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CULTURA | ARTES CÊNICAS »

Grupos mantêm a tradição de circo e investem em aulas e oficinas

A arte circense se reinventa na capital: escolas da cidade levam as práticas para a sala de aula e as crianças aprendem brincando

Isabella de Andrade - Publicação:18/06/2018 16:33Atualização:18/06/2018 17:28

Prática artística milenar, o circo reúne tradição e inovação entre ruas, praças, lonas, teatros e escolas. Pelas mãos resistentes e criativas de seus artistas, a arte circense se renova e sobrevive através do tempo, transitando entre novas e antigas gerações. No Distrito Federal, escolas e grupos especializados mantêm a produção artística em constante circulação. As fitas, acrobacias, tecidos e malabares se expandem para novos espaços e passam a fazer parte do desenvolvimento físico, intelectual e social de crianças e adolescentes. A linguagem dos picadeiros se atualiza e, constantemente, ganha novos formatos.

 

Em comum, grupos e companhias da cidade guardam a capacidade de resistir ao tempo, espalhar as tradições e inovar através da criação própria. Entre espetáculos, aulas, oficinas, lonas e ruas, a arte se reinventa e cria um diálogo eficiente com gerações diversas. O que se percebe é que a arte circense é flexível e original para se adaptar com facilidade às transformações do tempo e manter viva a força do circo em todo e qualquer canto que ele possa alcançar. É o que destaca Ankomárcio Saúde, integrante da dupla Irmãos Saúde, ao lado do irmão Ruiberdan, criadores do circo Artetude, um dos mais tradicionais de Brasília. O artista conta que uma das características mais fortes de seus espetáculos é a mistura de linguagens artísticas. Números musicais e hip-hop se misturam às atrações mais tradicionais, como manobras acrobáticas e malabares.

 

As apresentações buscam dialogar com novas tecnologias e levar sempre novidade para a cena, atraindo o público mais jovem. “Em nosso discurso, nós nos preocupamos em construir um diálogo com as questões locais e com o momento político que o país vive. Levamos para a cena temas que estão em debate na sociedade”, afirma o artista. No ônibus do grupo, claves de luz e uma tela de cinema completam o colorido cenário. Ankomárcio lembra que a principal missão do Artetude é alcançar os lugares mais distantes com a produção circense: “Fomos criados em uma cidade-satélite que não tinha nenhum teatro. Por esse motivo, trabalhamos com o ônibus, que nos permite ir aos lugares mais distantes”, destaca.

 

A trupe já teve a oportunidade de se apresentar em todos os estados do país e em alguns deles se aventurou pelo interior e por pequenas cidades. O principal objetivo com esse trabalho é o de descentralizar a cultura e mostrar que o circo pode ser um instrumento eficaz de aprendizado e reflexão. “Utilizamos o circo como pano de fundo para discutir questões sociais, políticas e de violência”, diz.

Ankomárcio e Ruiberdan Saúde formam a dupla Irmãos Saúde, que mantém a tradição da arte e a incrementa com novos números: a principal missão do Artetude é alcançar os lugares mais distantes 
com a produção circense (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Ankomárcio e Ruiberdan Saúde formam a dupla Irmãos Saúde, que mantém a tradição da arte e a incrementa com novos números: a principal missão do Artetude é alcançar os lugares mais distantes com a produção circense

O artista destaca que, atualmente, a atividade circense ocupa espaços antes não imaginados, como escolas, academias, cinema e televisão. A ampliação dos espaços permite que um público maior e mais diversificado tenha acesso a essa produção e possa se aventurar no picadeiro, mesmo que de maneira não profissional. As aulas de circo, segundo Ankomárcio, firmam-se como um exercício físico lúdico e promovem outras formas de aprendizado, como o social, a capacidade de superação e a persistência. “O circo pode ir a todos os lugares, mesmo que eles não abriguem lonas ou espaços específicos de teatro. Ele chega às novas gerações dessa maneira, mantendo as lonas tradicionais e expandindo sua atuação para novos locais”, destaca o criador do Artetude.

 

Alunos de todas as idades, gêneros e biotipos podem iniciar a prática, que se apresenta em inúmeras possibilidades e estilos. Ankomárcio destaca ainda que a participação em aulas de circo pode ajudar no desenvolvimento físico, além de melhorar força, equilíbrio, flexibilidade. Além dos benefícios para o corpo, o circo desenvolve outros aspectos: socialização, resistência, capacidade de superação. Ele contribui para que as pessoas compreendam as potências e fragilidades do outro. No picadeiro, alguns serão representantes da força, outros da flexibilidade.

