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SAÚDE | CAPA »

Especialistas explicam 18 dúvidas sobre cirurgia bariátrica

Muitos fatores devem ser levados em conta antes de se decidir pela operação. Encontro entrevistou especialistas para responder às principais questões sobre o assunto

Marina Dias - Redação Jéssica Germano - Redação Publicação:28/07/2017 14:11Atualização:28/07/2017 15:52

Mesmo sendo considerada último recurso por muitos pacientes, a cirurgia bariátrica tem crescido ano a ano no país. Em 2012, foram feitos 72 mil procedimentos no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Em 2016, esse número pulou para mais de 100 mil. A entidade atribui o aumento a múltiplos fatores, como o crescimento da obesidade entre os brasileiros – a taxa de adultos com sobrepeso já passa de 50% – e a ampliação de doenças associadas à obesidade, que podem levar à indicação da cirurgia. O avanço das técnicas relacionadas tem atraído os pacientes. As principais modalidades realizadas atualmente são feitas por videolaparoscopia, o que traz menores riscos cirúrgicos e recuperação mais rápida. Entretanto, é unânime entre especialistas que a cirurgia é apenas o primeiro passo. O acompanhamento posterior, multidisciplinar, é parte essencial do tratamento. Reeducação alimentar, nova visão de seu corpo e de como lidar com ansiedade, incorporação de exercícios físicos à rotina, revisão de hábitos. Essas e outras questões individuais são trabalhadas pós-cirurgia e os resultados não acontecem sem esse esforço e engajamento do paciente. Para quem tem dúvida quanto à indicação, modalidades, recuperação e chance de sucesso da cirurgia, Encontro entrevistou especialistas no assunto em BH e Brasília, e responde às principais questões trazidas aos consultórios.

 

Foi após um sequestro que a estabilidade emocional de Carolina Alves, de 1,60 m de altura, passou a ser marcada pela comida. Depois de uma infância com sobrepeso ela rapidamente atingiu o auge da balança: 120 kg. Hoje, nove anos após a intervenção que a fez eliminar metade do peso, 60 kg, ela não titubeia ao afirmar que o maior desafio está no controle e acompanhamento psicológico do paciente: “A cabeça quer comer, mas não cabe no estômago”, diz. É um desafio que vence a cada dia. “Até entender que, mesmo querendo, você não pode comer porque passará mal, é muito difícil.” A consciência veio junto a sessões de terapia, que se seguiram por até um ano após o procedimento. E deu bons frutos.

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

 A jornalista ganhou apenas 2 kg perdidos e não tem dúvida de que escolheria o mesmo caminho para evitar doenças que já batiam a porta, como diabetes e hipertensão. “Muda muito a qualidade de vida”, afirma, recém-casada e de bem com o espelho após duas cirurgias reparadoras: uma nas mamas e outra nas pernas.

 

Foram 100 kg no total perdidos na balança. Aos 22 anos, o empresário Gustavo Rondoni encontrou na cirurgia bariátrica a solução drástica para a cena que reunia diabetes, insônia e uma pressão alta severa, que o deixou à beira de um derrame. “A cirurgia é um empurrão. Ela ajuda você a se reeducar, com uma restrição física”, afirma. A mudança completa de vida, entretanto, veio apenas mais tarde, com alguns efeitos colaterais e o reganho de peso – fantasma comum a muitos pacientes. Depois de retomar 30 dos quilos perdidos, ele buscou ajuda com o endocrinologista Flávio Cadegiani, da Corpometria, que hoje cuida de perto da saúde do empresário de 38 anos. “Como eu mudei os hábitos, eu me despreocupei com a cirurgia”, conta Gustavo. “Eu me acostumei a comer a comida mais saudável e me tornei uma pessoa normal com o tratamento”, diz, lembrando que já está bem próximo dos 18% de gordura corpórea.

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 

A blogueira e publicitária Denize Lima sentiu na pele os muitos efeitos do sobrepeso, por anos. Nascida em uma família com histórico de obesidade, ela lembra da briga que teve durante a infância, adolescência e juventude com a balança. “Eu fiz dieta a minha vida inteira, tomei todos os remédios possíveis e imaginários, e tive também todos os efeitos colaterais com eles”, conta, sobre processo que a fez pesquisar por dois anos sobre a cirurgia bariátrica e, finalmente, optar pela intervenção, em 2012. A obesidade mórbida, diagnosticada por um IMC de 42 – resultado dos 116 kg divididos em 1,66 m – foi o que levou à decisão final. Mas não só ela. “Eu sempre sonhei ser magra e com o dia em que eu escolheria a roupa que eu gostaria de vestir, e não a roupa me escolhesse”, conta a influencer digital que hoje, com 51 kg a menos, tem um blog com seu nome, onde compartilha dicas de beleza, moda, lifestyle e também superação. “Eu faria tudo de novo, mesmo com o pós-operatório sendo difícil”, declara. “Eu aprendi demais com a cirurgia e mudei os meus hábitos de vida depois dela.” 

