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O destino do lixão: Brasília avança no descarte mais consciente do lixo

Com a desativação do depósito da Estrutural, prevista para outubro, novo aterro sanitário em Samambaia já recebe cerca de 30% do material recolhido

Julyerme Darverson - Publicação:30/08/2017 10:58Atualização:30/08/2017 11:34

Os lixões representam uma ameaça para a saúde das pessoas e geram grandes impactos ambientais. Infelizmente, Brasília possui o maior lixão a céu aberto da América Latina. O aterro controlado do Jóquei, conhecido popularmente como lixão da Estrutural, serve de depósito desde os anos 1960. Localizado a cerca de 20 quilômetros do centro da capital federal, o lugar está com os dias contados. A previsão é de que ele seja fechado em outubro deste ano. O lixo gerado no Distrito Federal será destinado a um novo lugar, o aterro sanitário em Samambaia, que teve a primeira etapa inaugurada em 17 de janeiro de 2017. Os 30% do lixo recolhido no DF já estão sendo encaminhado para a nova localidade. “O projeto vai contemplar quatro etapas, divididas em fases, de acordo com o tamanho do aterro. À medida que o lixo vai chegando, nós vamos ampliando as próximas etapas”, explica Kátia Campos, diretora-presidente do Serviço de Limpeza Urbano do Distrito Federal (SLU).

Lixão da Estrutural, o maior da América Latina: um problema de Brasília está com os dias contados (Ed. Alves/CB/DA Press )
Lixão da Estrutural, o maior da América Latina: um problema de Brasília está com os dias contados
 

Para Gustavo Souto Maior Salgado, professor do Núcleo de Estudos Ambientais da Universidade de Brasília (UnB), esse não é o modelo de aterro sanitário mais moderno do mundo, mas é o mais adequado para a realidade atual do DF. “É um ganho ter uma alternativa ambientalmente mais saudável, um marco para a cidade. O aterro sanitário de Samambaia tem de entrar o mais rápido possível em operação total, porque aí é possível desativar o lixão de uma forma definitiva”, afirma. O professor ressalta que a desativação do lixão da Estrutural não vai resolver os impactos ambientais deixados na região. “Mesmo com a desativação, alguns problemas continuarão existindo por lá, por causa do período em que ficou em funcionamento”.

 

Por estar próximo ao Parque Nacional de Brasília, uma das principais unidades de conservação do Brasil, o lixão é uma ameaça à fauna e à flora do parque, segundo Salgado. “Essa é a área ambiental mais importante do DF e o lixão não deveria estar tão próximo dela. O parque protege 43 mil hectares de cerrado, com muitas espécies de animais, plantas e bacias hídricas importantes. É uma das áreas mais procuradas para lazer, além de abrigar a barragem de Santa Maria, essencial nesse momento de crise hídrica no DF”, destaca.

Para o professor Gustavo Salgado, a mudança é um ganho ambiental mais saudável par o DF: 'O aterro sanitário de Samambaia tem de entrar o mais rápido possível em operação total, porque aí é possível desativar o lixão de uma forma definitiva' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o professor Gustavo Salgado, a mudança é um ganho ambiental mais saudável par o DF: "O aterro sanitário de Samambaia tem de entrar o mais rápido possível em operação total, porque aí é possível desativar o lixão de uma forma definitiva"
 

Segundo o professor, será necessário um bom tempo para reverter os prejuízos ambientais na área. “O espaço não poderá ser utilizado para atividades com a presença humana por pelo menos uma década. Um dos principais motivos é a contaminação da área por gases enterrados no local, como o gás metano, por exemplo”, enfatiza.

 

Kátia Campos afirma que a geração de lixo doméstico tem diminuído nos últimos anos no DF. Segundo a diretora presidente do SLU, houve uma redução de 6% em 2016, em relação ao ano anterior. “O principal fator na redução dos resíduos produzidos pela população é devido à crise econômica que aconteceu no país. A pobreza também foi um fator importante, porque muitas pessoas começaram a usar a reciclagem como fonte de renda”, diz.

