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Oficina de móveis gratuitos fez nascer um novo ponto de acolhimento de artistas na Funarte

Com o uso de materiais alternativos, espaço agora está de cara nova e traz um ambiente de trabalho pensando no bem-estar e qualidade de vida

Mariana Froes - Publicação:07/05/2018 15:31

Pensar no ambiente de trabalho como local de bem-estar e de qualidade de vida é uma tarefa árdua para muitas pessoas e empresas. E se esse espaço é uma repartição pública, mais difícil ainda. Afinal, as repartições são assim como o próprio nome diz: divididas em baias, quase que milimetricamente. Mas na Fundação Nacional de Artes (Funarte), em Brasília, os servidores inovaram. Mesmo sem verba, eles decidiram melhorar o espaço laboral. A partir da combinação de design e sustentabilidade, criaram uma oficina de móveis dentro do Complexo Cultural da fundação, localizado às margens do Eixo Monumental. Para isso, doaram a mão de obra e usaram materiais reciclados.

 

Assim, deram vida ao Espaço de Acolhimento de Artistas, uma espécie de recepção para profissionais do segmento, instalada na administração da entidade. E o que antes era um galpão como qualquer outro, onde as atividades funcionais aconteciam na rotina do dia a dia, transformou-se em uma atmosfera agradável, confortável e bonita.

Design e sustentabilidade foram os pontos de partida para a renovação do espaço: materiais reciclados, como paletes, foram utilizados para fabricar novos móveis (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Design e sustentabilidade foram os pontos de partida para a renovação do espaço: materiais reciclados, como paletes, foram utilizados para fabricar novos móveis
 

Sob a batuta da designer de móveis Ana Cristina Rabelo – que compartilhou o conhecimento com os funcionários –, eles reinventaram a lógica do espaço. Montaram e instalaram sofás, mesa de centro, revisteiro, piso laminado e até jardim de inverno. Todas as estruturas feitas com paletes (armações de madeira). A ideia deu tão certo que chegou aos camarins, onde, atualmente, a repaginação acontece.

 

De acordo com o coordenador de Difusão Cultural da Funarte, João Carlos Corrêa, foi possível economizar algo em torno de 12 mil reais com a iniciativa. “Reformamos três espaços. E isso só foi possível porque contamos com doação de paletes, tintas, rolos, extensores, pincéis, revistas, sprays, colchões, entre outros”, conta. Ao todo, 13 servidores se engajaram no projeto, incluindo o próprio João Carlos. Para tornar o trabalho ainda mais sustentável, eles recuperaram pregos e parafusos usados. “Não foi fácil, pois tínhamos de desamassar todo o material antes de reaplicar”, afirma. “Mas todo o processo foi extremamente produtivo, fruto desse dever de servir, de fazer algo em prol de um bem que é de todos nós.” 

Para o coordenador de Difusão Cultural da Funarte, João Carlos Corrêa, todo o processo foi muito produtivo: economia de cerca de 12 mil reais com a iniciativa (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para o coordenador de Difusão Cultural da Funarte, João Carlos Corrêa, todo o processo foi muito produtivo: economia de cerca de 12 mil reais com a iniciativa
 

A movimentação durante as oficinas foi tamanha que chegou até as redes sociais, momento em que atraiu olhar de outros voluntários. Assim, mais 24 pessoas da sociedade civil se apresentaram para ajudar. E, da mesma forma que os servidores da Funarte, aprenderam a limpar, lixar, serrar, envernizar e parafusar as mobílias. Além da intervenção nos móveis, teve gente que participou da pintura das paredes, portas, rodapés, do grafite e da confecção de espécies de mosaicos, feitos com papéis de revistas, que foram instalados nos camarins.

 

O maestro Renio Quintas, por sua vez, acredita ser preciso maior investimento por parte do governo para com a entidade, cuja missão é fomentar políticas públicas nas áreas de artes visuais, música, teatro, dança e circo. “Sem dúvida, o artista de Brasília vem sendo muito bem acolhido na Funarte, mas tem coisas que não podemos improvisar. E esses espaços são preciosos para toda a classe artística”, afirma.

 

Com foco na tríade “diversidade, união e respeito”, a designer Ana Cristina Rabelo traçou as primeiras linhas do Espaço de Acolhimento de Artistas, sob uma ótica minimalista. Ele foi dividido em três áreas. A primeira, composta por uma parede de retalhos, representando a diversidade; a segunda, por uma parede azul com desenhos de andorinhas, remetendo à união, ao trabalho em conjunto e à cooperação; e, por fim, a terceira, formada por um jardim vertical, remetendo à espiritualidade, ao respeito. “Usamos elementos simples para criar algo belo. Recuperamos, restauramos e ressignificamos coisas que seriam descartadas”, diz a designer.

 

Diferentemente do Espaço de Acolhimento de Artistas, a decoração dos camarins foi pensada de forma mais autônoma, com uma temática retrô. Ainda assim, manteve a mesma linha conceitual da iniciativa, amparada nos valores de três palavras iniciadas com a letra “R”. São elas: reciclar, reaproveitar e reutilizar. “Misturamos o moderno com o antigo. Na prática, clareamos as cores das madeiras, aplicamos cores neutras nas paredes, como o verde erva-doce e o azul-celeste, além de colocarmos colchões sobre tablados para criar um ambiente de descanso. Em contraponto, fizemos uma parede com recorte de revistas e grafite”, explica Ana Cristina.

 

Débora Luíse Gomes Avelar, funcionária da Funarte, também participou de todo o processo criativo na entidade. Segundo ela, desde então, quem entra pela porta da fundação não tem outra reação que não seja positiva. “Quem passa por aqui se sente acolhido, convidado a se sentar, tomar uma água, um café. Tem aqueles até que desabafam sobre a correria do dia a dia. Na verdade, criamos um espaço onde a conversa flui, claro, isso enriquece também o processo criativo”, diz.

A funcionária Débora Avelar também participou da oficina e ajudou a criar os móveis e objetos de decoração: 'Quem passa 
por aqui se sente acolhido' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A funcionária Débora Avelar também participou da oficina e ajudou a criar os móveis e objetos de decoração: "Quem passa por aqui se sente acolhido"
 

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EDIÇÃO 62 | março 2018