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ESPECIAL EDUCAÇÃO | CAPA »

Alunos nota 10 em matemática dão dicas para encarar números e fórmulas

Enquanto a disciplina é sinônimo de dor de cabeça para muitos estudantes brasileiros, para outros ela é fácil

Maíra Nunes - Publicação:31/10/2017 18:39Atualização:01/11/2017 12:14

Aluno nota 10 em matemática, Pedro Henrique Cabral Ribeiro, de 16 anos, busca desafios além das provas escolares tradicionais. Recentemente, ele participou de uma competição chamada Canguru da Matemática, composta por uma avaliação de 30 questões, divididas em três níveis de 10: fácil, médio e difícil. Cada questão foi contabilizada com uma pontuação dependendo da dificuldade. “Gosto bastante de me desafiar com questões de matemática e lógica, então participar dessa competição foi um bom exercício para a minha mente”, diz Pedro. Desde pequeno, ele se interessa por jogos com números como sudoku e kakuro, além de desafios de lógica e geometria. Para ele, a matemática ser retratada como um bicho de sete cabeças faz com que estudantes cheguem à escola desinteressados por aprender números. O aluno do 2º ano do ensino médio do La Salle de Águas Claras ressalta a importância de tornar a matemática divertida e entender como ela funciona. No caso das fórmulas, ele defende que é preciso compreender de onde elas vêm e para que servem.

Campeão nacional de xadrez escolar, Arthur Schneider Terra estuda no Marista e se inspira no jogo para falar de sua facilidade com matemática: 'O jogo para falar de sua facilidade com a matemática: 'O jogo desenvolve muito o cálculo e o raciocínio lógico'  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Campeão nacional de xadrez escolar, Arthur Schneider Terra estuda no Marista e se inspira no jogo para falar de sua facilidade com matemática: "O jogo para falar de sua facilidade com a matemática: "O jogo desenvolve muito o cálculo e o raciocínio lógico"
 

A facilidade e o gosto pelas contas também levaram Arthur Schneider Terra a se interessar pelo xadrez quando tinha apenas 5 anos, ensinado pelo pai. Agora aos 12, o garoto foi campeão do Campeonato Brasileiro de Xadrez Escolar na categoria 6º ano, em Blumenau (SC), na disputa que contou com 600 alunos de diversas escolas do Brasil. Estudante do Colégio Marista de Brasília, Arthur resolve contas com muita agilidade: “Acho que o xadrez ajuda. Em uma partida pode existir uma variedade enorme de jogadas. No primeiro lance são 16 possibilidades para as peças pretas e outras 16 para as brancas. O jogo desenvolve muito o cálculo e o raciocínio lógico”, diz. Arthur joga xadrez todos os dias e tem no irmão Enzo, de 9 anos, um parceiro para os treinamentos. Os dois se enfrentam e trocam aprendizados a todo instante.

 

Para Felipe Hirdes, 16 anos, o segredo para desmistificar o terror que ronda a matemática está em não enxergá-la como uma obrigação ou algo chato antes mesmo de entender o conteúdo. Aluno do 1º ano do ensino médio do La Salle, Felipe sempre gostou de testar os conhecimentos na prática, resolvendo exercícios. Ele conta que foi no 8º ano do ensino fundamental que tomou mais gosto pela disciplina. “Foi quando comecei a ter mais reconhecimento pela habilidade na área e isso me motivou bastante”, afirma.

Os estudantes do La Salle, Felipe Hirdes e Pedro Cabral, são dois exemplos de alunos nota A na matéria: Pedro busca desafios além das provas escolares tradicionais e Felipe sempre gostou de testas os conhecimentos na prática (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
Os estudantes do La Salle, Felipe Hirdes e Pedro Cabral, são dois exemplos de alunos nota A na matéria: Pedro busca desafios além das provas escolares tradicionais e Felipe sempre gostou de testas os conhecimentos na prática
 

Gabriel Silva Carvalho, professor de matemática do Colégio Marista de Brasília, avalia que o temor com a matemática surge ainda nas séries iniciais, quando é ensinado por pedagogos que muitas vezes não têm facilidade sobre o tema nem tanta curiosidade para despertá-la nos alunos. “Às vezes, vejo alunos do 6º ano do ensino fundamental com medo de matemática, enquanto não deveriam ter medo de disciplina alguma, porque nessa idade eles estão aprendendo a aprender”, diz. Gabriel explica que a matemática é uma “ciência cotidiana”, portanto trazer aplicações do dia a dia do aluno é a melhor forma de torná-la atrativa. Há uma variedade de materiais digitais, jogos e aplicativos para celulares e computadores que podem auxiliar no aprendizado. Os estímulos não se restringem ao campo digital. O jogo de xadrez, por exemplo, traz desafios, situações de pressão, concentração e raciocínio, além da necessidade de deslumbrar várias jogadas na frente. “Na matemática, isso tudo se aplica muito”, afirma o professor. “Os jogos de modo geral têm uma capacidade de estímulo grande para o aluno. Tanto que há áreas da pedagogia voltada para estudar como aplicar jogos eletrônicos para o aprendizado.”

