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DEZ PERGUNTAS PARA | MARCOS PIANGERS »

"Só trocar a fralda não determina se você é um bom pai"

O Papai é Pop fala sobre os principais desafios da paternidade nos dias de hoje, a dificuldade dos homens em compartilhar Experiências e a luta diária na convivência com os filhos

Marina Dias - Redação Publicação:31/07/2017 13:02Atualização:31/07/2017 13:37

Filho de mãe solteira e pai de duas meninas, Anita, de 12 anos, e Aurora, de 5, o jornalista catarinense Marcos Piangers é realmente um pai pop. Depois de começar a viver as dificuldades e maravilhas da paternidade, decidiu compartilhar suas histórias em forma de crônicas. Sua primeira obra, O Papai é Pop, inspirada em momentos memoráveis das filhas e nas reflexões que registrava despretensiosamente num caderninho, vendeu mais de 150 mil cópias desde que foi lançada, em 2015. Além do sucesso no Brasil, onde chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos, já foi traduzida para o inglês, espanhol, catalão e chegou ao quarto lugar em vendas em Portugal. Ainda neste ano, será lançada na versão em quadrinhos. A fama do livro também gerou a sequência O Papai é Pop 2 e Mamãe é Rock, escrito por sua mulher, Ana Cardoso. O sucesso, Piangers atribui ao fato de que há hoje mais homens interessados em participar verdadeiramente da criação dos filhos, e também à pouca quantidade de material escrito por pais e para pais. “Entendo as mães que fazem isso, é muito prazeroso compartilhar, aprender com os outros” diz. “E poucos pais fazem o mesmo”, completa. 

 (Cláudio Cunha)

1 | ENCONTRO – Como foi a sua primeira experiência com a paternidade?

Marcos Piangers – Na verdade, a minha primeira experiência foi a falta de um pai. Meus amigos tinham pai e eu não. A comemoração de Dia dos Pais na escola, para mim, não tinha sentido. Eu perguntava para minha mãe quem era meu pai e ela dizia “você não tem pai”. Fui crescendo e isso acabou sendo muito tranquilo para mim. Claro que eu adoraria ter tido um, mas, não tendo, acho que minha mãe fez todo o possível para ir me levando na vida. Até o dia em que eu mesmo fui pai, aos 23 anos. E, quando minha mulher me disse que estava grávida, eu não fiquei nervoso, fiquei superfeliz. Minha mulher ficou mais nervosa, eu não.

 

2 | Por que acha que ela ficou mais nervosa que você?

O que eu descobri, não naquele dia, mas depois, é que mulheres passam por uma transformação obrigatória. Pais passam por transformação opcional. Há muitos que abandonam, outros que dizem que vão apoiar, mas ficam só vendo a mulher trocar a fralda, dar banho. A licença-paternidade no Brasil é de cinco dias. É uma das mensagens que dizem para o cara: “você não precisa cuidar da criança, isso é coisa da mulher”. É retrógrado, medieval. E a mulher tem a pressão da adaptação profissional, social, fisiológica. E eu não entendia isso. Então minha mulher ficou nervosa, e eu, de boa, tranquilo.

 

3 | E como foi quando sua primeira filha nasceu?

Foi superassustador. Minha experiência não foi de “ah, que bonito”. Foi tensa, especialmente porque minha mulher optou pela cesariana e tem essa coisa de a operação ser meio artificial, meio fria. Não foi um dia que me conquistou de cara. Mas fui criando vínculos. É muito difícil ter filho, é muito trabalhoso. E é aí que se vai criando os vínculos, que vai se apaixonando e recebendo amor de volta. 

 

4 | Como foi refletir sobre qual tipo de pai gostaria de ser, sem ter tido uma figura a quem se comparar?

Quebrar um ciclo de comportamento social é difícil, então, basicamente, nota-se um padrão. Pais muito durões têm filhos que replicam isso com os próprios filhos, a não ser que sejam transformados pela informação. No meu caso, eu fui transformado pela informação da minha mulher e minhas filhas, que me ensinam todo dia. Minha mulher precisou ter esse papel de me apontar onde eu estava errando. Eu tive talvez o mérito da humildade, de dizer “vocês estão certas, estou errado”, que é algo que poucos homens fazem.

