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CULTURA | RARIDADES »

Aberta à comunidade, a Universidade de Brasília guarda tesouros em seu setor de Obras Raras

Há desde manuscritos da Idade Média vindos de Portugal a exemplares originais do Correio Braziliense, de José Hipólito, fundado no século XIX

Paloma Oliveto - Publicação:19/12/2018 16:17Atualização:19/12/2018 16:52

“No Egito, as bibliotecas eram chamadas de ‘tesouro dos remédios da alma’. De fato, é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades, e a origem de todas as outras.” A frase, do teólogo Jacques Bossuet, produzida no século XVII, não poderia ser mais verdadeira. Para quem mora ou visita Brasília, uma rica “farmácia” com mais de 1,5 milhão de livros e periódicos está à disposição da população de segunda a sexta. Trata-se da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE), inaugurada na década de 1960 e que atende não apenas os alunos e professores da instituição, mas toda a comunidade.

Manuscritos medievais do Livro das Aves, produzido em um monastério português do século XIV: uma das raridades guardadas 
em cofre climatizado (Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
Manuscritos medievais do Livro das Aves, produzido em um monastério português do século XIV: uma das raridades guardadas em cofre climatizado
 

Nesse templo do saber, uma coleção em particular guarda tesouros preciosos. Com 13,5 mil livros, 10 mil periódicos, 60 mil documentos, 3,6 mil ex-libris (rótulos personalizados que, colados nos livros, identificam a quem eles pertencem) e três pergaminhos medievais do século XIV, a sessão de obras raras da BCE é uma mina de ouro para pesquisadores e garante a conservação de peças que, seja pela antiguidade seja pela singularidade, merecem preservação especial no acervo.

 

Para que o público possa contemplar algumas dessas preciosidades, o setor organizou uma pequena mostra permanente, aberta à visitação. “A ideia é dar um pouco de representatividade ao nosso acervo”, explica Raphael Greenhalgh, coordenadador de formação e desenvolvimento de acervos da BCE. O setor de obras raras também organiza visitas agendadas. Já os pesquisadores podem consultar e manusear os livros e documentos, embora não seja possível tomá-los emprestados.

Raphael Greenhalgh é coordenadador de formação e desenvolvimento de acervos da Biblioteca Central da UnB: 'O importante não é ter obras raras, mas sim garantir e permitir de forma adequada o acesso ao que é raro' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Raphael Greenhalgh é coordenadador de formação e desenvolvimento de acervos da Biblioteca Central da UnB: "O importante não é ter obras raras, mas sim garantir e permitir de forma adequada o acesso ao que é raro"
 

Greenhalgh explica o que caracteriza a raridade de uma obra: “Existem 27 critérios que as diferem do restante do acervo. Mas, no geral, seria o período ou contexto histórico, a relevância cultural ou um elemento adquirido depois da publicação, como uma dedicatória”, diz. “Raro não significa difícil acesso. O importante não é a biblioteca ter obras raras, mas sim garantir e permitir de forma adequada o acesso ao que é raro. A BCE tem uma coleção muito boa de documentos raros que são bem conservados e divulgados de forma competente”, observa o doutor em ciência da informação Ricardo Rodrigues Crisafulli, consultor técnico do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e ex-presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal.

 

A sessão de obras raras existe desde 1962, quando a BCE foi inaugurada. Seis anos depois, ocupando o prédio definitivo, a instituição organizou o setor que, a essa altura, já contava com um importante acervo, incluindo os manuscritos medievais portugueses. Entre as principais coleções, Greenhalgh destaca as do deputado constituinte Homero Pires (1887-1962), do médico e escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984), do crítico literário Agripino Grieco (1888-1973) e do político Carlos Lacerda (1914-1977). Deste último, a sessão conta com nada menos que 60 mil documentos, divididos em vida pessoal, política, empresarial e produção intelectual. O acervo Lacerda pertencia a uma biblioteca particular e foi comprada pela BCE.

Na biblioteca há raridades como este Atlas Sur Reise in Brasilien, de Spix e Martius: são 13,5 mil livros preservados pela instituição (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press )
Na biblioteca há raridades como este Atlas Sur Reise in Brasilien, de Spix e Martius: são 13,5 mil livros preservados pela instituição
 

Com 10 mil peças, a coleção de periódicos é composta por importantes títulos da imprensa brasileira, como o Correio Braziliense editado em Londres no século XIX; a revista modernista Klaxon, que circulou entre 1922 e 1923; a Revista Brasileira, criada em 1855, e várias publicações de oposição à ditadura militar, como O Pasquim. De Portugal, a BCE tem exemplares da Revista Portuguesa, dirigida pelo escritor Eça de Queiroz, e da Farpas, que contava, além de Queiroz, com o escritor português Ramalho Ortigão.