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 

1 | Como se dá a indicação da cirurgia?

A cirurgia é recomendada basicamente para pacientes com obesidade grau 3, ou seja, com IMC maior do que 40. A segunda indicação é para o IMC mais baixo, de 35, associado a doenças agravadas ou desencadeadas pelo excesso de peso, que podem ser mais 60. No exterior, por exemplo, a cirurgia já tem sido considerada o melhor tratamento para pacientes com diabetes grave, tipo 2, em obesos de grau 1, com índice de massa corpórea entre 30 e 35.

Sérgio Arruda, cirurgião bariátrico e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCMB) e da Federação Internacional de Cirurgia de Obesidade (IFSO)

 

2 | Como saber se a técnica proposta pelo cirurgião é regulamentada?

O paciente deve consultar o Conselho Federal de Medicina (CFM). É importante ressaltar que as cirurgias regulamentadas já são estabelecidas como as mais seguras para o paciente e são consagradas pelos baixos índices de complicações e pelas boas práticas médicas. Cirurgias experimentais devem ser utilizadas apenas em protocolos de estudos devidamente reconhecidos pelo Conselho.

Mauro Lúcio Jácome, especialista em cirurgia,gastroenterologia e endoscopia digestiva bariátrica

 

3 | Pode-se dizer que, atualmente, as principais cirurgias feitas no país são a Sleeve e a bypass?

Sim, sendo que a grande maioria é realizada por videolaparoscopia. Ambas são indicadas para pacientes com IMC maior que 40 kg/m2 ou pacientes com IMC maior que 35 kg/m2, desde que tenham duas ou mais comorbidades relacionadas à obesidade. O bypass intestinal tem sido realizado preferencialmente em pacientes diabéticos ou com síndromes metabólicas. Já a Sleeve, em pacientes com IMC mais próximo do limite inferior (entre 35 e 42 kg/m2).

Bruno Sander, cirurgião endoscopista

 

4 | Quais são os procedimentos prévios e laudos necessários para se submeter à cirurgia?

Durante a avaliação pré-operatória é realizada uma série de exames complementares como ultrassom abdominal e endoscopia digestiva, além de um grande número de exames laboratoriais e consultas com especialistas de diversas áreas: pneumologia, cardiologia, psiquiatra, psicologia e nutrição. Nessa fase, também é obrigatório o preenchimento do termo de Consentimento Informado, no qual o paciente reconhece estar devidamente informado sobre os benefícios e riscos da cirurgia.

Roberto Carlos de Oliveira e Silva, cirurgião geral e diretor técnico do Hospital Felício Rocho, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica

 

5 | Quais são os riscos?

Tanto o bypass quanto a Sleeve são procedimentos cirúrgicos, feitos com anestesia geral e internação hospitalar, e o paciente precisa saber que não existe cirurgia sem riscos. Para se submeter à operação, a pessoa passa por uma bateria de exames pré-operatórios. Se todos forem favoráveis, ela tem riscos normais de uma operação, como sangramentos, infecções, trombose venosa profunda e embolia pulmonar, além de risco de reoperação. A taxa de mortalidade nessas cirurgias varia em torno de 0,5%.

Marcelo Girundi, cirurgião bariátrico membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

 

6 | Como é a recuperação após a cirurgia bariátrica?

O procedimento por videolaparoscopia é minimamente invasivo, permitindo que o paciente tenha alta no dia seguinte da cirurgia. Durante um mês, a alimentação é feita por dieta líquida progressiva, orientada pela nutricionista da equipe multidisciplinar. A ingestão começa por líquidos claros, passando para caldos, sopas e depois pastosos. Aos 15 dias já é possível voltar à rotina de trabalho e também dirigir. Com 30 dias são liberados os exercícios físicos.

Sérgio Arruda

'Até entender que, mesmo querendo, você não pode comer porque passará mal, é muito difícil', comenta a jornalista Carolina Alves (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"Até entender que, mesmo querendo, você não pode comer porque passará mal, é muito difícil", comenta a jornalista Carolina Alves

7 | O que é esperado em termos de perda de peso?

