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CIDADE | MEIO AMBIENTE »

10 lições que o Fórum Mundial da Água deixou para Brasília

O que a capital federal aprendeu e pode melhorar com os debates e soluções propostas pelo evento

Paloma Oliveto - Publicação:06/06/2018 17:24

Em plena época de racionamento de água, Brasília recebeu o maior encontro mundial sobre a crise hídrica, uma preocupação que, longe de ser local, afeta o mundo inteiro. Em uma semana de março, 6.765 pessoas passaram pelo Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde foram realizadas sessões ordinárias, reuniões de alto nível e painéis, nos quais se discutiram problemas e soluções compartilhadas pelos mais de 101 países presentes no evento. Enquanto ali perto, no Ginásio Mané Garrincha, cerca de 100 mil visitantes participavam das atividades da Vila Cidadã, nas salas de debate do 8º Fórum Mundial da Água, especialistas e formuladores de políticas públicas discutiam medidas de enfrentamento de uma crise que já atinge 3 bilhões pessoas. Um cenário que, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), deve piorar significativamente por volta de 2050, quando 5 bilhões de habitantes – metade da população global estimada para daqui a três décadas – sofrerá com a falta do recurso.

Reservatório do Descoberto, que abastece a capital: cidade recebeu maior encontro mundial sobre a crise hídrica  (Tony Winston/Agência Brasília)
Reservatório do Descoberto, que abastece a capital: cidade recebeu maior encontro mundial sobre a crise hídrica
 

Os debates ocorridos no evento deram origem a importantes publicações, como a Declaração Ministerial, um chamado de ação assinado por ministros de 56 países; a Declaração do Ministério Público sobre o Direito à Água, documento que defende a gestão e a proteção justas dos recursos hídricos; o Manifesto dos Parlamentares, nos quais 134 autoridades de 20 países discorrem sobre a necessidade de os representantes do povo lutarem pela segurança hídrica; e a Declaração de Sustentabilidade, que convida todos os setores da sociedade a se comprometer com o acesso e a qualidade da água.

 

Outra publicação fruto do fórum internacional foi o Chamado para Ação de Governos Locais e Regionais, onde foram listadas cinco recomendações para serem seguidas por municípios, estados e regiões, como planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, proteção de áreas sensíveis e fortalecimento de financiamento de projetos sobre água e saneamento. Como o resto do mundo, Brasília teve a chance de aprender e tirar suas próprias lições.

 

1 | COMBATER AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O mundo todo sofre os efeitos das mudanças climáticas, que, em locais como o DF, já seco (foto), intensificam os períodos de estiagem. Em um painel do fórum, os participantes destacaram que é preciso combater as intervenções humanas que estimulam esse processo em todos os níveis: do municipal ao global. “Estamos testemunhando as mudanças climáticas e elas acontecem cada vez mais fortes. É preciso fazer uma boa gestão para propor soluções viáveis de ligação entre clima e água”, destacou Dogan Altinbilek, vice-presidente do Conselho Mundial da Água.

 (Carlos Silva/CB/DA Press)
 

2 | RECUPERAR A VEGETAÇÃO É ESSENCIAL

O crescimento desordenado da capital é apontado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF como um dos principais responsáveis pela crise hídrica na região. A cidade cresceu pelo menos seis vezes mais do que era planejado e, com a expansão, houve devastação da vegetação e assoreamento dos rios, como Descoberto (foto), que, alvo de captações irregulares, praticamente secou no segundo semestre de 2017. Segundo especialistas presentes em uma sessão do fórum, a recuperação da flora original é essencial para combater esse processo. Takashi Gomi, da Agência Florestal do Japão, contou que o país sofreu os efeitos do desflorestamento e, há 60 anos, adotou uma medida bem-sucedida, reduzindo a extração de madeira. Hoje, o país tem 70% de sua área coberta por florestas. 

 (Arthur Menescal/Esp. CB/DA Press)
 

3 | VOLUNTÁRIOS FAZEM A DIFERENÇA

Os rios que abastecem o DF foram tão afetados pela poluição que dois mananciais, o Melchior (foto) e o Ponte Alta, já não podem mais ser recuperados. Em casos como esses, o voluntariado pode ser um importante aliado do monitoramento das águas. Participantes do projeto Observando os Rios: a Voz da Sociedade, apresentado no fórum, contaram que os voluntários coletam amostras, fazem as medições de qualidade com um kit específico para isso e enviam os resultados pela internet, criando um banco de dados comparativo. Vigiar a água é uma maneira de os cidadãos participarem ativamente da gestão hídrica. “Participar dos grupos de monitoramento e do projeto como um todo possibilita uma imersão nas discussões sobre os problemas e as soluções locais”, contou Romilda Roncai, coordenadora do projeto.

 (Minervino Junior/CB/DA Press)
 

4 | CAPACITAR PARA ECONOMIZAR

O CEO da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF esteve no fórum e ressaltou que é preciso capacitar profissionais de todas as áreas para que aprendam a gerir os recursos hídricos. No painel do qual Paulo Salles participou, foi destacado que o baixo nível de investimentos em treinamentos profissionais se reflete em deficiências na forma com que infraestruturas hídricas e serviços coletivos são gerenciados. “Eu acredito, sim, na educação (foto) para conseguirmos suprir essa carência de água do mundo”, disse.

