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ENTREVISTA | OGNEV COSAC »

Novo presidente da Associação Médica de Brasília fala sobre problemas da área no DF e no Brasil

Cirurgião plástico Ognev Cosac critica o SUS por investir milhões de reais em práticas integrativas enquanto os hospitais públicos sofrem com a falta de verbas

Paloma Oliveto - Publicação:07/06/2018 13:08Atualização:07/06/2018 14:03

Em 1969, o goiano Ognev Cosac saiu de Cristalina, a 130 km de Brasília, para cursar o ensino médio na capital. Daqui, não saiu mais. Formado em medicina pela Universidade de Brasília (UnB), especializou-se em cirurgia plástica e hoje, aos 64 anos, nem pensa em aposentar o bisturi. Além de atender no consultório particular, ele participa de mutirões filantrópicos de cirurgia reparadora em vários estados brasileiros. Em setembro do ano passado, Cosac assumiu mais um compromisso: a presidência da Associação Médica de Brasília (AMBr), federada da Associação Médica Brasileira (AMB), um órgão que tem como principal objetivo a defesa da classe médica.

 

Brasília tem cerca de 15 mil médicos ativos, um número que Cosac acha mais do que suficiente. Porém, considera grave a distribuição dos profissionais na rede pública. Há concentração no Plano Piloto, enquanto muitas regiões administrativas sofrem com a falta de algumas especialidades, como pediatras. À frente da AMBr até 2020, ele pretende aproximar mais os profissionais da população: “A relação da classe médica com a sociedade poderia ser melhor, principalmente na linha de frente do atendimento médico nos hospitais primários”, reconhece o médico.

 

Um problema que Cosac pretende enfrentar durante sua gestão é a falta de consulta à classe médica quando são elaboradas leis que envolvem a saúde. De acordo com ele, projetos que ampliam práticas antes restritas à medicina a outras profissões, como dentistas e fisioterapeutas, prejudicam os médicos e a população. O presidente da AMBr lamenta que a entidade seja pouco ouvida. “A classe médica acaba tendo de correr atrás do prejuízo, quando poderia participar da elaboração dos projetos de lei de forma mais proativa.”

QUEM É: OGNEV COSAC, 64 ANOS
ORIGEM: Cristalina (GO)
FORMAÇÃO: Graduado em medicina pela Universidade de Brasília (UnB), residência em cirurgia plástica no Hospital das Forças Armadas
CARREIRA: Presidente da Associação Médica de Brasília. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Membro da Sociedade Brasileira de Mastologia, Membro efetivo da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Federal de Medicina (CFM)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É: OGNEV COSAC, 64 ANOS

ORIGEM: Cristalina (GO)

FORMAÇÃO: Graduado em medicina pela Universidade de Brasília (UnB), residência em cirurgia plástica no Hospital das Forças Armadas

CARREIRA: Presidente da Associação Médica de Brasília. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Membro da Sociedade Brasileira de Mastologia, Membro efetivo da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Federal de Medicina (CFM)
 

ENCONTRO BRASÍLIA – O que o sr. pretende fazer na sua gestão?

OGNEV COSAC – O propósito do nosso grupo, que é composto por 28 médicos, é o de fazer uma gestão priorizando a transparência da atuação administrativo-financeira da AMBr, a defesa da atividade médica junto aos órgãos diversos – principalmente ministeriais, Câmara dos Deputados e Câmara Legislativa –, tudo isso objetivando um melhor atendimento médico à população. Temos um programa de educação continuada que já começou, uma programação de treinamentos e capacitação não só dos médicos, mas de funcionários de consultórios e clínicas. Também temos otimização do nosso espaço, principalmente para concessão de atividades científicas, além das atividades sociais tradicionais. Também vamos criar o braço social da AMBr, com objetivo de levar assistência médica especializada, feita por associados voluntários aposentados, a sociedades carentes, que tratam de idosos, crianças e pessoas com doenças determinadas. Há possibilidade de começarmos ainda neste ano.

 

Como se dará a defesa da atividade médica no Congresso Nacional e na Câmara Legislativa?

