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Um sítio em plena capital

Pesquisadores localizaram, recentemente, na região do Paranoá, um rico material arqueológico com vestígios de habitação humana entre 11 mil e 6 mil anos atrás

Julyerme Darverson - Publicação:28/05/2019 12:37Atualização:28/05/2019 16:13

Para muitos, Brasília tem uma história recente, por ser uma das mais novas capitais do Brasil. Mas, por aqui, a história já acontece muito antes de Juscelino Kubitschek resolver construir a capital federal no meio do Planalto Central, até mesmo antes da chegada dos portugueses às terras tupiniquins. E, acredite, essa região já é habitada há cerca de 11 mil anos, com muita história ainda para ser revelada.

 

A prova disso é a descoberta de um sítio arqueológico na Região Administrativa do Paranoá, em 2017, numa área estimada entre 10 a 15 hectares, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A descoberta aconteceu dentro de um processo de licenciamento ambiental, em que um empreendimento solicitou, de acordo com uma portaria do Iphan, a autorização para construir dois empreendimentos na região”, explica Margareth Souza, arqueóloga do instituto. “A área apresentou potencial e condições variáveis para conter artefatos, assim como foi constatado nos vestígios encontrados”, diz. A pesquisa que localizou o sítio foi feita pelo arqueólogo Edilson Teixeira de Souza.

Arqueóloga do Iphan, Margareth Souza
explica que o sítio do Paranoá foi descoberto
durante a pesquisa para o licenciamento
ambiental: área tem materiais associados
tecnologicamente aos grupos pré-históricos (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Arqueóloga do Iphan, Margareth Souza explica que o sítio do Paranoá foi descoberto durante a pesquisa para o licenciamento ambiental: área tem materiais associados tecnologicamente aos grupos pré-históricos
 

Segundo a Legislação Ambiental, no Brasil, todo empreendimento deve ser avaliado por diversos órgãos, entre eles o Iphan, sobre o impacto causado ao meio ambiente e que possam atingir bens culturais, como é o caso dos sítios arqueológicos. Foram encontrados, a 40 centímetros de profundidade, vestígios compostos por lascas, núcleos e instrumentos produzidos a partir de quartzito que serviram de fonte de matéria-prima para a confecção das ferramentas. Esse tipo de materiais é associado tecnologicamente aos grupos pré-históricos que habitavam o Planalto Central há milhares de anos, durante uma sequência arqueológica conhecida como Tradição Itaparica. Estima-se que o período tenha ocorrido entre 11 mil a 6 mil anos. “O acervo arqueológico está vinculado aos caçadores da Tradição Itaparica. A hipótese é de que era um grupo pequeno de caçadores, que ficou aqui por um tempo e aí ocorreu uma transição”, destaca Margareth.

 

Já foram encontradas ferramentas dessa população na região entre o cerrado e a caatinga, nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso de Sul, Tocantins, Pará, Piauí e Sergipe. A arqueóloga conta, ainda, que esse grupo de caçadores pode ter começado a adquirir novas habilidades e ofícios, como o cultivo, por exemplo. “Essa transição aconteceu de uma forma ainda lenta. Eles começaram o cultivo pequeno de alguns alimentos; ainda estavam aprendendo as técnicas. E alguns grupos também podem ter iniciado o processo de produção de cerâmicas, como é o caso da Tradição Una”, ressalta Margareth.

 

Esse não é o primeiro sítio arqueológico encontrado na região do Distrito Federal e Entorno. Ao todo, são 51 locais descobertos, sendo 26 de líticos – com vestígios de ferramentas de caçadores (os mais antigos) –, e os outros 25 são de artefatos cerâmicos, como informa Margareth. “Cada dia, aumenta mais o número de sítios na região. Temos um em Taguatinga, com peças bem semelhantes. São instrumentos para cortar, raspar, de toda uma cadeia operatória, de afloramento rochoso, oriunda de várias oficinas líticas, que são onde eles elaboravam os instrumentos”, afirma a arqueóloga.

