e você deve bater à porta do quarto antes de entrar – e a porta fica sem trancar”.
 
A psicóloga lembra que a melhor forma de proteger os filhos é dar-lhes limites. Em relação à própria filha, Manuela, hoje com 14 anos, ela conta que a garota foi autorizada a ter perfil nas redes sociais aos 11 anos, mas com restrições. Por exemplo, a mãe é informada sobre os grupos no WhatsApp – restritos à família e à escola –, o acesso à rede é limitado e Manuela deve mostrar as fotos antes de postá-las. 
Manuella, aluna do 9º ano do ensino fundamental, com a mãe, a psicóloga Ana Paula Chaves: a menina de 14 anos tem perfil nas redes sociais desde os 11 anos, mas com algumas restrições, como grupos de WhatsApp restritos à família e à escola (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Manuella, aluna do 9º ano do ensino fundamental, com a mãe, a psicóloga Ana Paula Chaves: a menina de 14 anos tem perfil nas redes sociais desde os 11 anos, mas com algumas restrições, como grupos de WhatsApp restritos à família e à escola
 
Outra atitude sadia é programar atividades off line, nas quais as duas aproveitam momentos de lazer. “Adoramos comer brigadeiro, assistir a novelas na TV, ir ao clube, ficar de preguiça juntas”, diz Ana Paula. “Não fico muito tempo na internet”, confirma Manuela, aluna do 9º ano do ensino fundamental. “Uso para fazer pesquisa, dever de escola, ver site de notícias.” 

Bem educada, a adolescente aprendeu a se proteger por meio da família e da escola. “É preciso tomar cuidado, há grupos espalhando nudes, gente com perfil falso fazendo cyber bullying”, diz. Manuela exclui pedido de amizade de desconhecido no Facebook – só aceita se tiver amigo em comum – e não deixa o perfil aberto para público, só para amigos. “Acho também que não devemos expor tudo o que estamos sentindo”, diz. A mãe acrescenta: “Não devemos postar a nossa rotina”.
 
Formada pela UnB, a psicopedagoga Isabel Mader é orientadora educacional do 6º ao 9º ano na Escola Americana. Nascida em Arlington, Virginia (EUA), promove orientações sobre perigos cibernéticos endereçadas a professores, alunos e pais: “Temos uma aula de segurança e bem-estar, e fizemos um workshop em maio sobre desconectar para conectar. Os alunos estavam curiosos em relação ao jogo Baleia Azul e à série 13 Reasons Why”. 
Isabel Mader, orientadora educacional da Escola Americana recomenda muita atenção aos pais: 'O ideal é você ter um contrato com seu filho, com cláusulas do tipo usar a internet até às 21h'  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Isabel Mader, orientadora educacional da Escola Americana recomenda muita atenção aos pais: "O ideal é você ter um contrato com seu filho, com cláusulas do tipo usar a internet até às 21h"
 
Há seis anos na instituição de ensino, Isabel elaborou a cartilha Growing up Online, com base nas obras da escritora e educadora norte-americana Kathy Koch. “O ideal é você ter um contrato com seu filho, com cláusulas do tipo usar a internet até as 21h. O computador deve ficar em áreas comuns, como sala de estar ou de TV”, indica ela, que recomenda aos pais verificar regularmente mensagens e aplicativos no celular dos filhos. 
Presente ao workshop, o diretor de tecnologia da escola, o canadense Rod Narayan considera importante falar sobre perigos na internet para que os alunos possam criar seus perfis nas redes sociais no futuro. Nos Estados Unidos, a idade mínima para se ter uma conta é 13 anos. 

Com duas filhas no colégio, uma de 9 e outra de 12 anos, ele indica o site www.commomsensemedia.org e adota práticas educativas, como colocar o laptop em local de circulação da casa e deixar o celular fora do quarto à noite. “Desligo o wi-fi também”, diz ele, que está há dois anos na escola, depois de passagens por Jacarta, na Indonésia, e Taipé, em Taiwan. E as ameaças não param. A mais recente delas, segundo Rod, é o ransom ware, que invade o computador, rouba todas as informações, coloca um vírus nele e exige uma quantia de dinheiro para devolver a senha pessoal. “Sempre existe perigo na internet”, afirma. 
Com duas filhas entre 9 e 12 anos, Rod Narayan, o diretor de tecnologia da Escola Americana, diz que é importante tomar certos cuidados, como desligar o wi-fi à noite: 'Sempre existe perigo na internet'  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Com duas filhas entre 9 e 12 anos, Rod Narayan, o diretor de tecnologia da Escola Americana, diz que é importante tomar certos cuidados, como desligar o wi-fi à noite: "Sempre existe perigo na internet"
 
PARA SE INFORMAR 
Site com dicas sobre como lidar com os riscos das redes sociais
 
 - www.familiaconectada.com.br
 - www.commonsensemedia.org
 - www.safernet.org.br
 - www.drkathykoch.com 
 
DE OLHOS BEM ABERTOS
O que os pais devem fazer contra os perigos da internet
 
 - Restabelecer o diálogo em casa.
 - Incentivar um hobby, uma atividade de lazer, um esporte.
 - Estabelecer limites para o uso da internet (até as 21h, por exemplo).
 - Checar mensagens, posts, fotos e aplicativos no celular dos filhos sempre.
 - Deixar o computador em áreas comuns da casa.
 - Criar momentos sem tecnologia (jogos de tabuleiro, por exemplo).
 - Assistir a filmes, shows e televisão com os filhos.
 - Não deixar o celular dos filhos no quarto à noite.
 - Desconectar o wi-fi de vez em quando.
Fonte: entrevistados ouvidos 
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017