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Peças de mobiliário homenageiam monumentos da capital e ganham o mundo

Criadas pelo designer Aciole Félix, peças têm Brasília como inspiração

Teresa Mello - Publicação:22/03/2018 18:05Atualização:22/03/2018 18:38

Como qualquer criança, ele gostava muito de desenhar. Tinha preferência por carros. Já no ensino médio, o brasiliense Aciole Félix, de 35 anos, começou a levar a sério esse talento e, na hora do vestibular, surgiu a dúvida: desenho industrial, arquitetura ou artes plásticas? Até chegou a cursar um semestre de artes plásticas, mas se formou em desenho industrial, na Universidade de Brasília (UnB). O projeto de graduação foi o design de um carrinho elétrico, desses de golfe, para ser usado como segurança em grandes estacionamentos. Por questões de viabilidade econômica, o protótipo não deslanchou. Mas a carreira de Aciole, sim. Com mestrado em Milão, exposição em Paris, ele é conhecido por incorporar símbolos da capital federal no design de móveis em madeira. O carro-chefe é o banco Alvorada, apoiado em colunas semelhantes às do palácio modernista de mesmo nome.

O designer sentado sobre o banco Alvorada branco: carro-chefe da obra de Aciole Félix, peça é apoiada em colunas semelhantes às do palácio de mesmo nome (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O designer sentado sobre o banco Alvorada branco: carro-chefe da obra de Aciole Félix, peça é apoiada em colunas semelhantes às do palácio de mesmo nome
 

Ainda na universidade, em 2006, ganhou o prêmio Idea Design, à época em parceria com a Fiat do Brasil, que estimulava a projetar o carro do futuro. “Fiz um painel com toque (touch screen) e isso me abriu as portas para o mestrado em design automotivo na Itália”, conta. As aulas teóricas na universidade estatal Politécnico de Milão foram completadas com um período profissionalizante na sede da Fiat, em Turim. “Cheguei aonde eu sempre sonhei”, comemora. Mas isso seria apenas o começo.

Com o projeto Compass, Aciole Félix venceu, em 2008, o concurso Talentos do Design Muller /Fiat (Divulgação )
Com o projeto Compass, Aciole Félix venceu, em 2008, o concurso Talentos do Design Muller /Fiat
 

De volta a Brasília, em 2010, ele pensava: “O que eu vou fazer com o que aprendi e com a capacidade de criar, de desenhar?”. Procurou, então, os cursos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Queria saber como empreender, tornar-se um profissional. Dois anos depois, surgiu o convite que lhe estenderia um tapete vermelho: “O pessoal do Sebrae pediu uma linha de design com inspiração em Brasília para a exposição Brasil Original, no ParkShopping”, lembra. Nascia, então, o banco Alvorada, assinado por Aciole, ao lado da cadeira Athos, criada pelo amigo Danilo Vale e disponível no catálogo da Fundação Athos Bulcão.

 

As peças agradaram em cheio, a parceria durou dois anos e o trabalho evoluiu. Vieram convites para feiras do setor, como a Semana de Design de Paris e a de Milão. Surgiram, depois, a mesa Hera, inspirada no Ginásio Nilson Nelson e que resgata a tradicional palhinha; e a cadeira Lila, uma releitura da poltrona Espaguete, presente nas calçadas do interior do Brasil ao cair da tarde. Na criação do brasiliense, ela exibe um ar contemporâneo, com assento em tubo de PVC e espaldar de madeira freijó. Tudo com rigor profissional: “Além da parte estética, é preciso levar em conta a ergonomia e a funcionalidade”, afirma.

A cadeira Lila decora um ambiente parasiense: ela foi um dos objetos criados especialmente para a mostra Paris Design Week, em 2014 (Melissa Regan/Divulgação)
A cadeira Lila decora um ambiente parasiense: ela foi um dos objetos criados especialmente para a mostra Paris Design Week, em 2014
 

Na mostra Paralela Móvel, em agosto do ano passado, em São Paulo, ele lançou a linha Rari, batizada com o apelido da mulher, a médica Raíssa Raposo: “O evento foi 15 dias antes do nosso casamento”, conta. A coleção é formada por mesa de centro, banco, aparador e cabideiro 2C (que remete à escultura conhecida como Dois Candangos, de Bruno Giorgi, na Praça dos Três Poderes). Mas nem todos os produtos criados por ele são inspirados em Brasília. “A linha Rari tem outro conceito”, explica o designer, que nela utilizou o processo artesanal, a madeira maciça e a alta tecnologia no corte a laser do metal.

