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CULTURA | MÚSICA »

Mulheres comandam grupos de percussão na capital

Elas tomam conta da batucada e mostram talento para conduzir o ritmo e fazer o som

Isabella de Andrade - Publicação:24/04/2018 17:00

O ritmo contagiante e forte da percussão embala os dias de diferentes mulheres da capital. O som do tambor, das caixas e agogôs dita a levada das canções tocadas por elas, que se espalham cada vez mais entre os grupos percussivos em Brasília. Entre parques, ruas, festas e carnavais, musicistas se entregam à vontade de criar o ritmo da festa. Grupos como Batalá, Maria Vai Casoutras, Filhas de Oyá e As Batuqueiras mostram a forma feminina nos palcos da cidade.

 

É o caso de Tatiana Gushiken, de 34 anos, servidora pública que toca gaita, escaleta, repique, caixa, timbal, pandeiro, congas e percussão em geral no grupo Maria Vai Casoutras. A paixão pela música vem desde a infância e, atualmente, ela é também produtora musical da banda. Para Tatiana, a arte foi uma das grandes colaboradoras em seu desenvolvimento pessoal, ensinando-a a trabalhar em grupo e a superar desafios diariamente.

Tatiana Valente integra o grupo de percussão feminino Maria Vai Casoutras: treinamento constante e a experiência acumulada favorecem a criação de uma desenvoltura cada vez maior nos palcos (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Tatiana Valente integra o grupo de percussão feminino Maria Vai Casoutras: treinamento constante e a experiência acumulada favorecem a criação de uma desenvoltura cada vez maior nos palcos
 

O grupo é formado exclusivamente por mulheres e adota estilos diversos, que vão desde o axé até o brega, passando pelo funk e pelo forró. “Um dos pontos que mais chama a atenção em fazer parte de uma banda exclusivamente feminina é que cada uma das integrantes gosta de expor suas opiniões e, mesmo diante de tantas ideias diferentes, estilos diversos e personalidades distintas, conseguimos potencializar tudo isso de forma a fortalecer uma identidade única da banda”, destaca Tatiana. Os ensaios acontecem três vezes por semana, para treinar os instrumentos, além de um ensaio semanal, para reunir toda a banda.

 

Além de tocar em grandes eventos, como a Premiação Paralímpica, posse presidencial, festivais de percussão e jogos escolares da juventude, a Maria Vai Casoutras tem seu próprio bloco de carnaval há quatro anos. Tatiana conta que o treinamento constante com o instrumento e a experiência acumulada entre as apresentações favorecem a criação de uma desenvoltura cada vez maior nos palcos, além da tranquilidade frente a grandes públicos.

O grupo de percussão Maria Vai Casoutras: do axé até o brega, passando pelo funk e o forró (Rafael Facundo/Divulgação )
O grupo de percussão Maria Vai Casoutras: do axé até o brega, passando pelo funk e o forró
 

A psicóloga Daniela Piconez, de 43 anos, teve seu primeiro contato musical um pouco mais tarde do que Tatiana. Em 2017, enquanto passava de carro pelo estacionamento 11 do Parque da Cidade, escutou a batida contagiante e quis ver o que era. “Quando vi aquele grupo lindo de mulheres, sorridentes, felizes, dançando e tocando um som muito intenso, imediatamente eu me identifiquei”, conta Daniela. Quem tocava naquele dia era o grupo Batalá, e Daniela foi imediatamente acolhida por uma batalete. Desde então, ela toca surdo, instrumento base que tem a missão de fazer a marcação e manter o ritmo da banda.

 

Para a psicóloga, participar do Batalá é uma transformação constante. A banda possibilita uma conexão de forma diferente da rotineira, com relações movidas pela energia da equipe, pela vibração da dança e pelo ritmo musical. “É uma sensação de que sou capaz de fazer algo que nunca tinha feito antes. Isso me encoraja a encarar os desafios cotidianos. Eu me sinto desafiada a cada ensaio, com as antigas e novas músicas, uma nova dança. Sinto que ganhei no Batalá foco e disciplina”, diz Daniela.

Daniela Trigueiros, percussionista do Batalá: 'Vejo que o grupo tem este poder na vida das mulheres, de nos mostrar que somos muito fortes e capazes de tudo' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Daniela Trigueiros, percussionista do Batalá: "Vejo que o grupo tem este poder na vida das mulheres, de nos mostrar que somos muito fortes e capazes de tudo"
 

Para tocar corretamente o repertório (todo autoral), é preciso se dedicar semanalmente aos estudos e não perder os ensaios. O Batalá foi fundado em Paris, em 1997, pelo percussionista baiano Giba Gonçalves, que ensinou aos franceses a riqueza e a musicalidade dos instrumentos de percussão afro-brasileiros, uma das maiores influências na formação de nossa identidade cultural. Depois de sua criação, a banda se espalhou por diferentes lugares do mundo e, atualmente, são 30 grupos em 16 países. O Batalá Brasília foi criado em outubro de 2003 e tornou-se o primeiro integrado apenas por mulheres.

 

Daniela acredita que atuar em um grande coletivo faz com que seja mais empática, cuidadosa e atenta ao outro. “Vejo que o Batalá tem esse poder na vida das mulheres, de nos mostrar que somos muito fortes e capazes de tudo. Basta acreditar e se dedicar”, afirma ela. A música promove mesmo uma forte união e sensação de apoio entre as mulheres que participam dos coletivos. É preciso trabalhar em conjunto para atingir a harmonia musical e expressar a emoção por meio das fortes batidas dos tambores. “Busco dar o meu melhor em cada apresentação, para que possa aproveitar o momento junto ao público que nos assiste. O apoio e a conexão com as musicistas e com a regência também me trazem grande segurança nas apresentações”, lembra a batalete.

