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Parque Olhos d'Água não é um simples parque, mas uma reserva ecológica no meio da cidade

Localizado no fim da Asa Norte, lugar abriga 94 tipos de aves, lagoa, nascentes e muitas espécies de árvores típicas do cerrado

Paloma Oliveto - Publicação:24/04/2018 16:32

Na vista aérea de Brasília, ele é só um pontinho verde no fim da Asa Norte. No entanto, de perto, o parque Olhos d’Água é um oásis, que floresce entre a movimentada via L2 e as entrequadras 412 e 415. Com 21 hectares de vegetação nativa, o local é um convite a uma pausa na correria do dia a dia. No lugar de prédios, há árvores, trilhas e a lagoa do Sapo. Em vez do barulho dos carros, o canto dos muitos pássaros que vivem por lá. Sem espaço para pressa, a palavra ali é contemplação.

O parque Olhos d'Água tem 21 hectares de vegetação nativa e muita água: desafio é preservá-lo para os futuros moradores (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O parque Olhos d'Água tem 21 hectares de vegetação nativa e muita água: desafio é preservá-lo para os futuros moradores
 

Aos 24 anos, o parque foi uma conquista da comunidade, que se mobilizou na década de 1990 e reivindicou a preservação de uma área de vegetação típica do cerrado, com árvores como barbatimão, copaíba, angico e faveira; rica fauna composta por aves, répteis e pequenos mamíferos, um córrego e duas cabeceiras. Tudo isso estava ameaçado por uma grande invasão de moradores sem-teto e pelo mercado imobiliário, que via ali um espaço perfeito para a construção de mais uma quadra residencial.

 

O esforço dos moradores vizinhos, porém, deu certo. E, em 1994, foi criado o Parque Ecológico e de Uso Múltiplo Olhos d’Água, que só na década seguinte adquiriria a configuração atual, com cerca, equipamentos de ginástica, bancos, área de espreguiçadeira para tomar sol, parquinho infantil, banheiros, pontes e pista de cooper, entre outros. “Este é um parque com um equilíbrio muito grande entre a prestação de serviços e entretenimento, e a parte ambiental”, diz o agrônomo Edeon Vaz, de 40 anos, responsável pela Unidade de Conservação, que é administrada pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram).

Há 10 anos, o agrônomo Edeon Vaz é responsável pelo parque, que é administrado pelo Ibram: 'Aqui, nós esquecemos que estamos em Brasília' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Há 10 anos, o agrônomo Edeon Vaz é responsável pelo parque, que é administrado pelo Ibram: "Aqui, nós esquecemos que estamos em Brasília"
 

À frente do Olhos d’Água há 10 anos, Edeon conta que demorou um pouco para que os frequentadores absorvessem a vocação ecológica do parque e respeitassem as regras de não fumar, não levar bebidas alcoólicas, não andar de bicicleta e patins nem passear por lá com animais domésticos. Hoje, porém, ele afirma que são poucos os que ainda insistem em tentar burlar as restrições, que existem para proteger a flora e a fauna locais: “É muito importante ter esses ambientes de amortecimento nas cidades. Aqui, nós esquecemos que estamos em Brasília”, diz Edeon.

 

A integração entre natureza e comunidade é intensa no Olhos d’Água. Lá são realizadas diversas atividades gratuitas, principalmente com foco na saúde física e mental dos frequentadores. Vizinha do parque, a professora de educação física Tânia Reis, de 44 anos, dá aulas de ginástica no local há uma década. Ela é instrutora do programa Ginástica nas Quadras, da Secretaria de Educação do DF, e, além do parque, ministra a atividade no Clube do Congresso, em um posto de saúde da Asa Norte e no Varjão. “Mas aqui é o melhor lugar de todos”, diz, entusiasmada. “O lugar é um colírio para os olhos. As pessoas se exercitam no meio do verde, respirando o ar puro”, afirma a professora, cujas turmas são bastante disputadas.

Aula de ginástica da professora de educação física Tânia Reis, que é vizinha do Olhos d'Água: turmas disputadas em um espaço privilegiado (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Aula de ginástica da professora de educação física Tânia Reis, que é vizinha do Olhos d'Água: turmas disputadas em um espaço privilegiado
 

A natureza e a calmaria do parque também inspiram instrutores de ioga, prática oriental milenar com inúmeros benefícios à saúde, que oferecem aulas gratuitas – as contribuições são voluntárias – aos frequentadores. Professora da prática há 15 anos, Bruna Maculam, de 35 anos, diz que o ambiente do Olhos d’Água favorece a atividade: “O parque tem uma energia muito grande e isso faz toda a diferença”, diz. Até julho do ano passado, ela dava aulas todas as quartas-feiras de manhã, mas a chuva do segundo semestre interrompeu o projeto – que voltou agora, aos domingos. “Na primeira semana, não tinha nenhum aluno. Na segunda, apareceram três pessoas. Na terceira, já eram 12. Foi aumentando pelo boca a boca e começou a chegar gente de fora do Plano Piloto. Teve aula com 50 pessoas”, conta.