 

Danielle Corrêa Wan-Mey, supervisora pedagógiga do Colégio Dom Bosco, concorda que a disciplina deve ser concebida desde a educação infantil. Desde o princípio do processo de reconhecimento de mundo já se trabalha os princípios e habilidades da matemática, quando coloca a criança para ir a uma feirinha, fala de trocas, cria uma moeda dentro da escola em que a criança possa usá-la em uma atividade. “São situações em que se coloca a criança em contato com a realidade de utilização dos diversos conhecimentos, inclusive o da matemática”, diz. Ainda assim, a pedagoga reconhece que o momento em que as crianças se deparam com equações e raiz quadrada na escola costuma gerar traumas. Para Danielle, o caminho para desmistificá-la é ensinar o real sentido dessa equação. “A disciplina não pode ser ensinada por meio de macetes. É preciso entender realmente o que é soma, subtração, divisão... Esse domínio da base que vai ampliar a capacidade de interpretação da matemática”, aconselha. Além disso, Danielle alerta para a importância do português e da interpretação na resolução de problemas. “A matemática é uma área que tem de ser compreendida pela interdisciplinaridade e que é real, que está no dia a dia”, diz a pedagoga.

Coordenadora do Dom Bosco, Danielle Wan-Mey diz que é preciso evitar que as crianças tenham trama ao deparar-se com equações e raiz quadrada na escola: 'A disciplina não pode ser ensinada por meio de macetes' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press )
Coordenadora do Dom Bosco, Danielle Wan-Mey diz que é preciso evitar que as crianças tenham trama ao deparar-se com equações e raiz quadrada na escola: "A disciplina não pode ser ensinada por meio de macetes"
 

Aos 14 anos, Fernanda Carvalho Diniz se destaca em matemática entre os alunos do 9º ano do ensino fundamental do Colégio Salesiano/Dom Bosco. “Ela está em plena adolescência e não é diferente das outras pessoas da idade dela”, explica a mãe, Maria José Carvalho Diniz, que tem uma mãozinha nessa facilidade da filha de lidar com números. Quando Fernanda tinha entre 5 e 6 anos, a mãe buscou na internet jogos e brincadeiras que estimulassem o aprendizado da disciplina tão temida entre estudantes. “Ela se divertia com a matemática e, assim, se aproximou dela”, conta Maria José.

Fernanda Carvalho Diniz cursa o 9º ano do ensino fundamental do Salesiano/Dom Bosco: facilidade de ela lidar com números foi estimulada pela mãe desde a infância, com jogos e brincadeiras (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Fernanda Carvalho Diniz cursa o 9º ano do ensino fundamental do Salesiano/Dom Bosco: facilidade de ela lidar com números foi estimulada pela mãe desde a infância, com jogos e brincadeiras
 

Aliás, o lado lúdico da aprendizagem é fundamental para a criança ter um contato menos traumático com qualquer disciplina. Por volta dos 12 anos, quando estava no 6º ano Alice da Costa Borges se deparou com as dificuldades que levam tantas pessoas a temer a matemática. Aos 17 anos, a estudante do 3º ano do Centro de Ensino Médio Paulo Freire ela pretende cursar engenharia mecatrônica. Sobre aquele medo das contas, ela só tem a recordação. A matemática atualmente é a preferida dela. E as notas boas na disciplina a levaram a integrar o projeto “Computação também é coisa de meninas”, da escola. A matemática abriu portas para Alice, que tem contato com programação, robótica e novas tecnologias no projeto, uma parceria entre o colégio e a Universidade de Brasília (UnB). Por meio do projeto, os alunos constroem robôs e protótipos de “casas inteligentes”, que reagem a sensores para executar comandos como ligar luzes, fechar persianas para regular a luminosidade, detectar vazamentos de gás e caixa d’água que avisam a quantidade de água com objetivo de evitar desperdício.