Queremos, principalmente, acompanhar todos os projetos que fizerem menção à atividade médica e de saúde. Percebemos que em muitos projetos de lei formulados na Câmara Legislativa a classe médica não é ouvida, e precisamos tentar chegar a esses projetos na fase de formulação, para opinar sobre eles. Em nível nacional, tivemos, recentemente, no Congresso Nacional o veto de vários itens do Ato Médico (lei que regulamenta o trabalho do médico), que estão prejudicando muito a população e a classe médica, porque abriu espaço para pessoas que não têm formação nem capacitação médica exercerem a medicina. Dentistas, fisioterapeutas, farmacêuticos, enfermeiros estão invadindo a medicina e colocando a população em risco. Deveria haver uma união da classe médica para acompanhar essas leis na fase de formulação, porque depois da aprovação fica mais difícil.

 

Recententemente, o Ministério da Saúde anunciou a inclusão de terapias alternativas, como florais e aromaterapia, no Sistema Único de Saúde. Qual é o posicionamento da AMBr a respeito?

Temos uma visão bastante crítica desse assunto, porque aquilo que não tem respaldo científico não traz ganho para a população, a não ser no nível mais psicológico e emocional. Se o paciente realmente estiver precisando de um tratamento médico, esses tratamentos alternativos não vão resolver. A medicina é baseada em evidência, em literatura médica mundial, em pesquisas científicas. Muitos desses investimentos que estão sendo adotados pelo SUS vão acabar sendo desviados da atenção básica de saúde, beneficiando áreas sem respaldo científico.

 

Em relação à saúde pública, falta recurso ou falta aplicação correta do investimento?

Faltam as duas coisas. Os recursos são muito mal distribuídos e mal direcionados. A gestão hospitalar, principalmente na administração municipal, perde muito medicamento, material, recursos humanos, por falta de uma gestão bem planejada, eficiente. Faltam recursos, principalmente, na área de alta tecnologia. São equipamentos de preço muito alto, o governo demora muito para direcionar recurso para essa área e, quando chegam, já estão ultrapassados. Observamos muito – e aqui em Brasília, com frequência – equipamentos de alto custo encaixotados nos corredores dos hospitais há vários anos.

'Os hospitais estão muito sucateados e não há como reabilitá-los de uma hora pra outra', diz Cosac (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"Os hospitais estão muito sucateados e não há como reabilitá-los de uma hora pra outra", diz Cosac
 

A AMBr tem sido ouvida pelos governos do DF sobre a gestão da saúde?

Não. Nós é que temos de provocar a participação. Quando acontecem as audiências públicas, a convocação vem em cima da hora. A orientação médica para essa elaboração [de gestão] é bastante profícua e promissora. Mas, recentemente, fomos procurados pelo secretário de Saúde [Humberto Lucena] para conversarmos sobre o Instituto Hospital de Base. Fizemos duas reuniões para falar a esse respeito. Nós nos colocamos à disposição para ajudar de alguma forma na elaboração de projetos como esse, que o governo decide de uma hora para outra, e acaba a classe médica correndo atrás do prejuízo, em vez de ter participado antes de forma mais proativa.

 

Existe um posicionamento oficial da AMBr sobre o Instituto Hospital de Base?

Não existe. É uma coisa muito recente, então a associação não tem opinião formada a respeito. Estamos oferecendo a abertura de um diálogo entre a Secretaria de Saúde e a classe médica aqui, dentro da AMBr, para fazer um simpósio ou seminário, algo nesse sentido, para que haja uma discussão ampla e vermos onde a classe médica pode colaborar com o GDF para otimizar esse projeto. É um projeto-piloto que, se der certo, será expandido para outros hospitais. A classe médica está dividida, alguns veem com bons olhos e outros, não. Sabemos que cada hospital tem uma realidade diferente e, como o instituto ainda está em fase experimental, não temos ainda uma opinião formada e concreta.

 

O número de médicos em Brasília é suficiente?

Sim, acho suficiente. Se for comparar com o restante do Brasil, a densidade de médicos por habitante em Brasília é bastante significativa. Agora, tem uma distribuição que nem sempre atende a população, especialmente na rede pública. Por questões salariais e diversas, temos falta de médicos em vários hospitais, principalmente em algumas especialidades. Temos falta de anestesistas e pediatras na rede pública, por exemplo, então algumas especialidades deixam a desejar. Não é só por uma questão salarial. O salário muitas vezes não atrai, às vezes a atividade privada dá mais renda, mas o problema também são as condições de trabalho, a falta de estrutura de diagnóstico, de apoio, de um suporte à atividade médica. Vemos muitas agressões a médicos; vemos muita gente que não quer trabalhar na rede pública por medo, para não se sujeitar a ficar na linha de frente de um hospital cheio de problemas, e problemas que não são médicos.

