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"Suicídio é uma emergência médica"

Diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria e coordenador da campanha de prevenção Setembro Amarelo, médico alerta para a necessidade de tratar o assunto com mais seriedade e preparo

Paloma Oliveto - Publicação:17/09/2018 16:51Atualização:17/09/2018 17:13

Por muito tempo, fez-se silêncio sobre o suicídio. O aumento do número de casos, que chegam a 800 mil por ano em todo o mundo, porém, indica que é preciso acabar com esse pacto social de ignorar o tema, como se ele não existisse. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que a taxa de mortes autoprovocadas em 100 mil passou de 5,3 em 2011 para 5,7 em 2015. O país conhecido pela alegria foi desmascarado. Por trás de uma pseudoanimação contagiante, existe uma nação deprimida, ansiosa e com outros transtornos mentais intimamente associados à ideação suicida.

 

Para o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, que por diversas vezes ocupou a presidência da Associação Brasileira de Psiquiatria e é diretor da entidade, a prevenção do ato é prejudicada pelo preconceito. Isso porque as pesquisas mostram que praticamente 100% das pessoas que se suicidaram tinham diagnóstico de alguma doença mental, como depressão. Contudo, assumir o problema ainda é custoso para muita gente, devido ao estigma construído em torno das enfermidades que atingem a mente. Assim, mortes prematuras que poderiam ser evitadas continuam acontecendo por falta de tratamento adequado.

 

Coordenador da campanha de prevenção Setembro Amarelo, Antônio Geraldo da Silva insiste na necessidade de se tratar o suicídio como uma emergência médica: de acordo com ele, assim como uma fratura exige o atendimento especializado imediato, o paciente com concepções suicidas precisa ser encaminhado ao pronto-socorro e, depois, ao tratamento psiquiátrico e psicológico adequado. Uma forte crítica do diretor da ABP refere-se ao que ele considera falta de políticas do Ministério da Saúde, tanto preventivas quanto de acompanhamento de pessoas que tentaram suicídio e familiares daqueles que tiraram a própria vida.

 

Embora reconheça a necessidade de se discutir o tema, o psiquiatra alerta que é preciso falar da maneira correta. Para ele, a primeira temporada da polêmica série da Netflix, 13 Reasons Why, que aborda o suicídio entre adolescentes, falhou ao jogar na tela um assunto tão complexo sem os cuidados devidos. Já para a segunda temporada, a plataforma de streaming incluiu um manual assinado por Antônio Geraldo da Silva, que ensina como assistir ao seriado. “São temas fortíssimos, que não podem ser abordados sem um adulto por perto”, observa ele nesta entrevista a Encontro Brasília.

QUEM É 
Antônio Geraldo 
da Silva, 54 anos
 

ORIGEM
 
Grão Mogol (MG) 


FORMAÇÃO 
Graduado em medicina pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), residência 
em psiquiatria pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) 


CARREIRA

 Diretor da Associação Brasileira 
de Psiquiatria (ABP). Coordenador 
da campanha de prevenção 
ao suicídio Setembro Amarelo (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É
Antônio Geraldo da Silva, 54 anos

ORIGEM
Grão Mogol (MG)
FORMAÇÃO
Graduado em medicina pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), residência em psiquiatria pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB)
CARREIRA
Diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Coordenador da campanha de prevenção ao suicídio Setembro Amarelo
 

ANTÔNIO GERALDO DA SILVA – O número de casos de suicídio está aumentando no Brasil?

ENCONTRO BRASÍLIA – O Brasil está na contramão do que está acontecendo em países com o mesmo perfil socioeconômico. Enquanto os outros estão trabalhando para diminuir os índices e conseguindo diminuí-los, nossos casos estão aumentando. Podemos relacionar isso a vários fatores: questões de políticas públicas de saúde, políticas em relação a álcool e drogas, política financeira... Ainda temos de levar em consideração que não temos uma estatística confiável. Sabemos que os índices estão aumentando, mas eles ainda não aparecem em números reais. Isso é fácil de comprovar. Muita gente que entra na estatística como atropelamento, na verdade se jogou em frente a um carro. Outras entram como intoxicação e não foi intoxicação: a pessoa realmente tomou uma quantidade de veneno ou medicamentos para se suicidar. Temos uma portaria antiga do Ministério da Saúde que fala que a tentativa de suicídio é de notificação compulsória, mas nenhuma instituição da rede faz essa notificação. Se você perguntar a algum profissional de saúde se ele fez essa notificação, vai ver que nenhum deles notifica.

 

Ao que se deve isso? Ao tabu com o suicídio?