 

No Batalá, elas se reúnem em um ensaio fixo semanal de três horas, além de participarem de turmas de estudo e workshops. Em casa, Daniela estuda, no mínimo, duas horas por semana e pretende experimentar todos os instrumentos tocados pelo grupo. Além da participação em eventos corporativos e de cunho social, o grupo se apresenta há 10 anos no cortejo oficial da Lavagem do Bonfim, que acontece em Salvador. São 8 km de cortejo até a emocionante chegada à igreja do Senhor do Bonfim.

O Batalá é um projeto internacional e existe em 16 países: grupo de Brasília é o único formado apenas por mulheres (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O Batalá é um projeto internacional e existe em 16 países: grupo de Brasília é o único formado apenas por mulheres
 

A Associação Batalá de Percussão foi o primeiro grupo de percussão de Brasília constituído apenas por mulheres, e a participação na Lavagem é um de seus grandes eventos. “É uma jornada. Viajamos juntas para Salvador, de ônibus, e nas 24 horas de viagem há muita integração entre a banda. Nós nos hospedamos no lindo casarão do Batalá, no bairro da Saúde, e durante uma semana realizamos ensaios na comunidade, no Pelourinho, além de oficinas de baquetas, oficina sobre o significado do evento. Tivemos a oportunidade de tocar com integrantes e regentes de outros Batalás espalhados pela Europa, América do Norte e América Latina”, conta Daniela.

 

A tradição do grupo se mistura aos novos coletivos femininos que surgem na cidade, como o Filhas de Oyá. Natalia Solorzano, de 23 anos, uma das integrantes, toca e canta junto a outras mulheres de diferentes idades. Seu primeiro contato com a percussão foi no Centro Tradicional de Invenção Cultural de Brasília, com o mestre Tico Magalhães e com a musicista Júnia Cascaes. “Com os dois, reeduquei meus ouvidos para me abrir aos ritmos brasileiros, suas heranças africanas e indígenas, para deixar meu corpo dançar os cantos de minha ancestralidade”, lembra a jovem, que é também atriz e dançarina. Entre os instrumentos que ditam o ritmo musical da percussão, Natalia se encantou pelo toque da caixa e do agbê.

O grupo Filhas de Oya reúne atualmente 18 mulheres: ensaios acontecem toda quinta-feira (Elba Militão/Divulgação )
O grupo Filhas de Oya reúne atualmente 18 mulheres: ensaios acontecem toda quinta-feira
 

Atualmente, 18 mulheres integram as Filhas de Oyá e a musicista conta que todas se consideram irmãs: “Com elas reaprendo o valor da companhia feminina, do acalento, da veracidade, do acolhimento sem julgar, do estar a serviço do bem das mulheres, de forma real, do ser leve”, diz. Os ensaios acontecem toda quinta-feira, quando a artista pode compor novas músicas, dançar, tocar e se descobrir um pouco mais a cada encontro.

 

Quem também sente mais confiança, segurança, voz ativa e liberdade de expressão ao tocar em um coletivo musical feminino é Lirys Catharina Silva, de 32 anos, integrante do grupo Batuqueiras. Ela começou a tocar ainda na adolescência e atualmente se expressa através de diferentes instrumentos, como tambores, congas, ganzas, gongues e caixas. “Hoje, por causa da música, eu me relaciono com um ciclo de mulheres que lutam pelos mesmos objetivos na arte e na vida”, conta.

 

Lirys acredita que esses grupos de mulheres criam uma relação mais próxima com as tradições e a afirmação de direitos iguais. Enquanto isso, a relação com o público é a de levar o indivíduo a apreciar o desconhecido, a obter conhecimento sobre saberes populares, trazer à tona memórias através de melodias. “É um papel difícil estar no palco, mas é prazeroso e poderoso, é momento de expor coerentemente o ponto de vista através de letras e toques e eventualmente através da fala.” Para as batuqueiras, a leveza do ritmo e o som das batidas criam uma experiência mais leve com o cotidiano e as relações pessoais. A música aparece como ponto de encontro e diálogo, espaço de aprendizado, força e trabalho coletivo.

O grupo As Batuqueiras, outro coletivo musical de Brasília: 'É um papel difícil estar no palco, mas é prazeroso e poderoso', diz Lirys Catharina (a primeira à esq., sentada) (Arquivo Pessoal  )
O grupo As Batuqueiras, outro coletivo musical de Brasília: "É um papel difícil estar no palco, mas é prazeroso e poderoso", diz Lirys Catharina (a primeira à esq., sentada)

COMO PARTICIPAR DA BATUCADA

 

èBATALÁ

Ensaios abertos

Local: estacionamento 11 do Parque da cidade

Quando: aos sábados, das 10h às 13h

 

èCENTRO TRADICIONAL DE INVENÇÃO CULTURAL

Oficinas de percussão popular e Agbê

Informações e inscrições: centrodeinvencao@gmail.com

 

èINSTITUTO ALICERCE DOS TAMBORES

Aulas de instrumentos de percussão diversos

Informações: (61) 3340-8955

 

èPATUBATÊ

Oficinas de percussão para jovens e adultos.

Informações: contato@patubate.com 

 

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EDIÇÃO 67 | outubro