 

Neste ano, temos eleições gerais. O que os próximos governos devem priorizar na saúde?

Estamos em um ano de muita decisão política, passando por uma crise moral, e a saúde não deixa de estar envolvida e prejudicada. As eleições que vêm são cruciais. Penso que é necessário fazer uma reforma não só na estrutura de recursos humanos, mas na estrutura física dos hospitais. Eles estão muito sucateados e não há como reabilitá-los de um dia para o outro. A estrutura de atendimento dos hospitais está cheia de vícios. Temos uma terceirização muito forte dentro da Secretaria de Saúde do DF, que consome muito dinheiro e, por força contratual, acaba desviando verbas que eram para ser aplicadas com melhor resultado para a população. É uma reforma bastante densa e concreta, que tem de ser muito planejada e discutida com a classe médica, para que esse planejamento tenha efetividade no futuro e para que a execução dele não se perca com implantações de coisas improdutivas, atos que vão consumir dinheiro sem trazer benefícios.

'Todos os postos de saúde, todas as UPAS e hospitais estão lotados, e isso joga a população contra o médico', explica Cosac (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"Todos os postos de saúde, todas as UPAS e hospitais estão lotados, e isso joga a população contra o médico", explica Cosac
 

Falta aproximação maior entre médicos e sociedade?

A relação da classe médica com a sociedade poderia ser melhor, principalmente na linha de frente do atendimento médico nos hospitais primários. O novo projeto do governo prevê o atendimento básico da saúde, que é o da prevenção, da saúde da família. Em longo prazo, isso traz uma esperança muito grande porque desonera os hospitais, tira um pouco de atendimento dos postos de saúde e consequentemente dos hospitais primários, secundários e terciários. Todos eles estão superlotados, com áreas subutilizadas e outras hiperutilizadas e superlotadas, como as emergências, que tinham de ser mais humanizadas. Hoje, é um atendimento de corredor, que chega a ser desumano, por falta de uma estrutura adequada. Todos os postos de saúde, todas as UPAs [Unidades de Pronto Atendimento] e hospitais estão lotados, e isso joga a população contra o médico. Vemos esse problema refletindo até mesmo no atendimento da saúde suplementar: já está havendo conflito entre médicos e a própria população dessa faixa econômica. Os convênios demoram muito para realizar um atendimento emergencial, às vezes negam tratamentos essenciais para o paciente. À medida que vai aumentando o número de usuários dos planos de saúde, isso alivia um pouco o atendimento na saúde pública, mas, por outro lado, vai criando problemas nessa classe que utiliza os planos de saúde. Percebemos também uma atuação do Legislativo no sentido de beneficiar muito os planos de saúde em detrimento do usuário que necessita deles.

 

Os planos de saúde desvalorizam o trabalho do médico?

Os planos usam um termo para fazer reajuste das mensalidades, o “custo médico”, que é uma denominação errada. O médico não recebe aumento significativo na sua remuneração há cerca de 10 anos. Existe uma defasagem de cerca de 500% no pagamento dos honorários médicos, na última década. Os reajustes da mensalidade são muito altos, mas nunca por causa do atendimento médico. E isso é erroneamente denominado de “custo médico”. Então, é algo que não deixa de trazer conflitos entre classe médica, agências de saúde e Agência Nacional de Saúde Suplementar [ANS], que regulamenta o setor. Essa regulamentação, muitas vezes, vem por leis aprovadas no Congresso, também sem consultar a classe médica.

 

O sr. acha que há muitas faculdades de medicina?

Nem o DF nem o Brasil precisam de mais faculdades, principalmente nos moldes das últimas que foram implantadas. Achamos que essas faculdades têm uma formação incompleta, são feitas mais com a visão empresarial. Percebemos uma atrofia nas faculdades de medicina federais, enquanto as particulares estão crescendo. Existe um aumento desenfreado nessas faculdades que não têm estrutura para formação. Seu corpo de professores muitas vezes é incompleto. A AMB está estudando um processo de avaliação dessas faculdades e até mesmo da formação do médico. Estamos estudando a possibilidade de ele passar por um exame de proficiência para validar sua formação, como o exame da Ordem dos Advogados do Brasil [OAB], para que possamos influenciar na qualidade dessa formação. Particularmente no DF, que é uma cidade com renda per capita muito alta, não encontramos essa dificuldade. As faculdades aqui têm corpo docente bastante qualificado, mas o DF é uma particularidade, não o retrato do restante do país.

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EDIÇÃO 63 | maio 2018