São vários fatores. Primeiro, sequer temos a guia de notificação. E não temos, também, nada no pós-evento do suicídio. É como se, para o Estado, não existissem nem as pessoas que tentaram suicídio nem as que se suicidaram. Tanto que, não existe a abordagem para o suicida nem para os sobreviventes, incluindo a família de quem se suicidou. Então, fazer a notificação para quê? O que isso vai mudar, qual a conduta será tomada? Isso, por si, já é um desestímulo para que os profissionais de saúde envolvidos façam as notificações.

 

Falta formação para o profissional de saúde sobre o suicídio?

No Brasil, temos, hoje, mais de 300 faculdades de medicina, espalhadas pelo país. Isso é mais o que se tem na China, nos Estados Unidos, nos países mais populosos do mundo. Nós criamos uma fábrica de dinheiro para os donos de empresas de ensino, pagos por nós, por meio do financiamento público disso. Temos faculdades de medicina, hoje, nas quais o aluno passa o curso inteiro sem ter uma aula com psiquiatra. Como é que vai aprender os aspectos psiquiátricos dessa forma? O curso que temos de três meses e meio de psiquiatria fica muito aquém do que seria necessário. Se vai na psicologia, é pior ainda. O tempo de formação é muito menor, a maioria dos estudantes aprende muito mais ideologia do que a ciência necessária para entender como é a doença, como deve ser a abordagem da doença. A formação da enfermagem psiquiátrica é mínima. O que há, hoje, quando você vai a um pronto-socorro é o preconceito. Profissionais que pensam “Poxa, estamos aqui trabalhando e temos de atender quem tentou suicídio? Que morra, que deixe morre!”. É assim que é a abordagem em geral. As pessoas não têm paciência para o suicida, porque não aprenderam isso na escola. O papel que fazemos, atualmente, é levar essa conscientização às pessoas, tanto as da área de saúde quanto as de fora dessa área, como os jornalistas, por exemplo.

 

Na imprensa, o suicídio foi um tema considerado proibido por muito tempo. Esse silêncio é prejudicial?

A razão pela qual os editores baniram o suicídio do noticiário foi a preocupação de não ter jornalistas preparados para lidar com o tema. Mas, ainda tem o lado do editor que queria publicar desgraça, porque isso vende. Então, tínhamos os dois lados. Hoje, temos muitos bons jornalistas que sabem abordar criticamente os temas da área de saúde. O problema é que ainda há grupos que o abordam de forma sensacionalista, indicando os locais e a forma como as pessoas se suicidaram, publicando fotos... Isso é muito errado, você está induzindo a pessoa, que já está fragilizada, podendo até levar a pessoa a repetir o ato.

'No momento atual, temos ausência da família em casa. Aumentamos os fatores desencadeadores do suicídio e diminuímos os protetores', diz Antônio Geraldo (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"No momento atual, temos ausência da família em casa. Aumentamos os fatores desencadeadores do suicídio e diminuímos os protetores", diz Antônio Geraldo
 

Existe uma resistência das pessoas de encarar o suicídio como uma questão de saúde mental?

Existe. Suicídio é uma emergência médica. Essa é a minha campanha deste ano no Setembro Amarelo, inclusive. Se alguém cai e torce o pé, liga para você dizendo que não aguenta nem pisar no chão. E o que você fala? Para procurar o médico. Se alguém liga dizendo que caiu algo no olho e está doendo muito, o que você diz? Para procurar o médico. Cem por cento de quem se suicida têm transtorno mental. O maior estudo já feito no mundo mostrou que em 96,8% dos casos de suicídio foi achado um diagnóstico no prontuário da pessoa. Os outros 3,2% só não podem ser provados por falta de prontuário. Se temos conhecimento de que 100% das pessoas que se suicidam têm transtorno mental, não adianta ligar para voluntários só para conversar [para evitar a morte]. Não se faz isso quando uma pessoa está tendo um infarto, nesse caso chamamos o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência].

 

Muitas pessoas associam o doente mental à figura do louco. O que é a doença mental?

Vou fazer um contraponto com a dor de cabeça. Você tem uma dorzinha de cabeça, toma um remédio e passa. Ou não passa, aí você tem de parar no pronto-socorro. Chega lá, pode ser medicado e voltar para casa, ou ser internado. Se você for internado, pode passar dois dias lá e voltar para casa ou ter de ir para uma enfermaria e parar numa UTI. Porque pode ter sido desde uma dor de cabeça boba a uma dor de cabeça causada por uma hipertensão arterial grave, ou uma mais grave ainda, se foi o rompimento de um aneurisma, por exemplo. A doença mental também é assim. Temos doenças mentais, como depressão leve, que nem precisam de medicamento. A pessoa vai fazer uma terapia comportamental cognitiva e tudo bem. Temos dessa doença mental leve até a da internação psiquiátrica, às vezes até com necessidade de fazer uma eletroconvulsoterapia. Quantos ex-presidentes, músicos, jornalistas, artistas, tratam de doença mental? Qual o problema disso? Nenhum. Nada justifica o preconceito. Tenho uma doença e preciso ser tratado como alguém que tem uma doença, sem preconceitos.

