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ESPECIAL EDUCAÇÃO | TECNOLOGIA »

Escolas de Brasília apostam em aulas de robótica e no uso de aplicativos

Em suas salas, instituições dispensam até mesmo os livros de papel

Paloma Oliveto - Publicação:01/12/2017 15:53Atualização:01/12/2017 16:33

Eles nasceram em um mundo altamente conectado, onde se criam, diariamente, inimagináveis 2,5 quintilhões de bytes de dados. Um planeta digital, habitado por 3,7 bilhões de usuários de internet, população que cresce a cada minuto e deve chegar a 5 bilhões em 2020. Para crianças e adolescentes do século XXI a tecnologia é tão vital e natural quanto o ar. Está no computador, nos gadgets, no cinema 3D e até nas roupas e nos calçados feitos de tecidos inteligentes. Se é assim no universo que os rodeia, por que deveria ser diferente nas escolas?

 

De fato, a tecnologia sempre foi uma aliada da educação. Ainda no século XVII, objetos revolucionários foram inventados graças às escolas: lápis, régua de cálculo (a precursora do computador) e lanterna mágica, que projetava imagens na parede, sendo uma espécie de Power Point primitivo, são alguns deles. Já o quadro negro como se conhece hoje surgiu nos anos de 1800. Com a introdução dos computadores pessoais no dia a dia dos cidadãos comuns, na década de 1980, a informática passou a entrar também nas salas de aula.

 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 

Hoje, é quase impossível encontrar uma escola que se mantenha alheia às inovações da era digital. Seja nas disciplinas de programação e robótica ou nos recursos pedagógicos, elas correm para acompanhar a realidade de meninos e meninas que praticamente saem da maternidade com um smartphone nas mãos. No tradicional Colégio Dom Bosco Brasília, presente no DF desde 1958 – dois anos antes da inauguração da capital –, os livros didáticos de papel já são coisa do passado. A partir do ensino fundamental II (6º ao 9º ano), os alunos têm a opção de trocar os pesados volumes por um aplicativo que agrega todo o conteúdo das obras físicas e inclui muitas outras atividades.

 

Padre Anselmo Nascimento, diretor dos Colégios Salesianos de Brasília (Dom Bosco e São Domingos Sávio), explica que o aluno ainda pode optar pelo livro de papel. Contudo, além de 30% mais barato, o aplicativo costuma chamar mais a atenção dos adolescentes. “É uma vantagem muito grande. O aplicativo é uma plataforma inteligente, que traz desafios extras. Por exemplo, ele pontua os exercícios, identifica os que o aluno teve mais dificuldade e vai propondo novos desafios em cima dessas dificuldades”, explica. No app, os estudantes têm acesso às notas, faz simulados e pode assistir a vídeos, entre outras atividades. Além disso, as salas de aula do colégio são equipadas com a lousa interativa, toda touchscreen.

Diretor dos Colégios Salesianos de Brasília, 
padre Anselmo Nascimento diz que a partir do 
ensino fundamental II os alunos têm a opção de trocar os livros por um aplicativo: 'É uma plataforma inteligente, que traz desafios extras' (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
Diretor dos Colégios Salesianos de Brasília, padre Anselmo Nascimento diz que a partir do ensino fundamental II os alunos têm a opção de trocar os livros por um aplicativo: "É uma plataforma inteligente, que traz desafios extras"
 

A transição do Dom Bosco Brasília da era analógica para a digital começou há cinco anos. No início, foi basicamente a digitalização do material físico: “Fomos fazendo um trabalhado progressivo, para tornar o aplicativo mais divertido e atraente para os alunos”, conta padre Anselmo. Enquanto para os jovens essa mudança foi recebida com entusiasmo, o diretor diz que pais e professores estranharam e alguns educadores chegaram a rejeitar a modernização. “Para gerações mais antigas, sair do papel e ir para o digital é mais difícil”, reconhece. Ele esclarece, porém, que o papel dos mestres não foi e jamais será substituído. Pelo contrário, quanto maior a quantidade de informação circulando, maior a necessidade de uma pessoa capacitada para orientar os alunos. “O professor faz a mediação, ele tem como desafio articular todo esse conhecimento. O aspecto humano da formação é essencial”, afirma.

 

Além dos recursos como aplicativos e lousas, as escolas estão investindo na educação tecnológica. Aulas de programação e robótica, além de incentivar o racioncínio lógico, preparam as crianças e os adolescentes para um futuro próximo, quando, de acordo com o Fórum Econômico Mundial, 65% das profissões de hoje não existirão mais. A estimativa é que, em 2020, 1,5 milhão de postos digitais sejam criados por todo o globo. Ao mesmo tempo, a pesquisa do FEM identificou que 75% dos professores e estudantes sentem falta de uma educação em tecnologia da informação, que os preparem para essa realidade.

 

No Colégio Seriös, há cinco anos em Brasília, essa formação já existe, e não é apenas técnica. “A educação tecnológica tem três objetivos: que os alunos consigam usar a tecnologia com responsabilidade, equilíbrio e qualidade; que consigam criar com a tecnologia, e que desenvolvam habilidades de resolução de problemas, usando desde fotografia digital a engenharia”, explica o engenheiro mecatrônico George Brindeiro, que ministra essa disciplina para os alunos do ensino fundamental II. Os estudantes do fundamental I e do ensino médio também têm aulas de educação tecnológica.

