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ESPECIAL EDUCAÇÃO | GRADUAÇÃO »

Ensino a distância tem crescido nos últimos anos, segundo pesquisa divulgada recentermente

Esse formato de ensino acumulou crescimento de 11,1% entre 2010 e 2015, e a previsão é que em 2023 corresponda a 51% do mercado

Teresa Mello - Publicação:01/12/2017 16:40Atualização:01/12/2017 17:06

Uma realidade e uma necessidade em um país com dimensões continentais como o Brasil, a Educação a Distância (EAD) domina 26% do mercado de ensino. Incentivada em 2017 pelo Ministério da Educação (MEC), por meio de um decreto e uma portaria, a modalidade deve superar as aulas presenciais já em 2023, segundo a consultoria Educa Insights. Daqui a seis anos, a modalidade deve corresponder a 51% do mercado. As vantagens são muitas – e as exigências, também. O estudo que oferece qualificação com flexibilidade de agenda, certificado, menor custo, no conforto e na segurança de casa e com uso da internet, exige, por outro lado, características especiais do estudante: organização, disciplina e rotina. O aluno é o protagonista do próprio curso, com auxílio de videoaulas, realidade virtual, realidade aumentada e simulações, entre outros recursos. As provas e o primeiro encontro de cada semestre ocorrem nos polos presenciais, que podem ser até mesmo em Tóquio e em Boston, dois dos 33 polos da Universidade Católica de Brasília.

 

O paraense Maxlânio Mendes de Brito cursa o 7º período de direito no UniCEUB e faz três disciplinas a distância: direito ambiental, direito internacional privado e ética II. “Busco antecipar o estudo para não deixar para última hora. É preciso acompanhar o cronograma geral das matérias e o prazo de entrega das atividades”, conta ele, que também é monitor de EAD na faculdade e cuja rotina de aprendizado vai de meia-noite às 2h. “Não me imagino parando de estudar e a EAD ajuda muito.”

Maxlânio Mendes de Brito cursa o 7º período de direito no UniCEUB e faz três disciplinas a distância: 'É preciso acompanhar o cronograma geral das matérias e o prazo de entrega das atividades' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Maxlânio Mendes de Brito cursa o 7º período de direito no UniCEUB e faz três disciplinas a distância: "É preciso acompanhar o cronograma geral das matérias e o prazo de entrega das atividades"
 

Em um curso presencial, as universidades devem seguir normas do MEC, que limita em 20% o total de disciplinas a distância. “A EAD é irreversível”, afirma a reitora e fundadora do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), Eda Machado. Graças ao Decreto 9.057, de 25/05/2017, e à Portaria nº 11, de 20/06/2017, o MEC permitiu mais autonomia no credenciamento de polos a cada ano, vinculado ao Conceito Institucional (CI). “Foi uma revolução”, avalia o gestor de cursos técnicos do Senac EAD, Sidinei Rossi. “A instituição com índice 3 pode abrir até 50 polos; com nota 4, até 150; e com 5, até 250. A EAD contribui para a qualidade da educação no Brasil.”

 

A modalidade também atende à demanda por especialização, como no caso de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS). A Universidade Aberta do SUS funciona por meio de cooperação técnica da Fiocruz com o Ministério da Saúde, cobre 95% dos municípios, é gratuita e, só em 2016, recebeu 50 mil matrículas. Desde 2011, promoveu 181 cursos, seguidos por 550 mil pessoas.

 

O curso de engenharia civil é o destaque do Iesb. A reitora Eda Machado diz que a faculdade foi a primeira instituição a acreditar que seria possível fazer essa graduação a distância. “Temos muito orgulho, pois é um curso de cinco anos para o qual já tivemos 650 alunos ao mesmo tempo”, conta. Com a crise, ela diz que esse número caiu para 250. A mensalidade custa R$ 681,30. “Usamos muita simulação, videoaulas, fazemos fóruns de discussão e temos laboratório aos sábados.” Com pós-doutorado em Berlim e doutorado em Educação na Universidade da Pensilvânia (EUA), a reitora é incansável na luta pela melhoria da EAD. “Já falei no MEC que existem instituições que não são competentes, cujo objetivo é só ganhar dinheiro”, diz. “Para ter sucesso, é preciso fazer um trabalho muito bom.”

A reitora e fundadora do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), Eda Machado: 'Usamos muita simulação, videoaulas, fazemos fóruns de discussão e temos laboratório aos sábados' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A reitora e fundadora do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), Eda Machado: "Usamos muita simulação, videoaulas, fazemos fóruns de discussão e temos laboratório aos sábados"
 

O Iesb oferece 17 cursos (cinco tecnológicos, quatro de graduação, um de licenciatura e sete de pós-graduação), com mensalidades a partir de R$ 258. Existem 10 polos de apoio, em locais como Sobradinho (DF), Anápolis (GO) e Goiânia (GO), além de três campi. “Queremos dar acesso à educação superior e pretendemos expandir a oferta de educação a distância”, afirma Eda. Os cursos mais procurados na graduação são o de gestão pública e o de segurança da informação. Na pós, os campeões são os de administração pública e o de gestão de projetos. São 1.541 alunos e 88 professores na graduação, além de 871 estudantes na pós.