 

Como lidar com o preconceito?

Acontece que o preconceito impera. Quem estrangula o tratamento psiquiátrico é o preconceito, é o estigma. Não temos o percentual do quanto o preconceito matou. Mas temos um dado, que é de por que as pessoas se suicidam. Porque não tiveram acesso ao tratamento, ou, se tiveram, não receberam o tratamento adequado. Mas, sabendo que podem melhorar, muitas vezes não procuram tratamento. Sabe por quê? Por causa do preconceito.

 

A taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos aumentou 10% em menos de uma década. O que se pode fazer como prevenção nesta faixa etária?

Os dados nos mostram onde é que está o erro. Trinta e cinco por cento das pessoas que se suicidam têm problemas afetivos e de humor. Vinte e dois por cento têm problemas de abuso de álcool e outras substâncias. O cérebro está em formação até 22, 23 anos de idade e, por isso, não pode ter acesso a álcool e drogas. As pesquisas mostram que, em 2006, 1% das mulheres haviam experimentado álcool antes dos 11 anos. Em 2012, esse percentual foi de 4%. Mais de 60% das pessoas experimentaram antes dos 18 anos. Ao mesmo tempo, o [pico de consumo] máximo da maconha é aos 16 anos. Onde estão os problemas maiores? Doenças mentais se desencadeando cada vez mais cedo nos jovens por causa de supressão de sono, uso de álcool e drogas, pressão social e estresse. Você encontra, hoje, meninos de 15, 16 anos, submetidos à pressão por resultados, por competição, sempre se exigindo que sejam melhores que os outros. Além disso, no momento atual, temos ausência da família em casa. Aumentamos os fatores desencadeadores do suicídio e diminuímos os protetores. Essa conta fecha em aumento de doenças mentais e de suicídio.

'É preciso saber sempre o que o filho está passando, vivendo. Os pais devem mostrar a ele que estão de olho, cuidando, protegendo', comenta (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press )
"É preciso saber sempre o que o filho está passando, vivendo. Os pais devem mostrar a ele que estão de olho, cuidando, protegendo", comenta
 

Além do uso de álcool e de outras drogas, a que os familiares devem ficar atentos?

Aos fatores protetores. Primeiro, você não pode terceirizar a formação dos seus filhos às escolas. E, hoje, o que mais se vê são pais transferirem a formação do filho para a escola. Uma vez que a parte da educação já está resolvida, entram outros fatores protetores, que são atividades físicas, atividades de relacionamento com a família. É preciso saber sempre o que o filho está passando, vivendo. Os pais devem mostrar a ele que estão de olho, cuidando, protegendo. Pode ser que, agora, o filho reclame que você é muito duro com ele. Mas, depois, no futuro, ele vai dizer: “Ainda bem que meu pai foi duro comigo”. Ouço muito, no consultório, pessoas dizendo que os pais nunca ligaram para elas, que elas sempre fizeram o que quiseram. Desproteger os filhos tem um preço.

 

E o preço de não se levar a sério alertas que eles fazem, como dizer que querem morrer ou sumir?

Nesses casos, cão que ladra, morde. Toda e qualquer conversa em que se fala em suicídio, em morrer, coisas como “não aguento mais, “não suporto essa vida”, são um alerta. É preciso conversar sobre isso, levar o filho a um profissional. Outro sinal é o isolamento social: o jovem não sai do quarto, pouco conversa, não sai do celular... É preciso estar atento a tudo.

 

O que o sr. pensa sobre a série 13 Reasons Why?

Tem de haver responsabilidade para colocar esse assunto [o suicídio] em pauta. Na primeira temporada, o assunto foi colocado em pauta, mas sem nenhuma preparação. Na segunda temporada, existe um manual, que inclusive eu assino, em que ensinamos como aquela série deve ser vista. Agora, quem vai me dizer se é obedecido? O manual assinado por mim diz claramente que deve-se assistir [à série] com um adulto responsável. São temas fortíssimos, que não podem ser abordados sem um adulto por perto.

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EDIÇÃO 65 | agosto