 

A descoberta foi muito celebrada por pesquisadores e profissionais da área. Os estudos que estão sendo feitos e alguns, que já foram concluídos, revelam um rico material que contribui para o entendimento da história da humanidade. “Esses sítios arqueológicos vão tratar da própria identidade do Brasil. Os grupos já ocupavam o país há muitos anos. É importante para compreender como eles vieram, os processos de mudança cultural e de povoamento”, diz Margareth. Além disso, a arqueóloga afirma que os novos estudos e materiais ajudam a melhorar o que já foi pesquisado anteriormente e trazem novos elementos, que colaboram com a definição do que realmente foram os povos que habitaram por aqui há milhares de anos. “Antes, falavam que aqui era só um corredor de passagem desses grupos. Esses sítios comprovam que eles chegavam e ficavam. O que temos que pesquisar é onde esse grupo se fixava. Provavelmente em Planaltina (DF/GO) e Formosa (GO), área no entorno de Brasília”, completa.

 

As pesquisas também buscam entender melhor como era a rotina e estilo de vida dessa população e quais outras técnicas eram utilizadas na época. “Estima-se que, provavelmente, faziam cabanas, mas não foram encontrados vestígios que comprovem esse tipo de acomodação. O material vai propiciar a datação – quando foi que o homem se fixou na região e sobre a própria história do Brasil”, conta Margareth. A especialista explica que o tema é de importância de cunho nacional, pois todas as pesquisas feitas com esses sítios indicam que está tudo interligado: “Constatamos que há ligação com grupos no Piauí e de Mato Grosso do Sul, por exemplo. A pergunta é: qual a relação que eles tinham com esses e entre os grupos? E, depois, como que houve a relação com grupos que vieram depois e com

os índios? Ainda não há uma definição muito grande sobre essa povoação do país e cada vez mais os estudos caminham para poder responder essas questões”.

Artefatos elaborados por grupos caçadores pré-históricos: coletados nos sítios arqueológicos de Taguatinga e Cachoeirinha, na região do lago Paranoá (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Artefatos elaborados por grupos caçadores pré-históricos: coletados nos sítios arqueológicos de Taguatinga e Cachoeirinha, na região do lago Paranoá
 

Os objetos coletados nos sítios ficam em exposição no Museu de Geociência do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), instituição de guarda e endosso institucional de achados arqueológicos no DF, e eventualmente na sede do Iphan, na Quadra 713/913 Sul. É preciso verificar a programação, antes de ir ver a mostra.

 

NÚMEROS E FATOS DA HISTÓRIA

Saiba mais sobre os vestígios encontrados no DF e quais os tipos de sítios

 

Total de sítios arqueológicos no DF: 51

26 deles são vinculados a povos que sobreviviam da caça e da coleta

7 estão associados a povos que plantavam parte de seu alimento e produziam cerâmicas

17 são sítios ligados aos períodos colonial ou imperial

Regiões com sítios arqueológicos no DF: 13

Lugares: Ceilândia, Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Samambaia, Gama, Brazlândia, Riacho Fundo, Santa Maria, Sobradinho, Paranoá, Jardim Botânico e São Sebastião, além do Parque Nacional de Brasília

 

TIPOS DE SÍTIOS

Líticos: no DF, são 26. Os sítios líticos eram locais utilizados pelo homem (grupos de caçadores-coletores) para a fabricação de objetos em pedra, normalmente situados próximos à matéria-prima, das rochas, na época pré-histórica. São chamados também de oficinas líticas. São muito antigos, com cerca de 11 mil anos

 

Cerâmicos: no DF, são 25. Os vestígios mais abundantes descobertos nesses sítios são fragmentos ou objetos em cerâmicas (argila queimada), usadas basicamente para o preparo de alimentos. Indicam que eram utilizados por grupos das eras pré-histórica ou pré-colonial.

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