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De volta ao passado: André Gonzales convida o público a refletir sobre as relações duradouras

Prestes a retomar o projeto Sr. Gonzales - Serenata Orquestra, cantor fala da importância do olhar sobre a cidade

Jéssica Germano - Redação Publicação:28/08/2017 14:28Atualização:28/08/2017 15:03

Ele fala usando gírias comuns aos ouvidos de quem nasceu no Quadradinho e pode ser facilmente encontrado segurando uma xícara de café no Ernesto ou tomando um drinque descolado no Loca Como Tu Madre. Mas o animado ex-vocalista da banda que voltou a colocar Brasília no eixo dos grandes festivais – a pausa no Móveis Coloniais de Acaju, junto com sua trupe, começou há cerca de um ano –, André Gonzales pensa à moda antiga.

André Gonzales em Sr. Gonzales - Serenata Orquestra, espetáculo musical voltado para a terceira idade e aberto a todas as gerações: 'Todo mundo envelhece: a cidade envelhece, eu envelheci, o Móveis envelheceu' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
André Gonzales em Sr. Gonzales - Serenata Orquestra, espetáculo musical voltado para a terceira idade e aberto a todas as gerações: "Todo mundo envelhece: a cidade envelhece, eu envelheci, o Móveis envelheceu"
 

Por um lapso não tão ocasional assim do destino o músico e designer por formação começou a fazer hidroginástica com os pais, tem a avó como referência ativa de vida e já na adolescência frequentava o Clube Previdenciários para assistir a partidas de sinuca. O que ele tanto vê no antigo? “Hoje, as pessoas estão muito rígidas e fechadas nos que elas são e no que consomem”, observa, pouco antes de sentar em uma das barbearias mais antigas da capital para se transformar em um personagem que poderia ter recém-saído da era do rádio. “Resgatar a história, a dança a dois, o contato e valorizar as histórias e os ensinamentos, tudo isso é, na verdade, tentar tirar essa liquidez da realidade e levar para outro lugar”, almeja modestamente com uma fala mansa, que pouco se assemelha aos comandos extrovertidos dos palcos. É com esse intuito que André retomou, no mesmo clube que frequentou na juventude, o Sr. Gonzales – Serenata Orquestra, no primeiro domingo de agosto. Um projeto que tem como ponto de partida a terceira idade, mas que se expande às diferentes gerações.

 

A nova temporada é resultado da primeira e bem-sucedida edição do baile, em 2015. Uma trajetória, claramente, com a música como pano de fundo. “O foco é falar do envelhecer, mas de forma positiva. Não como uma perda. Todo mundo envelhece: a cidade envelhece, eu envelheci, o Móveis envelheceu”, analisa, como quem conta uma história bonita. E ela é. Indo do pioneiro Carlos Galhardo até Cazuza e Só Pra Contrariar, André quer questionar e rever questões que há não muito tempo faziam bastante sentido no conviver. Um flerte, segundo ele, com o que é ao mesmo tempo engraçado e melancólico, vide as letras de paixões intensas.

O cantor em uma barbearia tradicional de Brasília, preparando-se para o novo show: pronto para se transformar em vários personagens da música brasileira (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O cantor em uma barbearia tradicional de Brasília, preparando-se para o novo show: pronto para se transformar em vários personagens da música brasileira
 

Em Porque Brigamos”, de Diana, por exemplo, o cantor fez questão de mudar a letra: “Eu adoro essa música, mas a própria relação abusiva está inteira ali”, frisa bem sobre um dos pontos que o passado levanta. Do outro lado está a ingenuidade da época, que faz o romantismo brilhar aos olhos. “A ideia é discutir alguns assuntos e entender também que não é preciso ser tão duro com o passado. Existia um contexto ali”, propõe, diplomaticamente.

 

Acostumado a animar plateias e fazer Brasília literalmente tirar o pé do chão, em edições que têm o axé da década de 1990 como plano de fundo, o brasiliense de 35 anos tomou para si o entusiasmo que carrega, nítido aos olhos do público. “Demorei para reconhecer, mas existe uma alegria meio óbvia no meu trabalho”, diz. “E acho que essa alegria se mantém nesse outro formato, com outras pessoas e com uma cara nova. Talvez antiga, mas nova”, completa, sem evitar o trocadilho.