 

Agora, Bruna está em um novo projeto de ioga no Olhos d’Água, que acontece aos domingos, às 10h. Cada semana, um professor voluntário assume a prática. Nesse caso, os instrutores sugerem uma contribuição de 20 reais, que não é obrigatória. “Quem quiser pagar menos não tem problema e quem não puder contribuir não tem problema também. Eu deixo as pessoas bem à vontade quanto a isso”, ressalta Bruna, que frequenta o Olhos d’Água desde 2014.

Bruna Maculam e algumas de suas alunas na aula de ioga: 'O parque tem uma energia muito grande e isso faz toda a diferença' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Bruna Maculam e algumas de suas alunas na aula de ioga: "O parque tem uma energia muito grande e isso faz toda a diferença"
 

Sentir-se em outro lugar a poucos metros de casa é o que a advogada e empresária Carolina Alcântara Neves, de 42 anos, mais admira no Olhos d’Água. Moradora da 212 Norte, ela sempre frequentou o local, principalmente para correr e se exercitar nas barras. Depois que a filha, Malia Kai, de 1 ano e 6 meses, nasceu, continuou visitando o parque, mas agora para fazer passeios tranquilos com a menina. “Gosto muito de mato e aqui é um refúgio dentro da cidade. Temos trilhas urbanas no parque e isso renova muito as energias”, afirma Carolina. Com a pequena Malia Kai, nomes que, em havaiano, significam, respectivamente, “águas claras e serenas e oceano”, a empresária que ama a natureza dá voltas pela mata ciliar do Olhos d’Água, frequenta a lagoa e, claro, o parquinho.

A advogada Carolina Neves leva a filha, Malia Kai, para brincar no parquinho: 'Gosto muito de mato, e aqui é um refúgio dentro da cidade', diz Carolina (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A advogada Carolina Neves leva a filha, Malia Kai, para brincar no parquinho: "Gosto muito de mato, e aqui é um refúgio dentro da cidade", diz Carolina
 

No parque, o servidor público aposentado Roosvelt Mascarenhas, de 57 anos, sente-se mais perto do divino. “Aqui, você lembra da criação, do equilíbrio que nos foi proporcionado no início da vida e que, infelizmente, o homem está destruindo”, diz. Morador da 415 Norte e na capital desde a infância, Roosvelt, natural do Jalapão (TO), sente falta da Brasília menos urbana e atribulada que conheceu, mas, no parque, consegue reviver um pouco os tempos em que o cerrado era menos salpicado de concreto. Todos os dias, exceto aos sábados, dedicados à igreja, ele dá três voltas na pista de cooper e, depois, exercita-se nos equipamentos de ginástica. Além da atividade física, o aposentado é adepto da meditação, que costuma praticar no Olhos d’Água: “Entro na matinha e fico ali, meditando. Como seria bom se todos soubessem conviver com a natureza”, diz.

O aposentado Roosvelt Mascarenhas aproveita os equipamentos de ginástica para se exercitar e praticar meditação em meio ao verde: 'Como seria bom se todos soubessem conviver com a natureza' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O aposentado Roosvelt Mascarenhas aproveita os equipamentos de ginástica para se exercitar e praticar meditação em meio ao verde: "Como seria bom se todos soubessem conviver com a natureza"
 

Esse é um convívio do qual Ironeide Brito, de 40 anos, não abre mão. Ela morou a vida toda na 412 Norte, mas, depois de casada, mudou-se para o Riacho Fundo. A distância de 55 km, porém, não a impede de continuar frequentando o parque, agora, com o filho, Ícaro, de 1 ano e 11 meses. “Estou sempre aqui. O ar fresco e o contato com a natureza me fazem muito bem”, diz Ironeide. A família da dona de casa representa três gerações de amantes do Olhos d’Água. Além de Ironeide e de Ícaro, a mãe dela, Maria Brito, de 63 anos, é assídua no parque: “Aqui é o quintal da minha casa”, define Maria.

Ironeide Brito com o filho, Ícaro, e a mãe, Maria Brito, no parque: a família que morava na Asa Norte, mudou-se para Riacho Fundo, mas não deixou de frequentar o lugar (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Ironeide Brito com o filho, Ícaro, e a mãe, Maria Brito, no parque: a família que morava na Asa Norte, mudou-se para Riacho Fundo, mas não deixou de frequentar o lugar

 

SAIBA MAIS

 

èPara informações sobre as aulas de ioga: https://www.facebook.com/groups/1476116532704606/about/

 

èGrupo de observadores de pássaros que promove observações periódicas no parque: http://observaves.blogspot.com.br/

 

èAos domingos pela manhã, há um grupo de choro tocando no parque, a partir das 10h30

 

èNa página https://www.facebook.com/ParqueEcologicoOlhosDAgua/ há programação de eventos esporádicos, como feirinha de troca e apresentação de teatro 

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EDIÇÃO 62 | março 2018