 (Cláudio Cunha)
 

5 | Por que acha que, mesmo entre os pais presentes, nem todos são participativos?

Acho que isso é histórico. Replicamos comportamentos referenciais. E, sistematicamente, a sociedade nos manda recados de que lidar com criança não é assunto do pai. Nenhuma das bonecas da minha filha fala “papai, estou com fome”. Os fraldários são no banheiro feminino ou no da família. Isso ocorre até na escolinha: pego a agenda da minha filha e vejo escrito sempre nos recados: “Mamãe…”. A mesma coisa nas reuniões de pais, que têm sempre poucos homens. Qual o recado que recebemos? Que esse não é o nosso espaço. Mas é algo que tenho de enfrentar se quero desafiar minha posição de pai. Caso contrário, estou perpetuando esses ciclos de comportamento.

 

6 | Ainda há quem o parabenize por atitudes que são básicas na criação de uma criança mas que, quando tomadas por pais, são consideradas heroicas?

Sim. Tem gente que me fala: “Nossa, você é pai mesmo. Você até troca fralda!” Em pleno 2017! Além disso, só trocar fralda não determina se você é um bom pai, mas sim o desafio de entrar sempre em ambientes em que se está desconfortável. Como agora, por exemplo, que estou me preparando para lidar, com minha filha mais velha, com as descobertas da adolescência. 

 

7 | E por que começou a escrever sobre essa experiência?

O primeiro parto da minha mulher, como disse, já foi meio nervoso, e eu, como jornalista, escrevi a respeito no meu caderninho. Aí a Anita foi crescendo, falando coisas legais, e eu fui anotando. Um exemplo: “Pai, quero casar.” E quando perguntei por que, ela disse “quero mandar em alguém também” (risos). Nasceu a Aurora, a Anita continuou me falando várias coisas interessantes. Em 2013, uma amiga leu esse material e sugeriu que transformássemos em textos para publicar no jornal. Em 2014, a editora me chamou para publicar um livro, que virou O Papai é Pop. Ao contrário das minhas expectativas, explodiu. 

 

8 | Por que acha que o livro fez tanto sucesso?

Acho que o livro pegou esse momento de pais que pensam como eu. E de poucos que compartilham essa experiência. Disseram-me outro dia que, quando nasce um filho, nasce um blog de mãe (risos). Não é o caso com os pais. O livro partiu dessa minha vontade de compartilhar minha história com os outros. Entendo as mães que fazem isso, é muito prazeroso aprender com os outros, compartilhar.  

 

9 | Você descreve cenas corriqueiras das quais, muitas vezes, os pais não se orgulham. Como lidar com esses momentos difíceis?

Tem como seu filho, por exemplo, não espernear no chão do supermercado, mas é trabalhoso. É preciso conversar, abaixar-se até a altura dele e explicar olho no olho. Mas a rotina nos faz viver tudo correndo, de forma nada prazerosa. Um pai me contou que uma vez estava no trânsito, impaciente, com o filho, que brincava de mágica no banco de trás. Aí o pai virou e falou “Mágica não existe. Fica quieto!”. E o filho respondeu: “Sei que não existe, mas sou criança, estou brincando”. O pai ficou supermal, pediu desculpas, e vai fazer vídeos no YouTube com as histórias de um bruxinho. Então faz bem respirarmos fundo, dizermos “Fala, filho”. Sei que é papo zen, de bicho grilo, mas é verdade.

 

10 | Qual o principal desafio hoje na paternidade?

Tempo. Ninguém tem tempo. Estamos todos sempre na correria. Empresas nos obrigam a trabalhar 24 horas por dia no WhatsApp, a fazer reuniões fora de horário. Quando digo a meus amigos que a licença-paternidade tinha dee durar meses, eles falam “Mas meu chefe vai achar que sou um vagabundo, que não quero trabalhar”. As mulheres que engravidam passam exatamente por esse conflito. Sendo que é algo que vai deixar você mais feliz e portanto mais produtivo. E se a empresa entende isso, você será mais feliz naquela empresa, que respeita a busca por realização pessoal.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017