É considerado sucesso terapêutico o paciente que perdeu no mínimo 50% do excesso de peso corporal, mas a maioria perde quase todo o excesso. A variação é de acordo com a motivação do paciente, porque a cirurgia não é tudo. Ela requer uma posterior mudança de hábitos, com alimentação balanceada, exercícios físicos. O prazo médio para perda do excesso de peso é entre um ano e meio e dois anos.

Rodrigo Fabiano Guedes Leite, cirurgião bariátrico membro titular do colégio brasileiro de cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

 

8 | E em relação à melhora de comorbidades, como diabetes, hipertensão, apneia do sono?

Os efeitos após a cirurgia vão desde melhora importante até, muito frequentemente, resolução completa do quadro. Os pacientes ainda se beneficiam com melhora de outras tantas doenças como apneia do sono, doença cardiovascular, infertilidade e doenças osteomusculares.

Roberto Carlos de Oliveira e Silva

 

9 | O que é a Síndrome de Dumping?

É quando um alimento hipercalórico, rico em açúcar ou gordura, passa rapidamente do estômago para o intestino delgado. Isso gera secreção de muito líquido, o que promove efeitos como queda de pressão arterial, tremores, sudorese, taquicardia e sensação de mal-estar. É mais frequente após o bypass do que a Sleeve, mas não necessariamente acometerá a todos. Alguns podem não ter, outros podem ter apenas por determinado tempo, outros para o resto da vida.

Marcelo Girundi

 

10 | Quais são as chances de ganhar peso após a cirurgia?

Estudos recentes mostram que pelo menos 35% dos pacientes vão ter algum grau de reganho de peso após alguns anos. Apenas a minoria, contudo, vai ganhar todo o peso perdido. Esse reganho se dá muito em função da adaptação do metabolismo pessoal e de maus hábitos de vida, como nutrição inadequada e consumo de álcool ou doces.

Mauro Lúcio Jácome

 

11 | Como evitar ganhar peso depois da operação?

A cirurgia só trata o sintoma do excesso de peso, não a base do problema. Nesse sentido, o procedimento gera uma janela terapêutica para o paciente tratar a obesidade. No caso da Sleeve, cerca de três anos, e no caso do bypass, cinco anos. Nesse tempo, é preciso fazer psicoterapia, reaprendizado alimentar. O tratamento complementar é necessário para se atingir o objetivo.

Leonardo Salles, cirurgião bariátrico

 

12 | Quais são as consequências da cirurgia para o sistema digestivo e a capacidade de absorção de nutrientes?

O paciente que faz cirurgia precisa estar ciente de que deverá ter controle e acompanhamento para o resto da vida. Pode ter, por exemplo, deficiência vitamínica, e esses nutrientes terão de ser repostos (falta de vitamina B12, ferro ou cálcio, por exemplo). Esse controle é essencial.

Leonardo Salles

'Eu me acostumei a comer a comida mais saudável e me tornei uma pessoa normal com o tratamento', diz o empresário Gustavo Rondoni (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"Eu me acostumei a comer a comida mais saudável e me tornei uma pessoa normal com o tratamento", diz o empresário Gustavo Rondoni
 

13 | O que muda na rotina alimentar e nas condições de alimentação?

Após três meses, o paciente pode ter hábitos alimentares normais. O que acontece é que, com a restrição física e hormonal da cirurgia, a pessoa se sente saciada mais precocemente, então tende a comer menos. É possível, inclusive, por meio de equipamentos, saber a quantidade de calorias diárias que o paciente precisa, para ajudar a orientá-lo na alimentação.

René Berindoague, cirurgião bariátrico membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Obesidade

 

14 | Qual é a importância do acompanhamento multidisciplinar?

A obesidade tem de ser entendida como doença de múltiplas causas (metabólicas, psicológicas, ambientais, etc.). Assim, além da cirurgia, é preciso reeducar o paciente, com acompanhamento feito por nutricionista, endocrinologista, psicólogo. Tem de ser feita a reeducação alimentar e outros trabalhos. Um exemplo é em relação à imagem corporal: há pacientes que foram acostumados a ser obesos a vida toda e que, em três meses, perdem 20 quilos. Isso pode não ser simples de compreender.

René Berindoague

 

15 | Pessoas que já se submeteram a cirurgias anteriormente podem tentar de novo?