Alice Costa Borges tira de letra todas as áreas da matemática: ela tem contato direto com programação, robótica e novas tecnologias no projeto 'Computação também é coisa de meninas', do Centro de Ensino Médio Paulo Freire. Colega de Alice Borges, Alice da Silva de Lima, de 17 anos, também cursa o 3º ano do Paulo Freire: 'não imaginava que iria gostar tanto de matemática', diz ela (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Alice Costa Borges tira de letra todas as áreas da matemática: ela tem contato direto com programação, robótica e novas tecnologias no projeto "Computação também é coisa de meninas", do Centro de Ensino Médio Paulo Freire. Colega de Alice Borges, Alice da Silva de Lima, de 17 anos, também cursa o 3º ano do Paulo Freire: "não imaginava que iria gostar tanto de matemática", diz ela
 

E como Alice conseguiu desmistificar a disciplina que é o terror da maioria dos alunos? Lá atrás, nas primeiras dificuldades, uma amiga a ajudou. Um dia, a colega explicou um conteúdo que Alice não havia entendido. “Tenho uma amiga, hoje, que também sempre me ajuda quando sinto dificuldade. Às vezes é mais fácil aprender com ela, porque ela usa uma linguagem mais próxima de mim do que o professor”, explica Alice. Colega e xará dela na escola, Alice da Silva de Lima, de 17 anos, conta que o convite para participar do projeto também surgiu pelas boas notas. “Não imaginava que iria gostar tanto de matemática. O que conseguimos entender se torna mais interessante”, justifica a estudante do 3º ano do ensino médio que pretende cursar ciências da computação.

 

As Alice são alunas do professor de matemática Carlos Alberto Jesus de Oliveira, que tem experiência de 30 anos em sala de aula e também é responsável por colocar em prática o projeto “Computação também é coisa de meninas”, no colégio Paulo Freire. “O projeto aumenta o raciocínio lógico das participantes, porque elas têm de montar programas de computação, o que se aplica a várias áreas”, diz. “As meninas já são boas na área de exatas e conseguem se desenvolver ainda mais.” Sobre o temor em relação à matemática, Carlos Alberto conta que quando começou a dar aulas no ensino médio do Paulo Freire, em 2009, três estudantes foram aprovados no vestibular para a UnB. “Dois anos depois, tivemos mais de 50 aprovados”, conta. O colégio tem projetos extraclasse, reforço de matemática e um laboratório de informática muito utilizado pelos estudantes.

Para o professor do Centro Paulo Freire, Carlos Alberto Oliveira, responsável pelo projeto 'Computação também é coisa de meninas': atividades extraclasse, reforço de matemática e um laboratório de informática ajudam a tornar a disciplina menos pesada (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o professor do Centro Paulo Freire, Carlos Alberto Oliveira, responsável pelo projeto "Computação também é coisa de meninas": atividades extraclasse, reforço de matemática e um laboratório de informática ajudam a tornar a disciplina menos pesada
 

QUATRO PERGUNTAS PARA GABRIEL SILVA CARVALHO

 

Professor de matemática do Colégio Marista conta o que faz a disciplina ser tão temida

 

1) Por que a matemática é vista como um bicho de sete cabeças?

Um problema que surge na matemática é o ensino dela nas séries iniciais, com pedagogos que muitas vezes não têm facilidade com o tema nem tanta curiosidade. Se a base do aprendizado não for bem feita, nos anos finais surge esse medo em relação à disciplina.

 

2) Quais são os momentos em que o estudante costuma traumatizar-se com a matemática?

Em geral os estudantes têm dois momentos traumáticos na matemática. O primeiro é quando aprendem fração, porque começa de forma lúdica, com a explicação por meio da pizza e de repente o aluno se depara com uma soma de um terço com um quarto e se desespera. O outro momento é relacionado ao aprendizado de variáveis, quando o “x” aparece em expressões.

 

3) Como fazer um aluno superar o trauma da matemática?

O primeiro passo é quase um trabalho psicológico de convencer o aluno de que ele pode aprender, de que é capaz. Depois, ele tem de conseguir reconstruir a base na disciplina, retomando todos os conteúdos que não aprendeu. Às vezes, é possível fazer em paralelo e em outro momento, com reforço em um horário do contraturno da escola, por exemplo. Quando o aluno retoma os conteúdos do passado que não foram bem assimilados, ele consegue seguir bem e se sente até estimulado. 

 

4) Como é possível estimular o aprendizado dessa matéria?

A matemática é uma ciência cotidiana. Para estimular os alunos é sempre legal trazer essas aplicações do dia a dia e não ficar preso apenas ao conteúdo do livro. Há uma variedade de materiais digitais, jogos e aplicativos para celulares e computadores que podem auxiliar no aprendizado.

