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Overdose de beleza: 'Nas Telas' traz artigo sobre o filme "Me Chame Pelo Seu Nome"

Longa já rendia paixões desde o Festival de Sundance 2017

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:20/03/2018 16:26

Privilegiar o belo, imagens meticulosamente pensadas para encher as vistas, é o que define a carreira de uma porção de cineastas. O italiano Luca Guadagnino é professor nesse quesito. Me Chame pelo Seu Nome (Call Me by Your Name), um dos filmes mais lindos dos últimos tempos, é a experiência máxima do diretor de pinçar fotogramas, com a assumida intenção de fazer o espectador admirar muito mais seu trabalho.

 

Adaptação estupenda do inglês James Ivory, a partir do romance de André Aciman, Me Chame pelo Seu Nome já rendia paixões desde o Festival de Sundance 2017, exatamente há um ano. Um projeto sublime e corajoso que se encaixa perfeitamente à ocasião de um cinema diverso, engajado, comprometido e de resistência, que a atual temporada tanto respira.

 

Na história, no início da década de 1980, o jovem Elio (Timothée Chalamet) passa mais uma temporada de verão no norte da Itália, com os pais, numa casa entupida de objetos e móveis que remetem à mais essencial e imediata cultura. Tudo que um garoto sonha em ter ao alcance das mãos. Como de costume, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg), pai de Elio, grande mestre e intelectual, recebe um acadêmico na típica vila italiana, que, além de colher aprendizado, será de grande serventia nas pesquisas de antigas obras de arte. O novo hóspede, Oliver (Armie Hammer), praticamente enfeitiça o menino Elio, ansioso e preparado para dar largada à vida afetiva e sexual.

 

Além do refinamento de Luca Guadagnino, que já havia chamado a atenção da crítica pelo notável projeto Um Sonho de Amor (2009), tocado em parceria com a amiga e atriz Tilda Swinton, Me Chame pelo Seu Nome guarda uma série de questões relevantes que merecem reflexão.

Os atores Timothée Chalamet e Armie Hammer, em cena de Me Chame pelo Seu Nome: longa já rendia paixões desde o Festival de Sundance 2017 (Divulgação )
Os atores Timothée Chalamet e Armie Hammer, em cena de Me Chame pelo Seu Nome: longa já rendia paixões desde o Festival de Sundance 2017
 

A começar pelo delicadíssimo tabu do início da vida sexual e de como esse processo acontece. Uma hora essa experiência tem de surgir, de preferência, da forma mais plena e verdadeira possível. Elio tem encontros casuais com a linda Marzia (Esther Garrel). Tudo transcorre com extremo carinho e curiosidade. É perceptível a atração de Elio pela amiga. Porém, o objeto de sua afeição, quem de fato faz o menino subir pelas paredes, a ponto de ser atrevido, invertendo papéis, e tomando iniciativas é o furacão Oliver, homem demasiadamente prático e apressado, armado de irritante cautela e introspecção.

 

Outro achado do longa-metragem é a relação de Elio com seus pais. O desejável é o que se assiste nos valorosos 132 minutos de projeção. Da cena de afago e compaixão da mãe Anella (Amira Casar), enquanto conduz o carro, trazendo um filho devastado e com amargo gosto da perda, até chegar ao magistral monólogo do Sr. Perlman, do excepcional ator Michael Stuhlbarg, no papo mais impactante, até então, com o filho gay. Uma das cenas mais lindas e delicadas entre um pai e sua cria na sétima arte. Desde já, uma imediata referência.

 

Urgente overdose de beleza, quintessência, sem nenhum exagero, do bom gosto, Me Chame pelo Seu Nome recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo a categoria de melhor filme do ano. Efetivo dono do filme, o garoto de 22 anos Timothée Chalamet também foi agraciado com uma indicação de melhor ator. Com Denzel, Day-Lewis, Oldman, sem falar na grata surpresa Daniel Kaluuya (de Corra!) em seu encalço, Timothée merecia vencer. Seu trabalho é irretocável, com cara lavada, sem recursos histriônicos para uso. Empresta o corpo, o talento, a certeza da profissão e a genialidade precoce para ser a base de uma honrosa e segura obra-prima.

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EDIÇÃO 62 | março 2018