George Brindeiro, professor de informática do Seriös: educação tecnológica ajuda as pessoas a desenvolver habilidades de resolução de problemas, usando desde fotografia digital a engenharia  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
George Brindeiro, professor de informática do Seriös: educação tecnológica ajuda as pessoas a desenvolver habilidades de resolução de problemas, usando desde fotografia digital a engenharia
 

Nas aulas, as crianças e os jovens são desafiados com projetos que, preferencialmente, devem ser desenvolvidos em equipe. No dia em que Encontro Brasília visitou a escola, por exemplo, um grupo de estudantes apresentou um trabalho que envolveu a identificação de um problema da escola pelos alunos (no caso, o excesso de dever de casa) e discutiu possíveis soluções. Para isso, as alunas coletaram dados com um formulário de pesquisa on-line, tabularam resultados em gráficos e os divulgaram em slides projetados na lousa. Enquanto isso eram avaliadas, digitalmente, pelos colegas da turma.

 

As mesmas jovens já realizaram outros projetos, completamente diferentes deste, nas aulas de educação tecnológica. Giovana Corrêa Marangoni, de 15 anos, por exemplo, já fez uma luminária. “Eu nunca tinha tido nenhuma aula parecida, achei totalmente diferente. Acho que o que aprendemos aqui vamos levar para toda a vida”, diz a jovem, que estudava em outra escola no ano passado. A colega de turma Luiza Leal Trezzi, de 14 anos, fez um trabalho inovador: quando teve de aprender a lidar com a tecnologia de LED, projetou um vestido feito desse tipo de lâmpada. “Muitas pessoas têm aversão à programação. Mas ela aflora a criatividade, a comunicação, e, no futuro, vai fazer diferença”, aposta a estudante do 9º ano.

Isadora Mendes (esq), Helena Dourado, Luiza Trezzi, Giovana Marangoni, Clarice Carvalho e Maria Eduarda Fernandes grupo de trabalho para apresentar trabalho de informática no colégio Seriös (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press )
Isadora Mendes (esq), Helena Dourado, Luiza Trezzi, Giovana Marangoni, Clarice Carvalho e Maria Eduarda Fernandes grupo de trabalho para apresentar trabalho de informática no colégio Seriös
 

No Galois, a tecnologia faz parte da rotina dos alunos de todas as etapas do ensino, que têm aulas de robótica. O professor da disciplina, Rodrigo Carvalho, explica que, apesar do nome, as crianças e os adolescentes não aprendem apenas a construir robôs. “Trabalhamos com vários tipos de tecnologia, em projetos que abordam muito a interdisciplinaridade”, explica. De física a matemática, passando por biologia e até educação física, os desafios propostos buscam interagir as diferentes áreas do conhecimento, dando autonomia aos estudantes, que podem escolher aqueles com os quais mais se identificam.

Rodrigo Carvalho é responsável pelas aulas de robótica do Galois: 'Trabalhamos com vários tipos de tecnologia, em projetos que abordam a interdisciplinaridade' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Rodrigo Carvalho é responsável pelas aulas de robótica do Galois: "Trabalhamos com vários tipos de tecnologia, em projetos que abordam a interdisciplinaridade"
 

Pedro Rodrigues Langone, de 12 anos, Ana Clara Trevezani Hopefinger, de 11, e Beatriz Peixoto da Eira, de 13, por exemplo, aceitaram o desafio de construir uma estação meteorológica. Eles tiveram de pesquisar todos os aspectos do projeto, desde os circuitos eletrônicos necessários ao design da estação, e trabalhar em conjunto para conseguir alcançar o objetivo. “Cometemos alguns erros, mas é muito legal quando se vê o resultado”, conta Ana Clara, do 6º ano. Beatriz, do 7º, diz que achou o desafio muito interessante e esclarece que meninas são tão interessadas em tecnologia quanto meninos. “Elas fazem até melhor que eu”, entrega Pedro, do 7º ano. “O futuro tende a ser cada vez mais tecnológico. Precisamos ter essa noção na escola”, diz o adolescente.

Os estudantes Beatriz Eira, Ana Clara Leite e Pedro Langone: eles aceitaram o desafio de construir uma estação meteorológica e montaram um sensor de temperatura (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Os estudantes Beatriz Eira, Ana Clara Leite e Pedro Langone: eles aceitaram o desafio de construir uma estação meteorológica e montaram um sensor de temperatura
 

Henrique Luza, de 13 anos e também estudante do 7º ano, concorda com o colega: “No futuro, teremos robôs que substituem pessoas e pessoas que fazem robôs”, diz, explicando que quer ser uma delas. O projeto em que ele trabalha atualmente com os colegas de turma é colocar um carro com motor quebrado para funcionar, usando, para isso, a plataforma arduíno. “É uma sensação muito boa ver o resultado, mas montar também é muito legal. Acho que a robótica vai ser muito comum no futuro e é essencial a escola incentivar esse aprendizado”, afirma o adolescente.

Henrique Luza na aula de robótica do Galois: 'No futuro, teremos robôs que substituem pessoas e pessoas que fazem robôs' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Henrique Luza na aula de robótica do Galois: "No futuro, teremos robôs que substituem pessoas e pessoas que fazem robôs"

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017