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Vai pra Cuba!

Coluna "Nas Telas" comenta sobre o jornalista americano Jon Alpert, responsável pelos documentários "Cuba" e "Cameraman"

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:24/01/2018 12:53

Começo por avisar, parafraseando o comunista Jorge Amado, se o caro leitor é desses que chamam candidato à presidência da República de mito ou associam o socialismo ao demônio, é prudente virar a página. Para marcar um ano sem o comandante Fidel Castro, a Netflix lançou o extraordinário documentário Cuba e o Cameraman, uma declaração de amor do premiado jornalista Jon Alpert, que, desiludido com o desumano capitalismo caseiro, resolveu conhecer de perto a ilha, numa viagem afetiva que começou no final da década de 1960 e se encerra, exatamente, quando da morte do ícone cubano.

 

Além do excelente manual de bom jornalismo, Jon Alpert apresenta ao espectador um perfil sem filtros do comandante Fidel, um líder carismático, tomado de humor na lente de Alpert e sem nenhum revanchismo com o povo norte-americano. A partir da simpatia instantânea com o cineasta, Fidel solta o freio e fala para o yankee coisas que jamais outro jornalista conseguiu arrancar do controverso personagem político. Se houver expectativa por um retrato crítico ao homem que esteve à frente da revolução cubana, este não é o programa ideal para se escolher.

 

Decepcionado com as políticas sociais e públicas de Manhattan, Jon Alpert, vencedor do prêmio Emmy, decide desembarcar no país vizinho, famoso por oferecer saúde de qualidade, ensino universalizado e amparo à população marginalizada. De início, a ilha é toda exuberância e êxito, com a parceria e recursos generosos vindos da antiga aliada União Soviética.

O jornalista americano Jon Alpert (de boné) com moradores da ilha: viagem começa no final da década de 1960 e termina com a morte de Fidel Castro  (Divulgação )
O jornalista americano Jon Alpert (de boné) com moradores da ilha: viagem começa no final da década de 1960 e termina com a morte de Fidel Castro
 

Ao selecionar famílias e personagens locais para acompanhar o desenvolvimento do país ao longo de anos, Jon não imaginava que o trabalho renderia não meros entrevistados, mas valorosos amigos. Destaque sensível para os irmãos camponeses que tocam uma fazendinha muito longe da capital Havana. Os adoráveis e simples velhinhos parecem alheios a questões políticas e externas experimentadas por sua pátria.

 

Essa alienação rural é interrompida no final da década de 1980, quando Cuba sente da forma mais terrível o fim do império soviético ou, o que muitos acreditam, a falência do socialismo. O colapso não escapa à câmera de Jon Alpert, que retrata um povo faminto, carente, sem a possibilidade de acesso ao mínimo essencial, em grande parte, também, reflexo direto de estúpido bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.

 

A gente feliz e malemolente dá lugar a expressões tristes, derrotadas, que sonham cruzar o mar para pisar na Flórida. Mesmo entusiasta do sistema e da história, o cameraman do título não se esquiva da situação caótica que toma o país. O caminho óbvio para sair da crise é a aposta no turismo, o que torna caricatura uma nação que antes ostentava autonomia e vanguarda.

 

Cuba reaprende a viver, e essa é a redenção de Cuba e o Cameraman. Aos poucos, os amigos de Jon voltam a prosperar. E os dias atuais são o espelho da ilha mágica, roteiro sonhado por uma legião de turistas. Afinal, querem conhecer o país visitado por Barack Obama, pelos Rolling Stones e pelo papa Francisco, todos viajantes em um mesmo período para Cuba.

 

Encerrando o projeto, Jon Alpert acompanha as cerimônias fúnebres do comandante e caminha junto a uma multidão emocionada, que sempre respeitou a representatividade de Fidel Castro. Os cubanos, muito parecidos com o povo brasileiro, definitivamente, são a grande riqueza exibida no estupendo produto de selo Netflix.

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EDIÇÃO 62 | março 2018