..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

DEZ PERGUNTAS PARA | CÉLIA XAKRIABÁ »

"Vivemos um momento de retrocesso", diz professora e ativista indígena Célia Xakriabá

Primeira indígena a representar os povos tradicionais na Secretaria de Educação de Minas Gerais fala sobre as principais reivindicações e desafios para implementar políticas públicas para índios

Julyerme Darverson - Publicação:06/06/2018 15:37Atualização:06/06/2018 16:57

Primeira indígena a representar os povos tradicionais na Secretaria de Educação de Minas Gerais, a professora Célia Xakriabá é uma das lideranças mais atuantes na luta cotidiana pela sobrevivência de seu povo. Originária dos índios xakriabás (que vivem no Norte de Minas), a ativista de 28 anos, formada em ciências sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cursa mestrado pela Universidade de Brasília (UnB). Célia se destacou por atuar na disciplina cultura xakriabá, que resgata a cultura ética e preserva a memória e a identidade do povo indígena. Ela age também em favor de causas voltadas para a juventude e as mulheres, além de pautas relacionadas às questões territoriais. A cientista social esteve em Brasília para participar do debate Mulheres Indígenas, Resistência e Protagonismo, da série de conferências Diálogos Contemporâneos, em março, na UnB, e conta um pouco de sua luta e suas vitórias.

 

1 |  ENCONTRO BRASÍLIA – Quais são os principais problemas que os indígenas enfrentam para garantir seus direitos no Brasil?

 

CÉLIA XAKRIABÁ – A principal questão, sem dúvida, é a territorial. Enquanto nós imaginávamos que essa pauta já estava vencida – a partir da Constituição de 1988, que garante a questão dessa liberdade e autonomia sobre os territórios indígenas –, vimos um momento de desgaste, que é lutar por essa mesma pauta por causa de um retrocesso de direitos. Uma dessas ameaças vem por meio da PEC 215, mudando o projeto de Lei da Funai – que transfere do Executivo para o Legislativo, o Congresso Nacional, a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas. Isso é uma ameaça apresentada também pelo marco temporal, que diz que só são consideradas terras indígenas aquelas que foram demarcadas até 1988, e foi depois do marco da Constituição que conseguimos avançar. É claro que pensamos em outras políticas para a juventude e para as mulheres indígenas, que são consideradas prioritárias, mas nos últimos três anos a pauta territorial tem sido mais latente para os povos indígenas.

 (Arquivo Pessoal )
 

2 |  Os direitos que vocês conquistaram estão sendo respeitados?

 

Não. A Constituição, que é a Carta Maior, faz garantir os nossos direitos. Como eu disse, vivemos um momento de retrocesso. Quando vendem nossos territórios, biomas e águas, é como se nos colocassem à mercê dessas mercadorias. Damos identidade à terra e ela nos dá identidade também. Os direitos dos povos indígenas não estão sendo levados a sério. Para efetivarmos nossos direitos, temos de ser tratados como parte da formação da sociedade brasileira. Vemos muito os povos indígenas serem anunciados e lembrados apenas em momentos folclóricos, como o dia 19 de abril. Isso reforça uma romantização e nós sofremos muito nesse processo de colonização, que não foi violento apenas em 1500. Ele ainda é violento hoje, pois existem armas mais sofisticadas.

 

 (Arquivo Pessoal )

3 |  Vocês se sentem abandonados pelo poder público?

 

Na realidade, nós nos sentimos abandonados pelo Estado brasileiro. Quando pensamos na questão de territórios para os povos indígenas, não estamos pedindo um presente. Estamos pedindo algo que sempre foi nosso. Existe uma liderança do meu povo xakriabá que diz que se fosse para demarcar terra, quem tinha de demarcar terra para os outros seríamos nós, e não o contrário. Os povos indígenas não podem ser deixados à margem de um direito que sempre tivemos, como donos do território, e nossa relação com o território vai para além da cerca. O limite da terra indígena para o povo indígena sempre esteve em nossa consciência.

 

4 |  E quais as outras frentes importantes neste momento?

 

A pauta política é uma, porque se é na política que se constituem os direitos é tendo a participação indígena nesses espaços institucionais que vamos mudar. Não dá para não pensar que são os deputados da bancada ruralista que vão decidir o destino dos povos indígenas, reduzindo os territórios, deixando nossas crianças morrerem à beira das estradas, deixando acontecer o aumento do suicídio nos territórios indígenas, que também é motivado pela ausência de perspectiva de vida. A violência que nós, mulheres indígenas, sofremos se dá também pela não presença nesses espaços de poder. Acreditamos que uma pauta prioritária é pôr mais indígena no poder, ocupando lugares estrategicamente importantes para realmente garantirmos, efetivamente, a nossa luta.

