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"O mundo ainda está descobrindo Portugal", diz enólogo lusitano Osvaldo Amado

Enólogo explica por que os brasileiros caíram de amores pelos vinhos produzidos na Terrinha

Carolina Daher - Publicação:30/10/2018 18:07

Estamos todos apaixonados por Portugal. Mais do que visitas constantes ao país, o vinho produzido pelos gajos enchem nossas taças com tanta frequência que ele ultrapassou a Argentina e se consolidou como o segundo maior exportador de vinhos para o Brasil, atrás apenas do Chile. Enquanto as importações de vinhos cresceram apenas 0,24% entre janeiro e maio, na comparação com o mesmo período de 2017, as de vinhos portugueses subiram 12%. O que os portugueses têm de tão sedutor? Castas exclusivas, o terroir e o clima são apenas algumas explicações. Segundo o enólogo português Osvaldo Amado, diretor de enologia da Global Wines – dona de nove marcas como Cabriz, Casa de Santar, Vinha do Contador, Rio Sol e Vinha Maria –, esse amor vem de longa data. “Quando provamos as comidas brasileiras, muitas têm origem em Portugal. E ninguém faz um vinho tão perfeito para harmonizar com essa gastronomia do que nós, portugueses.” Pelo visto, concordamos. Até maio já havíamos adquirido 6 milhões de litros da Terrinha e nos tornamos o oitavo maior importador de vinho português do mundo. A seguir, Osvaldo dá dicas de como escolher entre tantas opções. Com mais de 250 tipos de uvas e 14 regiões produtoras, a viagem por tantos sabores será longa.

 

1 | ENCONTRO BRASÍLIA –  Antes de tudo, gostaria que você definisse o que o vinho português representa hoje para o mercado. Em números, hoje o país ocupa qual posição como produtor mundial? E em termos de exportação?

OSVALDO AMADO –  No panorama internacional do vinho, Portugal é conhecido e reconhecido como o maior produtor de variedades de uvas endógenas, cerca de 250 tipos. A produção hoje é de cerca de 700 milhões litros por ano, o que coloca o país na escala dos 10 maiores produtores do mundo. Quanto à exportação, ela é muito equilibrada com o consumo interno, ou seja, 50% de toda a produção fica em Portugal e a outra metade é exportada.

 

2 | Qual é a maior qualidade do vinho português?

A originalidade. Efetivamente, o terroir é muito importante na qualificação de um vinho. Independentemente do país onde são produzidas, as bebidas provenientes da uva cabernet, syrah ou sauvignon blanc têm traços comuns. Isso não acontece, no entanto, com as castas portuguesas. Elas são únicas. Não podemos esquecer que Portugal é um país atlântico e desfruta da combinação clima, solo e uva, que são os fatores que nos diferenciam do resto do mundo. Essas características determinam a qualidade do vinho: originalidade, complexidade, elegância e harmonia.

 

3 | É uma terra com muitas castas. Quais são as mais famosas?

Nos tintos, podemos citar a touriga nacional e a baga. Já entre as brancas, as mais conhecidas são encruzada, alvarinho e arinto. Essas cinco castas são reconhecidas pela qualidade em todo o mundo e não existe um produtor que não gostaria de tê-las em seus vinhedos. São uvas potentes, que geram, consequentemente, vinhos potentes.

 

4 | Podemos dizer que já existe um reconhecimento internacional dos vinhos portugueses? Eles estão no mesmo nível de outras regiões produtoras, como Espanha, França e Itália?

Diria que estamos à frente desses países. Não é fácil, mas dos 100 melhores rótulos do mundo eleitos por publicações sérias como Wine Enthusiast e Wine Spectator, Portugal aparece nas listas com seis ou sete vinhos. Sendo o décimo produtor mundial, isso é significativo. É preciso levar em conta também que não há uma cultura sobre o consumo do vinho português. O mundo ainda está descobrindo Portugal. E acredito que, em um futuro bem próximo, as coisas vão melhorar ainda mais.

 

5 | Como você define o paladar do brasileiro para o vinho? E por que adotamos tão avidamente o português?

O consumo de vinho do brasileiro ainda é pequeno. Mas isso é uma questão de tempo. Quanto maior for o conhecimento sobre o assunto, maior será o consumo. Primeiro, na relação preço/qualidade somos um produtor muito interessante. Se levarmos em conta fatores culturais, o casamento entre os vinhos portugueses e a gastronomia brasileira é perfeito. Somos povos muito parecidos. Por enquanto, os mais procurados pelos brasileiros são os do Alentejo e Douro, que são bebidas com grande maciez e elegância. Não tenho dúvidas, no entanto, de que com o apuramento do paladar a tendência é passar para vinhos mais complexos. Aí regiões como Bairrada e Dão têm muito a oferecer.

 

6 | O vinho português combina com a gastronomia brasileira?

A comida brasileira é muito estruturada, forte e pede vinhos potentes. Quando falamos de um cabernet sauvignon ou chardornnay, tenho minhas dúvidas se eles harmonizam com as comidas do Brasil e, principalmente, com as mineiras. 

 

7 | Existe uma regra em relação às comidas – carne com tinto e peixe com branco?

Essa regra vigorou durante muitos anos e servia, na verdade, para facilitar a vida do consumidor que não tinha muito conhecimento. Mas esse conceito foi completamente abolido. Hoje, a regra é provocar harmonia. E, se pararmos para pensar, existem carnes suaves e peixes extremamente encorpados, então não faz lógica definir que o tinto deve ser servido com carne vermelha e branco com peixe. É preciso conhecer o vinho e o prato e harmonizar os dois em conjunto.

 

8 | E os espumantes e rosés? Em que ocasiões eles são bem-vindos?

Até por falta de conhecimento, o espumante era procurado apenas em momentos festivos. Ele, no entanto, tem muito mais a oferecer do que isso. Hoje é possível fazer uma refeição completa utilizando apenas espumante. Nos últimos três anos o consumo cresceu exponencialmente, assim como o do vinho rosé. São bebidas singelas, que harmonizam bem com comidas leves, suaves. 

 

9 | Qual é o seu vinho preferido?

São todos. Sei que é uma resposta politicamente correta (risos). Costumo avaliar em função do momento que o estou consumindo. No meu caso, 90% das vezes é para acompanhar refeições, e aí aquele rótulo supervalorizado, mais caro e reconhecido nem sempre é o melhor. No momento, estou produzindo 10 milhões de garrafas divididas em 200 rótulos. Então é complicado escolher um só. Três dos nossos vinhos estão nas listas dos 100 mais da Wine Spectator e da Wine Enthusiast: o Cabriz Touriga Nacional branco; o Quinta de Cabriz Dão tinto e o Casa de Santar Reserva tinto. Isso diz muito de como levamos a sério a história de produzir bons vinhos.

 

10 | Qual dica você daria a um leigo na hora de escolher um bom vinho português?

Para quem não entende do assunto, o fator preço é muito importante e deve ser levado em conta. Depois de definir o valor que se pode gastar, existem algumas dicas que podem ser úteis. Se você vai comer um prato suave, escolha um vinho do Alentejo; para uma comida intermediária, é melhor investir em um do Douro. Agora, se a receita for complexa, com azeite, dendê, amendoim ou mesmo com uma carne vermelha mais robusta, os produzidos na Bairrada ou Dão, das castas touriga nacional e baga, são as melhores opções. É questão de experimentar.

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EDIÇÃO 67 | outubro