Esta cadeira, que leva o nome de Delta, foi apresentada na feira Paralela Móvel, em 2016: linha explorou novas técnicas de fabricação (Renata D'almeida/Divulgação)
Esta cadeira, que leva o nome de Delta, foi apresentada na feira Paralela Móvel, em 2016: linha explorou novas técnicas de fabricação
 

O aparador Tao é a peça mais cara da coleção. Com 1,80 m de comprimento e 40 cm de profundidade, é vendida entre 11 mil e 13 mil reais. “São 15 dias de marcenaria. É como se fosse um tronco de madeira”, compara. A mais barata é a mesa Quadradinho, com o traçado do Plano Piloto no tampo de 28 cm de comprimento. Custa 680 reais. O famoso banco Alvorada sai a 1.750 reais nas cores branca e preta foscas e 2.350 reais com acabamento em banho de cobre. “As pessoas acham que a peça de design não é acessível, mas é possível, sim, decorar a casa com história, com personalidade”, afirma.

 

Uma das clientes é a médica brasiliense Nayanne Lays dos Santos Pereira: “Eu me formei junto com a Raíssa e comecei a ter contato com o trabalho dele”, conta. “Quando vi aquele banco Alvorada, fiquei louca! Só falava desse banco.” Ela tem um na cor preta e comprou a mesa Quadradinho, um presente de Natal para a mãe. “Ele é um jovem de muito talento”, resume o pernambucano Marcelo Henrique Lima, dono da Pé Palito, no Shopping Iguatemi, que vende peças do Studio Aciole Félix. “É um trabalho limpo, contemporâneo, a pessoa olha e se encanta”, completa Lima.

A médica Nayanne Pereira e seu exemplar do banco Alvorada na cor preta: fã do designer, ela também comprou a mesa Quadradinho de presente de Natal para a mãe (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A médica Nayanne Pereira e seu exemplar do banco Alvorada na cor preta: fã do designer, ela também comprou a mesa Quadradinho de presente de Natal para a mãe
 

A mesa Quadradinho está disponível na BsB Memo, e outro canal de vendas está no site Boobam: “É a grande vitrine do design nacional”, define Aciole, que recebe encomendas pelo site próprio (www.aciolefelix.com). “Eu cuido de tudo: da criação, da produção, das vendas”, suspira.

 

No home office no Sudoeste, as ideias vão para a papel ao som de música instrumental, jazz, eletrônica, dependendo do projeto. “Desenho muito no meu dia a dia, mas minha melhor inspiração é quando acordo”, conta. Hoje, o design de mobiliário ocupa 30% do seu trabalho e o de produtos para indústria, 70%. Sabe aqueles totens informativos da Rodoviária do Plano Piloto? Criação de Aciole Félix. Outros objetos, por exemplo, são a fechadura eletrônica Loop Key, que permite abrir a porta pelo celular, e equipamentos de raios X hospitalar e veterinário.

 

Brasília parece estar tatuada na criação do designer: “O horizonte da cidade, os espaços vazios, o olhar impregnado do desenho de Niemeyer”, enumera ele, que, por conta do trabalho, percorre outras cidades do Distrito Federal: “O fornecedor do pé do banco Alvorada fica no SOF Sul, o corte da chapa de metal é feito no Núcleo Bandeirante, o fornecedor de madeira está em Taguatinga, o marceneiro, em Ceilândia, a pintura, no Setor M Norte”. Em Vicente Pires, Aciole mantém uma oficina usada como depósito e montagem. Enquanto isso, no apartamento do Sudoeste, o cão Paçoca descansa na sua caminha de madeira Lazy. De design.

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EDIÇÃO 62 | março 2018