 

O artista acredita que, quando uma criança desenvolve sua flexibilidade física, por exemplo, ela amplia também a sua flexibilidade psicológica, expandindo seus horizontes. “Acho que essa atividade deveria fazer parte do currículo escolar, para que as crianças possam desenvolver mais cedo o seu corpo e a sua mente. Quando uma criança se equilibra em uma corda viva, ela também exercita o equilibrar-se na sua vida, na tomada de decisões. É uma atividade riquíssima para o ser humano”, afirma o Irmão Saúde.

Os integrantes da Escola de Circo Instrumento de Ver (da esq. para a dir.) Daniel Lacourt, Isabela Levi, 
Júlia Henning, Beatrice Martins, Filipe Ramos, Maira Moraes e Vinicius Martins: 15 anos de história (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Os integrantes da Escola de Circo Instrumento de Ver (da esq. para a dir.) Daniel Lacourt, Isabela Levi, Júlia Henning, Beatrice Martins, Filipe Ramos, Maira Moraes e Vinicius Martins: 15 anos de história

É o que acontece na escola Le Petit Galois, em Águas Claras, que tem aulas circenses desde a sua inauguração. Uma vez por semana, o pátio da instituição se transforma em picadeiro para receber os alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. O objetivo é despertar a criatividade, a coletividade e o autoconhecimento nos estudantes, envolvendo os aspectos cultural, educacional e esportivo. A diretora pedagógica, Juliana Batista Tôrres, conta que as aulas são realizadas com crianças de 6 a 10 anos e buscam colaborar para a formação integral dos alunos. “As crianças aprendem brincando, e tem espaço para todo mundo na brincadeira. Além de manusear objetos, há o lado mais teatral do circo, em que as crianças são estimuladas com desafios recreativos”, destaca a diretora do Galois. É uma arte que não envolve competição, como nas modalidades esportivas, mas que contribui para o desenvolvimento do aluno como cidadão, ao promover a socialização e o trabalho em equipe.

 

Outro importante nome da resistência circense em Brasília é a Trupe de Argonautas, que une teatro e dança contemporânea a técnicas clássicas de circo, como acrobacia, lira, tecido acrobático e trapézio. Pedro Martins, um dos integrantes da trupe, conta que muitas vezes uma movimentação mais tradicional recebe uma roupagem contemporânea, através do figurino, da iluminação, da música, da inserção de um texto teatral, além da interpretação própria de técnicas circenses. A mistura de linguagens em cena contribui para alcançar um público maior e expandir as possibilidades da arte circense. “Técnicas de tecido acrobático, por exemplo, são realizadas em plásticos e correntes. Um duo de trapézio tem os papéis invertidos, em que a mulher porta o homem. Outra questão importante foi desenvolver dramaturgias teatrais para um espetáculo que una as técnicas circenses, música, a dança e teatro”, diz Pedro.

 

Após 13 anos de trabalho, o foco do grupo saiu da criação de espetáculos somente e se expandiu para a pesquisa de linguagem estética, para o ensino das artes circenses e a criação de espetáculos híbridos entre circo, teatro e dança. Além disso, a trupe produz material didático e fotos artísticas. “Creio que no imaginário das novas gerações o circo sempre será mágico, o lugar do incomum, do virtuoso, do risco. Um lugar para sonhar que tudo é possível, ou onde o impossível pode acontecer”, afirma Pedro.

Guilherme Bruno, Willy Costa (à frente), Paula Sallas, João Porto e Stephanie Marques (atrás), na Escola de Circo Galpão do Riso: Além de espetáculos, grupo Nutra promove cursos de técnicas circenses e de linguagem do palhaço para jovens e profissionais (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Guilherme Bruno, Willy Costa (à frente), Paula Sallas, João Porto e Stephanie Marques (atrás), na Escola de Circo Galpão do Riso: Além de espetáculos, grupo Nutra promove cursos de técnicas circenses e de linguagem do palhaço para jovens e profissionais
 

O artista destaca ainda que o espaço ocupado pelo circo nas cidades também se modificou com o tempo, chegando aos shoppings, às escolas e oficinas em comunidades, aproximando ainda mais a arte circense do imaginário popular. Além de atuar na trupe, Pedro trabalha como professor de aulas de circo no colégio Seriös e conta que esse espaço é destinado a executar elementos do circo na grade regular de ensino, em forma de treinamento, brincadeiras e princípios. “Não nos preocupamos, na escola, com a formação técnica de artistas, mas, sim, de cidadãos expressivos.”

 

Em relação aos benefícios da atividade circense no espaço escolar, Pedro explica que são muitos: os aspectos motores, a relação com o jogo simbólico, a descoberta e aceitação da própria imagem corporal, a criação e reconhecimento de valores comuns, a sensação de pertencimento em relação a um grupo, desenvolvimento da persistência, da insistência, da resiliência, do trabalho colaborativo, da confiança mútua. Além disso, a resistência em espaços de ensino colabora ainda mais para que essa arte milenar se perpetue entre as novas gerações.