 

A Universidade Católica de Brasília tem 2 mil alunos de EAD, divididos em 16 cursos de graduação e 11 de pós, em 33 polos, sendo dois no Japão (Tóquio e Nagoia), um nos Estados Unidos (Boston) e outro em Angola, na África. “Temos uma grande comunidade de brasileiros no Japão, que vão para lá determinados a voltar e a atuar no mercado”, diz a vice-diretora acadêmica de EAD, Regina Maris Pinheiro. Se o perfil de alunos no Brasil era de pessoas com 35 ou 40 anos, em busca de uma segunda graduação, hoje isso mudou: “É um público mais jovem, em torno de 25 anos”, descreve.

 

O ensino exige muito do estudante: disciplina, organização e rotina. “É a distância, mas não é distante”, adverte Regina. “Nossa plataforma é disponível 24 horas, temos monitor para orientar, fórum de dúvidas, webconferência, chats”, completa, lembrando que a EAD tem prazo, trabalho, exercício, prova. Os encontros presenciais são aos sábados e na primeira semana do semestre.

 

No Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCEUB), os números surpreendem. A graduação tem 1.816 matrículas, 27 turmas, 8 cursos e 305 alunos, sendo que os mais procurados são administração, ciências contábeis e gestão de tecnologia da informação. Os que fazem disciplinas virtuais no ensino regular enchem 199 turmas com 3.714 alunos e 33 professores. Na Faculdade de Direito, por exemplo, existem sete turmas de direito ambiental e outras sete de direito internacional privado. Há ainda 85 alunos de pós e dois polos, na Asa Norte e em Taguatinga.

A gerente pedagógica de EAD, Fábia Pimental Moreira: 'O mais difícil é a ruptura para aquele estudante acostumado a sentar em sala de aula e ouvir o professor, mas isso é um processo' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A gerente pedagógica de EAD, Fábia Pimental Moreira: "O mais difícil é a ruptura para aquele estudante acostumado a sentar em sala de aula e ouvir o professor, mas isso é um processo"
 

Para a gerente pedagógica de EAD, Fábia Pimental Moreira, o perfil do estudante divide-se entre aqueles que já têm uma graduação, os que estão no mercado e precisam de um diploma e os que veem como oportunidade, como aqueles que moram longe, por exemplo. “A EAD é consequência da necessidade de adaptação da educação à realidade”, define. “O mais difícil é a ruptura para aquele estudante acostumado a sentar em sala de aula e ouvir o professor, mas isso é um processo. Em breve, teremos o ensino híbrido, formado por presencial e a distância.”

 

Com doutorado em linguística e análise de discurso, a professora Elda Alves Oliveira Ivo conta que tem alunos de EAD saídos do Ensino Médio e até os que estão na terceira graduação. “Tenho um de 84 anos que faz engenharia”, alegra-se a docente do UniCEUB. “Sempre acreditei na EAD, ela é tão efetiva quando a aula presencial. Se ainda há resistência é pela dificuldade de aceitar o que é novo.”

 

Para Elda, o desconhecimento leva o aluno a achar que a EAD seja mais fácil. “Pelo contrário. É necessário se dedicar mais, pois existe um volume prévio de leitura e é preciso estudar antes para discutir na sala virtual”. Na UniCEUB a margem de evasão não chega a 20%, em comparação à média nacional, em torno de 50%. O material empregado envolve mídias como links do YouTube e textos em PDF, o que faz a aula ser bem dinâmica: “Os exercícios são corrigidos pela plataforma. Se o aluno erra, é orientado a rever os conceitos, voltar à determinada aula. Quando acerta, é incentivado, recebe explicação por que acertou”.

A professora Elda Alves Oliveira, do UniCEUB: 'A EAD é tão efetiva quando a aula presencial. Se ainda há resistência é pela dificuldade de aceitar o que é novo' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A professora Elda Alves Oliveira, do UniCEUB: "A EAD é tão efetiva quando a aula presencial. Se ainda há resistência é pela dificuldade de aceitar o que é novo"
 

Cerca de 14 mil alunos já passaram pelos cursos a distância do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), sendo que, em 2017, houve aumento de 125% de interessados, em comparação com o ano anterior. “Oitenta por cento deles saem empregados”, afirma o gerente de cursos técnicos EAD da instituição, Sidinei Rossi mestre em administração e especialista em informática na educação.  Entre as tecnologias aplicadas estão a realidade virtual, realidade aumentada e webconferência.

 

Com turmas on-line e tutoria na área de saúde, a Universidade Aberta do SUS (Una-SUS) conseguiu capacitar 550 mil profissionais do setor em 181 cursos gratuitos que abrangem 98,5% do país. A duração varia de 12 a 18 meses, e a prioridade na implantação segue a política pública do Ministério da Saúde. “No ano passado, tivemos 50 mil matrículas no curso sobre zika”, informa o coordenador de Gestão do Conhecimento da Una-SUS/Fiocruz, o médico em saúde pública Vinícius Araújo. Saúde Indígena e Mulher em Situação de Violência também são especializações oferecidas. Para 2018, a modalidade vai abranger a saúde do idoso, por meio de um pacote de especializações.

O médico Vinícius Araújo, coordenador de Gestão do Conhecimento da Una-SUS/Fiocruz: 'A EAD é fundamental para um país do tamanho do Brasil' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O médico Vinícius Araújo, coordenador de Gestão do Conhecimento da Una-SUS/Fiocruz: "A EAD é fundamental para um país do tamanho do Brasil"
 

Médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, dentistas, agentes comunitários e estudantes de graduação fazem parte das turmas e já existe uma demanda para acessar o material também no celular por meio de um aplicativo. “A EAD é fundamental para um país do tamanho do Brasil, onde podemos capacitar alunos do interior, de centros de saúde e de hospitais de pequeno porte”, diz Vinícius.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017