 

 

 

 

 

 

5 |  Por que não há uma participação mais efetiva de representantes indígenas nas principais esferas do poder?

 

Se pegarmos o percentual da população brasileira, não chega a 1% o número de indígenas em relação às pesquisas do IBGE.  Ao mesmo tempo, percebo que a população indígena tem um coeficiente de votos menor, o que dificulta nos organizarmos em nossos estados para lançar candidaturas. Isso também é um reflexo da herança de um Congresso Nacional machista e estruturante, que não é feito para permitir a nossa entrada.

 

6 |  Quais são as ações para a luta indígena se efetivar?

 

Existem várias organizações e articulações que têm dado visibilidade às pautas indígenas. A UnB, por exemplo, é um dos locais que têm grande representatividade de jovens, estudantes e ativistas indígenas que, além de resistir, reagem. As professoras e a juventude indígena, que está articulando com suas bases, têm um protagonismo muito importante. É todo um coletivo local e de nível nacional. Todo mundo que está se movimentando faz grande diferença para nossas pautas políticas.

 

 

“Para efetivarmos nossos direitos, temos de ser tratados como parte da formação da sociedade brasileira”

 

 

7 |  E como vocês estão se organizando para avançar ainda mais?

 

Estamos avançando não apenas como movimento indígena, mas também em aliança com outros movimentos sociais, porque acreditamos que os nossos inimigos são os mesmos. Então, precisamos fazer essa articulação de aliança, porque a luta do outro não enfraquece a minha. Os povos quilombolas e as demais camadas sociais têm dialogado muito com os povos indígenas. A nossa estratégia é conversar com essa população. Acredito nesse pensamento de fortalecimento, mesmo nos lugares políticos e de poder. A universidade também é um lugar de poder, pois no nosso contexto, em Minas Gerais, não existe um professor indígena nas universidades, assim como não conheço nenhum professor indígena na UnB.

 

 8 |  Como é a comunicação entre as articulações e os povos indígenas?

 

Hoje, temos alguns canais alternativos e rádios on-line. Estamos tratando esses canais como oficiais para nós, pois muitos indígenas não assistem aos canais convencionais. Temos a Mídia Índia, canais no Facebook, grupos no WhatsApp e cineastas indígenas, que fazem documentários e se comunicam a partir do olhar dessa corporalidade indígena. A câmera tem sido a nossa arma, pois tem dado visibilidade a muitas denúncias. Temos também o “Copiô Parente”, para que, quando sai qualquer medida no Congresso Nacional, ela é transmitida em linguagem mais fácil e acessível.

 (Divulgação )
 

9 |  Quando você percebeu que havia algo de errado e decidiu ir à luta?

Na verdade, meu avô já dizia que havia algo de errado. Meu pai e minha mãe falavam que tinha algo de errado. Costumo dizer que existiu uma luta mais difícil na ditadura, mas que as nossas lideranças da época tinham outro processo de resistência. Na estrutura do Brasil, na década de 1980, não existiam escolas e professores indígenas nos nossos territórios. As escolas indígenas são muito recentes. Foi na década de 1990 que elas começaram a chegar aos territórios. A escola está chegando, mas não como queremos. Como dialogar com essa escola que não está dentro da sala de aula? Foi aí que comecei a pensar e a me dar conta de que precisávamos avançar numa pauta de conhecimento, mas sem matar os processos de produção própria que temos e que são muito férteis.

 

10 |  Qual é sua contribuição como docente pioneira no ensino público?

 

Quero projetar o conhecimento como ferramenta potente de luta. Se a nossa identidade também é uma ferramenta, o conhecimento é a reapropriação desse código, uma estratégia para retornar o conhecimento aos povos indígenas e contribuir com essas pautas de luta. Precisamos disso para discutir de igual para igual. Para isso, o conhecimento dentro da academia me permite acessar esse outro código, que não é fácil, pois não é apenas o limite de uma linguagem, como se fosse uma língua inglesa ou espanhola, por exemplo. Quando traduzimos esses conhecimentos para a nossa realidade, sabemos o que eles estão falando.

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 65 | agosto