 

Assim, não dificilmente o público que for assistir a uma das apresentações mensais no Previ vai se deparar com um misto da seresta já tradicional às sextas-feiras no clube e um pouco do que se via nas antigas bandas de churrascaria. Com direito a um toque de comicidade e muito teclado. A formação musical atual, que reúne ainda Esdras Nogueira, Fernando Jatobá e Gustavo Dreher – todos com passagem pelo Móveis –, faz-se sem bateria, por exemplo. “Mas nós estamos produzindo as bases”, pondera o próprio senhor Gonzales, antes de adiantar que há também um toque de eletrônico. “Até o moderno é antigo”, afirma.

 

A atmosfera de nostalgia, entretanto, não diminuiu a dificuldade de realizar a ideia. Para André, a iniciativa que conta com uma inserção de radionovela baseada em histórias de amor reais, entre uma parte e outra da apresentação, foi seu maior desafio. “Tanto no axé, quanto no Móveis, bastava a gente sair pulando e se criava alguma relação de interação com o público”, conta. Aprender a dançar em par foi uma das demandas. “E eu não sou aquele cara que dança muito”, confessa, sem esconder o riso. A partir da “dança moderna contemporânea solista” a que estava acostumado, e ele mesmo definiu, precisou reinventar-se. Bem como anuncia uma das frases do projeto: “O inusitado se refaz na tradição”.

André Gonzales de bem com a vida, durante uma edição do Móveis Axé: 'Até o moderno é antigo' (Arquivo Pessoal )
André Gonzales de bem com a vida, durante uma edição do Móveis Axé: "Até o moderno é antigo"
 

Em tempos difíceis também para a classe artística, o músico brasiliense consegue enxergar uma luz positiva entre as baixas na cultura pelas quais a cidade vem passando. “Está um pouco mais difícil viver de música e virar o jogo. Mas, ao mesmo tempo, sinto que existe uma noção de identidade e uma relação que é cada vez mais forte”, diz. Os movimentos de ocupação e fomento de iniciativas de Brasília fazem André se animar e insistir pelo caminho das retomadas. “De certa forma, estar fazendo esse trabalho no Previ é também uma relação de valorização dos espaços daqui”, completa.

 

Questionado se isso reflete uma onda onde o antigo está no centro da roda outra vez, ele titubeia um pouco e dispara: “O antigo sempre esteve na moda”. O embasamento da afirmação se confirma com a facilidade de acesso aos formatos antigos, segundo ele. Um exemplo? O vinil. “Ele é um resgate físico da relação com a música. É muito diferente ouvir uma coisa no vinil e no Spotify”, defende. Falando em qualidade, deve ser nessa configuração que o álbum do projeto Sr. Gonzales chegará ao público, após ter singles individuais lançados a cada edição na internet.

 

Com agenda definida para o projeto até o início de 2018, o vocalista não dá sinais tão cedo de um play no pause que o Móveis Coloniais de Acaju iniciou em 2016, após 18 anos de estrada. O momento agora, para ele, é aproveitar as portas que a banda abriu, no sentido mais artístico da proposta. Foi com a trupe que ele enveredou pelo caminho de produção de clipes e ilustrações, por exemplo. Por isso, nos próximos meses ele inaugura o próprio ateliê: “Um espaço de experiências”, segundo o cantor, para ceder espaço a construções de linguagem, arte e design. Sem deixar de lado, claro, o que já percebeu da galera na casa dos 60, 70 e 80 anos. “Eles têm um gás, uma vitalidade e uma energia que é deles. Isso é vida, é estar vivo”, conclui, animado com o que está por vir.

A banda Móveis Coloniais 
de Acaju, que resolveu fazer uma pausa em 2016: o grupo  ficou junto por 18 anos (Daniel Bresani/Estúdio California/Divulgação )
A banda Móveis Coloniais de Acaju, que resolveu fazer uma pausa em 2016: o grupo
ficou junto por 18 anos
 

SAIBA MAIS

Espetáculo: Sr. Gonzales - Serenata Orquestra


·  Quando: Todo primeiro domingo de cada mês, a partir de 3 de setembro

·   Onde: no Clube dos Previdenciários - 712/912 Sul

· Ingressos: R$ 30 (inteira). Meia-entrada para maiores de 60 anos, professores, estudantes e pessoas  portadoras de deficiência 

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017