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Crise política com cérebro: Nas Telas aborda a série "House of Cards"

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:27/07/2017 13:15

Um drama político permanecer atraente e firme após cinco temporadas exige inspiração e, sobretudo, respeito ao espectador, que acompanha o formato desde o capítulo piloto. House of Cards é um fenômeno da Netflix que, apesar do leque de atrocidades inventadas pelos autores, não padeceu em diminuir sua exuberância. Ao contrário, o seriado soube se reinventar, sem emparelhar na caricatura, preservando a força do casal protagonista e escalando novos atores, com a capacidade de abrir novos meandros e táticas na conquista e manutenção do poder.

 

Neste quinto ano, a série sofreu com a dura realidade da ascensão de Donald Trump. Atrasos eram inevitáveis. Mas a saga dos Underwoods começa uma nova fase, com a ameaça da sombra terrorista, em pleno território norte-americano, às vésperas da eleição presidencial. Acusações de que a ficção foi apagada pela realidade não fazem sentido. Os abusos perpetrados por Francis e Claire (Kevin Spacey e Robin Wright) continuam plausíveis e demolem o ideal de liberdade e democracia, pilares da nação mais poderosa do mundo.

 

Na mesma linha, críticas no sentido de ter se transformado numa gigantesca caricatura não consideram o primor e a coerência do texto. Aliás, a série criada por Beau Willimon, a partir do programa original britânico, sabe o momento preciso de renunciar a uma trama, antes mesmo de desgastá-la. Talvez este seja o grande segredo da equipe de roteiristas. Inventar novos conflitos, para reforçar a psicopatia de Francis e Claire. Para isso acontecer, bons personagens saem de cena, enquanto outros retornam, como o caso do presidente russo Petrov (Lars Mikkelsen), o Putin da vez, sempre uma navalha na jugular da casa Underwood.

Os atores Robin Wright e Kevin Spacey interpretam o casal Claire e Francis Underwood: seus abusos continuam tão plausíveis quanto antes (Divulgação )
Os atores Robin Wright e Kevin Spacey interpretam o casal Claire e Francis Underwood: seus abusos continuam tão plausíveis quanto antes
 

Com diferentes objetivos, House of Cards escala grandes estrelas para futuras incursões. Dessa vez, Campbell Scoot e a notável Patricia Clarkson entram em cena, numa espécie de duelo do assessor mais brilhante, capaz de seduzir um dos polos do universo Underwood. No desempate, mesmo com equilíbrio para a ficção, a entrada da talentosíssima Patricia, por si só, já promete a criação de muitos episódios, somente para revelar quem é de fato a maquiavélica lobista Jane Davis.

 

Figura-chave em decisivos momentos do show, Doug Stamper, papel do competente Michael Kelly, retorna como o bulldog do Presidente Underwood, novamente, desafiado a expor até onde é capaz de ir para não macular a imagem do homem público que tanto admira.

 

O esforço evidente da atuação do galã Joel Kinnaman, o candidato republicano desafiante Will Conway, é o perfeito contraponto para Kevin Spacey, que não pode mais exibir o perfil do jovem pai de família que se alistou após o 11 de Setembro, mensagem ideal para qualquer político que ambicione o cargo de presidente.

 

As luzes, porém, são todas para Kevin Spacey e Robin Wright. A escalada dos Underwoods toma proporções shakespearianas, com a meta de transformar a Casa Branca no palácio de uma dinastia. Para os fãs de Claire, o momento especial da primeira-dama chega nesta quinta temporada. E Robin Wright, também diretora dos mais importantes episódios deste ano, assume com imponência a responsabilidade de ser “a” protagonista.

 

Para os que comparam House of Cards com a nossa crise caseira, resta reconhecer que o seriado importado não subestima a inteligência de seu público. No Brasil, uma sucessão de absurdos acontece todos os dias e o fingimento espantado, dos que bem conheciam a manjada reputação de muitas das nossas autoridades, jamais seria aceito como fio condutor para nenhuma sequência da série.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017