Gabriel Silva Carvalho, professor de matemática do Colégio Marista de Brasília, avalia que o temor com a matemática surge ainda nas séries inicias: 'Às vezes, vejo alunos com medo de matemática, enquanto não deveriam ter medo de disciplina alguma, porque nessa idade eles estão aprendendo a aprender', diz  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Gabriel Silva Carvalho, professor de matemática do Colégio Marista de Brasília, avalia que o temor com a matemática surge ainda nas séries inicias: "Às vezes, vejo alunos com medo de matemática, enquanto não deveriam ter medo de disciplina alguma, porque nessa idade eles estão aprendendo a aprender", diz
 

5 DICAS PARA SE DAR BEM EM MATEMÁTICA

 

O professor de matemática Fábio Xavier, do Me Salva!, plataforma de ensino que alcançou 20 milhões de estudantes em 206, dá conselhos para tirar boas notas na matéria

 

1 – Investir nos exercícios

Não importa o quanto se lê sobre um assunto ou quantos resumos se faz, é preciso resolver exercícios para aprender matéria de verdade. Mesmo tendo entendido o conceito, as dificuldades aparecem ao resolver os problemas na prática. E o mais importante é insistir e tentar resolvê-los de maneiras diferentes, pois é fundamental entender as estratégias usadas nos acertos e erros.

 

2 – Entender as fórmulas, não decorá-las. Como saber tantas fórmulas?

As temidas fórmulas aparecem como monstros nas provas do Enem e vestibulares. Como decorar tantas? O grande segredo é entender o porquê das fórmulas, como elas funcionam e de onde elas vêm. Quanto mais entenderem de onde as fórmulas vêm, menos os estudantes vão decorá-las.

 

3 – Conhecer a prova

Conhecer a prova é crucial. Assuntos e questões que já caíram em anos anteriores muitas vezes são repaginados e usados novamente. Eles podem parecer diferentes, mas o raciocínio por trás da resolução é o mesmo. Nos meses finais de estudo, o mais produtivo é pegar edições anteriores da prova. Nas questões que errar ou não conseguir resolver, o indicado é procurar entender o raciocínio que leva à resposta correta.

 

4 – Usar todo o tempo da prova

Durante a prova, resolva primeiro as questões que souber, pulando as que não conseguir de primeira. Só depois, volte para as questões com um grau de dificuldade maior. Em provas de múltipla escolha, é recomendado testar se as alternativas fazem sentido e ir eliminando as que certamente estão erradas. Mesmo que não consiga chegar a uma resposta definitiva, cada alternativa eliminada aumenta a chance de acertos da questão.

 

5 – Treinar aproximações

É comum aparecer multiplicações e divisões de números grandes. Nesses casos, é útil fazer aproximações para chegar ao resultado mais rapidamente. Saber quando vale a pena usar uma aproximação em vez de calcular o valor exato requer prática, mas é uma ferramenta valiosa. 

 

PESQUISA REFLETE PREOCUPAÇÃO

 

Levantamento feito pela plataforma Matific, startup israelense que desenvolveu um sistema educacional de matemática com jogos educacionais, aponta que a dificuldade no aprendizado da matemática afeta mais da metade dos alunos da rede pública de ensino no Brasil, desde a educação infantil até o 6º ano. Dos estudantes matriculados no ensino fundamental, 58,6% estão abaixo da média na disciplina.

 

A pesquisa considerou o volume de erros e acertos apresentados por estudantes de 4 a 11 anos nos exercícios digitais aplicados em salas de aula, de janeiro a julho de 2017. A plataforma tem 1,6 mil jogos educacionais de matemática, em que 50 mil jogos em média são executados por dia em 250 escolas públicas e privadas brasileiras. Por outro lado, o levantamento mostrou que 8,7% dos estudantes nos colégios públicos obtiveram nota máxima em matemática. “Os alunos chegam ao ensino médio com uma base muito fraca”, afirma Carlos Alberto. O professor incentiva o uso de jogos e plataformas digitais que oferecem conteúdos lúdicos no ensino da matemática. Outro fator de influência é o acompanhamento dos pais. O desempenho dos estudantes em escolas particulares também é preocupante: 41,1% dos alunos apresentaram desempenho abaixo da média em matemática. O contraste é apresentado por quase 14% dos alunos da rede particular, que tiveram desempenho máximo, com quase 100% de acerto nos exercícios propostos. 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017