 

No acervo de livros, a obra impressa mais antiga do setor de Obras Raras é o Epistolarum, uma coleção de cartas do naturalista romano Caio Plínio II, que viveu no século I d.C. A impressão é de 1533. Um pouco mais “novo”, o exemplar do Barleus, que narra os feitos de Mauricio de Nassau no Brasil, é de 1647 e traz 53 ilustrações de costumes brasileiros, além de mapas. Greenhalgh também destaca o Dicionário Português-Português mais antigo de que se tem notícia, de 1720.

Ex-libris feitos por Jorge de Oliveira, na seção de obras raras da UnB: 
acervo de 3,6 mil rótulos personalizados que identificam a quem eles pertencem (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press  )
Ex-libris feitos por Jorge de Oliveira, na seção de obras raras da UnB: acervo de 3,6 mil rótulos personalizados que identificam a quem eles pertencem
 

Embora não sejam antigos, 23 livros da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, que existiu entre 1943 e 1966, também são destaque no setor de obras raras e já foram tema de dissertação de mestrado na UnB. Esse grupo foi criado pelo mecenas e industrial Carlos Maya e composto por empresários e intelectuais que, em comum, amavam os livros. Por ano, era impressa uma obra, ilustradas por artistas como Di Cavalcanti, Portinari, Djanira e Enrico Bianco. A BCE é uma das poucas bibliotecas do país que tem a coleção completa.

 

Guardados em um cofre climatizado, estão o Livro das Aves, o Flos Sanctorum e o Diálogos de São Gregório, manuscritos medievais produzidos em um mosteiro de Portugal no fim do século XIV. As três obras foram escritas pouco tempo depois de o português se separar do galego e chegaram à UnB em 1964, compradas da coleção de Serafim da Silva Neto, um dos mais importantes especialistas brasileiros em língua portuguesa. São tão importantes que inspiraram a universidade a criar um programa de estudos medievais e já renderam cerca de 30 trabalhos acadêmicos, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado.

Os pesquisadores Juliana Medeiros e Thiago Veloso: eles estão catalogando três obras raríssimas da coleção de obras medievais (Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
Os pesquisadores Juliana Medeiros e Thiago Veloso: eles estão catalogando três obras raríssimas da coleção de obras medievais
 

Os pergaminhos são obras religiosas e eram muito populares no período medieval. Segundo Greenhalgh, os manuscritos que estão na UnB são raríssimos: o Diálogos de São Gregório é um dos quatro do mundo escritos na língua portuguesa. Já o fragmento do Livro das Aves e o Flos Sanctorum são, até onde se sabe, os únicos manuscritos existentes em português. Atualmente, as três obras estão sendo catalogadas pela historiadora Juliana Medeiros e pelo aluno de mestrado Thiago Veloso. Juliana se formou na UnB e seu trabalho de conclusão de curso foi sobre o Livro das Aves. “O padrão dos três manuscritos, que provavelmente foram feitos pela mesma pessoa e talvez formassem um único volume, é muito diferente dos demais. O Thiago e eu queremos responder a várias perguntas sobre a origem deles”, conta a historiadora.

 

SAIBA MAIS

èO setor de obras raras fica no 1º andar da Biblioteca Central da Universidade de Brasília e funciona de segunda a sexta, das 7h às 13h. Visitas guiadas e outras informações: (61) 3107-2684 e obrasraras@bce.unb.br

 

ACERVO PARA VER

Confira alguns dos destaques do setor de Obras Raras da Biblioteca Central da UnB

 

èLivro das Aves

O bestiário medieval (foto) é o único dos três rico em iluminuras. Resta apenas um fragmento do original: há nove fólios, que usam as aves para ensinar lições de moralidade aos monges

 

èFlos Sanctorum

Embora faltem algumas páginas, o manuscrito de 81 fólios está bem conservado. Traz narrativas de milagres. A letra P colorida e grande marca o início de um capítulo – na escrita medieval, não havia pontuação

 

èDiálogos de São Gregório

Bem preservado, o manuscrito de 160 fólios traz as pregações que teriam sido escritas pelo papa Gregório Magno. As capitulares são decoradas com filigranas e uma delas traz a figura de um monge dentro da letra C

 

èEx-Libris

A coleção já contava com 1,7 mil ex-libris e, recentemente, ganhou outros 3,6 mil, como doação da família do artista e colecionador Jorge de Oliveira. Há rótulos criados pelo próprio Oliveira. A maioria foi produzida por artistas brasileiros, embora muitos sejam internacionais

 

èArquivo Carlos Lacerda

Cerca de 60 mil documentos, divide-se nas séries vida pessoal, produção intelectual, vida empresarial e vida política, com materiais entre os anos de 1883 e 1977 

 (Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
  

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