 (Jorge Cardoso/8º FMA/divulgação )
 

5 | FORMAÇÃO SOCIAL

O DF tem cerca de 400 mil hectares de área rural, onde vivem cerca de 89 mil pessoas. Nessas regiões, como a região agrícola de Taguatinga Norte (foto), a falta de saneamento básico é uma realidade semelhante ao do restante do país, onde a cobertura desses serviços é deficitária fora do espaço urbano. Uma experiência relatada pelo Instituto Federal da Paraíba (IFB-PB) mostrou que a capacitação pode ser parte da solução. No município de Princesa Isabel (PB), as comunidades foram atrás de formação para agricultores familiares, com enfoque em meio ambiente e desenvolvimento rural sustentável. O IFB desenvolveu, então, um projeto de extensão para encontrar soluções para os desafios locais. “Para nós, a contrapartida é a troca de saberes tradicionais e o compartilhamento do conhecimento, bem como a promoção da educação ambiental de forma mais aprofundada”, explicou Artur Lourenço, coordenador do projeto.

 (Jorge Cardoso/8º FMA/Divulgação )
 

6 | ENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE

O brasiliense tem tradição de se mobilizar na defesa de questões ambientais (foto). O envolvimento das comunidades locais para prevenir e mitigar os eventos provocados pelas mudanças climáticas é fundamental na gestão da crise hídrica, defenderam especialistas em uma sessão sobre medidas de adaptação bem-sucedidas. “Muitas vezes, vêm de iniciativas e mobilizações locais as medidas mais bem-sucedidas de adaptação. É importante que as comunidades possam fazer parte da solução, oferecendo tempo, energia e ideias para o desenvolvimento de planos de resiliência e adaptação”, disse o canadense Marc-André Demers, representante da agência da ONU de Gestão Integrada de Recursos Hídricos.

 (Ed Alves/CB/DA Press)
 

7 | AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

Três mil dos 5,7 mil km2 do DF são utilizados para o plantio de produtos agrícolas, como o núcleo rural de Planaltina (foto). No Brasil e no mundo, esse setor é o que mais consome recursos hídricos, por isso, no Fórum Mundial da Água, palestrantes destacaram a importância da agricultura sustentável e o papel da tecnologia para ampliar a produtividade e promover o uso eficiente da água. “Agricultura é para dar emprego e comida aos seres humanos. Se não cuidarmos bem dela, colheremos o mal no futuro”, destacou Christopher Neale, diretor do Instituto Mundial de Água para alimentação da Universidade de Nebraska (EUA).

 (Minervino Junior/CB/Alves  )
 

8 | INVESTIMENTO NOS JOVENS

Em Brasília, 1 em cada 4 habitantes tem de 15 a 29 anos. Os jovens são maioria em diversas regiões do DF, incluindo naquelas de menor poder aquisitivo, como o Varjão, onde 36% da população pertence a essa faixa etária. Em um painel do fórum sobre juventude e água, a cidade aprendeu uma importante lição sobre a educação das crianças e dos jovens (foto) para que eles se tornem agentes de transformação social, buscando melhoria da qualidade e do acesso à água. “Sempre buscamos a inovação participativa. Os jovens vão a campo na vida real para colocar em prática o que foi estudado e treinado”, relatou o egípcio Kareem Hassan, que promove capacitação sobre água, higiene e saneamento básico entre a juventude de seu país.

 (Carlos Vieira/CD/DA Press )
 

9 | REAPROVEITAR É PRECISO

Pode parecer estranho para os brasileiros, que não têm familiaridade com o assunto. Mas a reciclagem da água já é realidade em locais que, como o DF, sofrem com períodos longos de seca. Na capital, inclusive, algumas empresas já reaproveitam água para limpeza (foto). Em São Francisco, na Califórnia (EUA), a prefeitura aposta em tecnologia para reaproveitar a água usada. Depois de filtrada, ela retorna para irrigar parques e limpar as ruas da cidade. Durante um painel sobre o assunto, o vice-presidente da Associação Internacional de Resíduos Sólidos, Luís Marinheiro, destacou que a prática tem de se tornar comum em todo o mundo: “A escassez de água se tornará mais severa no futuro”.

 (Antônio Cunha/CB/DA Press  )
 

10 | INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA

O setor industrial (foto) responde por 10,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Distrito Federal. No mundo, 22% do total da água consumida vai para a atividade das indústrias. No Brasil, nada menos que 78 metros cúbicos de água por segundo são utilizados pelas fábricas. Durante o 8º Fórum Mundial da Água, Orson Ledezma, CEO da Ecolab, alertou para a necessidade de o setor investir em inovação e infraestrutura para desenvolver processos ambientalmente adequados, que estejam de acordo com a otimização do uso dos recursos hídricos. “As indústrias têm de identificar em suas operações quais os riscos associados ao uso da água. A tecnologia existe tanto para identificar os riscos como para desenvolver as soluções”, disse Ledezma.

 (Kléber Lima/CB/DA Press)
 

 

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EDIÇÃO 63 | maio 2018