 

Para João Porto, que integra o grupo Nutra, no espaço Galpão do Riso, a linguagem do palhaço é uma das grandes possibilidades que contribui para que a magia do circo chegue aos novos espectadores. Para ele, essa é uma linguagem tão acessível quanto era em séculos passados. Esse contato com o universo circense faria parte do imaginário de nossa infância. Além do trabalho voltado para a infância, o Nutra funciona como um laboratório de pesquisa do ator e tudo que envolve a sua atividade em cena. “Buscamos nas técnicas circenses preparação, treinamento e desenvolvimento de aptidões. Somos um grupo que se dedica ao estudo do corpo em situação cênica”, conta João.

Dara Audazi, Thiago Enoque, Luciano Czar, Pedro Martins(no chão), Marley Medeiros, Ana Sofia Lamas, Cyntia 
Carla e Drisana Alarcão (no alto) compõem a Trupe de Argonautas: teatro e dança contemporânea 
somados a técnicas clássicas de circo (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Dara Audazi, Thiago Enoque, Luciano Czar, Pedro Martins(no chão), Marley Medeiros, Ana Sofia Lamas, Cyntia Carla e Drisana Alarcão (no alto) compõem a Trupe de Argonautas: teatro e dança contemporânea somados a técnicas clássicas de circo
 

O ator diz que todos os exercícios e técnicas circenses trabalham o corpo, compreendendo coordenação motora, tônus muscular, equilíbrio e outros fatores psíquicos como as conquistas e desafios que essa arte proporciona. Para ele, a própria prática constante conduz à inovação dos processos criativos, com o estudo das tradições e aprendizado de novas técnicas. O Nutra foi fundado em 2006 e, além da apresentação de espetáculos, oferece cursos de técnicas circenses e da linguagem do palhaço para jovens e profissionais que desejam se aprofundar na linguagem do palhaço. “O circo continua vivo. O que enxergamos é uma transformação no modo como ele transparece. Ele muda para resistir. É uma arte que encanta, é riso e comunhão, por isso ele resiste”, afirma o artista.

 

Já a companhia Instrumento de Ver, que comemorou 15 anos de atividades em 2017, atua em diferentes frentes com a arte circense: apresentação de espetáculos, formação de artistas, aulas para o público em geral, eventos e confecção de aparelhos de circo. A artista Julia Henning é integrante do grupo e conta que procuram se apresentar em espaços diferentes e alternativos para alcançar um público mais diverso, passando por parques, lonas, ruas e até cervejarias. “O circo é muito plural e tem uma característica forte de diversidade. Ele se mistura com a contemporaneidade, com as novas formas de estar na cidade, e os artistas se adaptam”, diz.

 

Para ela, que trabalha principalmente com acrobacias aéreas, a arte circense é resistente às mudanças da sociedade e está pronta para absorver cada transformação. A acrobata lembra que é uma linguagem artística importante, que utiliza de maneira forte os elementos humanos em cena e fala da tensão, do equilíbrio e desequilíbrio, da superação de limites do corpo. “O circo coloca coisas distintas no mesmo espaço. Ele se influencia e dialoga muito com outras linguagens, com a dança, o teatro, as artes visuais. Essas trocas acompanham o tempo”, lembra Júlia.

Alunos do Le Petit Galois têm aulas de circo: atividade serve para estimular 
as crianças por meio 
de desafios recreativos (Paulo Henrique/Divulgação )
Alunos do Le Petit Galois têm aulas de circo: atividade serve para estimular as crianças por meio de desafios recreativos
 

PARA FORMAR ARTISTAS

 

Grupos de Brasília oferecem cursos para quem quer aprender técnicas circenses

 

èINSTRUMENTO DE VER

A companhia oferece aulas regulares de acrobacia no chão e no ar, alongamento e flexibilidade, parkour e truques aéreos em tecido. As aulas acontecem em diferentes dias da semana.

Os preços mensais variam entre R$ 180 e R$ 200

Informações: www.instrumentodever.com

 

èTRUPES DE ARGONAUTAS

Aulas de circo para jovens e adultos de 18 a 50 anos Às terças e quintas, das 20h às 22h.

O valor mensal é de R$ 220 e aulas avulsas custam R$ 40

Informações: www.facebook.com/trupe.argonautas/

 

èGALPÃO DO RISO

O espaço conta com oficinas de interpretação e prática clownesca

Informações: www.nutrateatro.com/

 

èCIRCO ARTETUDE

Oferece oficinas e workshops pontuais de atividades circenses Projeto caravana Artetude

Informações: www.facebook.com/circo.artetude

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EDIÇÃO 64 | ESPECIAL