 

Salgado sugere que novas medidas, como conscientizar a população sobre a importância de separar os resíduos e a ampliação da coleta seletiva para mais regiões do DF, são fundamentais para otimizar o descarte desse material de forma mais saudável. “O lixo é um problema, mas podemos gerar benefícios econômicos com ele. A população precisa enxergar os benefícios e a importância dessa prática”, afirma o especialista.

Kátia Campos, diretora-presidente do SLU, diz que tudo está sendo feito de acordo com as etapas previstas: 'Nós homologamos a construção de alguns galpões e, enquanto eles não ficam prontos, já estamos negociando o aluguel de espaços' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Kátia Campos, diretora-presidente do SLU, diz que tudo está sendo feito de acordo com as etapas previstas: "Nós homologamos a construção de alguns galpões e, enquanto eles não ficam prontos, já estamos negociando o aluguel de espaços"
 

Atualmente, 18 regiões administrativas são atendidas pelo serviço de coleta seletiva. Está previsto, para outubro deste ano, o lançamento de um edital que projeta a ampliação do serviço para 100% das áreas do DF. Parte dessa ação será feita em conjunto com o projeto do aterro sanitário de Samambaia, que contempla a criação de nove galpões de triagem. “Nós homologamos a construção de alguns galpões e, enquanto eles não ficam prontos, já estamos negociando o aluguel de espaços. Eles serão operados pelas cooperativas de catadores que estão sendo cadastradas”, diz Kátia Campos.

 

Ela explica que o SLU está fazendo um esforço para que os catadores se organizem em cooperativas, se preparem para serem prestadores de serviços e sejam contratados. “O principal problema para cadastrar essas cooperativas é que elas não estão com a documentação adequada e nem com os equipamentos apropriados para trabalho”, comenta. Além disso, o órgão, em parceria com outras secretarias, está ofertando cursos de capacitação para os trabalhadores.

 

Ronei Alves, representante do Movimento Nacional dos Catadores, alega que algumas medidas não estão sendo cumpridas pelo governo, o que poderá prejudicar muitos trabalhadores. “Os galpões já deveriam estar prontos. Eles vão construir um galpão no Setor P. Sul, em Ceilândia, que vai atender apenas os catadores de lá. Quem está aqui, na Estrutural, não será beneficiado”, afirma. Alves diz que a falta de um galpão na região deixará os catadores desempregados. O SLU explica que está sendo feito o possível para que os galpões sejam entregues logo. “A burocracia, como adequação de projetos, licenças e negociações, contribuiu para o atraso do projeto. Depois que o governo tomou partido e colocou [o fechamento do lixão] como prioridade, as coisas começaram a andar”, afirma Kátia Campos.

Ronei Alves, do Movimento Nacional dos Catadores, em seu local de trabalho: ele se preocupa com o futuro de seus colegas da Estrutural (Ronaldo Dolabella/Esp. Encontro/DA Press)
Ronei Alves, do Movimento Nacional dos Catadores, em seu local de trabalho: ele se preocupa com o futuro de seus colegas da Estrutural
 

NA ESTRUTURAL

 

Alguns números do maior lixão a céu aberto da América Latina

 

Em funcionamento desde 1960

 

Tamanho: cerca de 200 hectares

 

Recebe em média 3 mil toneladas de lixo doméstico por dia

 

Recebeu mais de 830 toneladas de lixo em 2016, segundo relatório anual do SLU

 

20 km de distância do Plano Piloto

 

6 cooperativas atuam no local

 

1.800 catadores trabalham no local

 

Fonte: SLU e Movimento Nacional de Catadores

Nove galpões de triagem vão receber o lixo coletado em Brasília: ideia é reciclar cada vez mais os resíduos e ampliar a coleta seletiva (Antonio Cunha/CB)
Nove galpões de triagem vão receber o lixo coletado em Brasília: ideia é reciclar cada vez mais os resíduos e ampliar a coleta seletiva
 

TODO MUNDO PODE AJUDAR

 

Cinco medidas para otimizar o descarte de resíduos

 

1 - Ampliar a coleta seletiva

 

2 - Conscientizar a população sobre a importância

 

3 - Mostrar os benefícios em separar os diferentes tipos de resíduos

 

4 - Explicar como deve ser feito o descarte do lixo

 

5 - Incentivar a reciclagem

 

Fonte: Professor Gustavo Salgado 

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017