O segundo tratamento cirúrgico deve ser muito bem avaliado, porque segunda operação sempre se traduz em maiores riscos, além de benefícios não tão evidentes quanto na primeira. Não se deve pensar que, se não se obtiver sucesso na primeira vez, é só operar de novo, pois os resultados são pouco concretos.

Henrique Eloy, cirurgião geral e endoscopista

 

16 | É sempre necessário fazer cirurgia plástica depois da cirurgia bariátrica?

Não, e não é possível avaliar a necessidade antes do procedimento bariátrico, pois vai depender da elasticidade da pele de cada paciente. A recomendação é aguardar o prazo de um ano e meio, quando o peso está estabilizado, para aí, sim, fazer a avaliação da cirurgia plástica. Como normalmente só a retirada do excesso de pele do abdômen é coberta pelos planos de saúde, orienta-se que o paciente procure saber dessa cobertura antes da cirurgia bariátrica para se programar.

Henrique Eloy

 

17 | Como o senador Romário conseguiu fazer a cirurgia sem o IMC mínimo indicado?

O Romário se submeteu a uma técnica experimental, chamada interposição ileal, que não é autorizada pelo CFM. No ano passado, várias associações internacionais de estudo de cirurgia de obesidade endossaram documento que autoriza a realização de técnicas bariátricas para controle de diabetes tipo 2 para IMC acima de 35 e para pacientes com obesidade de 1º grau e diabetes de difícil controle, com o IMC entre 30 e 35. Mas é importante lembrar que a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica e o CFM não autorizam cirurgias experimentais que não estejam dentro de protocolos de pesquisa devidamente reconhecidos.

Rodrigo Fabiano Guedes Leite

 

18 | Quais são as principais novidades e avanços?

A grande expectativa é pelo OverStitch, um tipo de redução de estômago realizado por endoscopia. Por meio dessa técnica será possível realizar pontos internos no estômago, diminuindo a sua área de reserva, sem a necessidade de cortes ou desvios no intestino. E como nenhuma parte do órgão é retirada ou desviada, a absorção de vitaminas mantém-se praticamente inalterada. Além disso, por ser uma técnica endoscópica e menos invasiva que a cirurgia tradicional ou a de videolaparoscopia, o paciente poderá receber alta no mesmo dia. Por último, como não é retirada nenhuma parte do estômago, é possível reverter completamente o procedimento simplesmente cortando os pontos.

Bruno Sander

''Eu fiz dieta a minha vida inteira, tomei todos os remédios possíveis e imaginários, e tive também todos os efeitos colaterais com eles', conta a blogueira e publicitária Denize Lima (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
''Eu fiz dieta a minha vida inteira, tomei todos os remédios possíveis e imaginários, e tive também todos os efeitos colaterais com eles", conta a blogueira e publicitária Denize Lima
 

PRINCIPAIS TÉCNICAS REALIZADAS ATUALMENTE NO BRASIL

 

GASTROPLASTIA VERTICAL COM BYPASS GÁSTRICO EM Y DE ROUX

 

> Estudado desde a década de 1960, o bypass é a técnica bariátrica mais praticada no Brasil, correspondendo a 75% das cirurgias realizadas, devido a sua segurança e, principalmente, sua eficácia.

 

> O paciente submetido à cirurgia perde de 40% a 45% do peso inicial.

 

> Nesse procedimento, é feito o grampeamento de parte do estômago, que reduz o espaço para o alimento, e um desvio do intestino inicial, que promove o aumento de hormônios que dão saciedade e diminuem a fome. Essa somatória entre menor Ingestão de alimentos e aumento da saciedade é o que leva ao emagrecimento, além de controlar o diabetes e outras doenças, como a hipertensão arterial.

 

> É mais indicada para pacientes que apresentam doenças metabólicas associadas à Obesidade

 

GASTROPLASTIA SLEEVE

 

> É um procedimento relativamente novo, praticado desde o início dos anos 2000.

 

> Consiste na retirada 70 a 80% do estômago, de forma longitudinal. Além do efeito restritivo pela redução do tamanho do estômago, retira-se justamente a parte do órgão onde é produzido o hormônio grelina, responsável pela sensação de fome quando ele se esvazia. Portanto, reduz a fome.

 

> Tem a vantagem de preservar o trânsito pelo duodeno (responsável pela absorção de ferro, cálcio, zinco e vitaminas do complexo B)

 

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica e especialistas consultados 

 

 

 

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017