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"Há muitas fake news em nutrição", diz nutricionista Joana Lucyk

Especialista ensina como introduzir bons alimentos na dieta das crianças e deixar o lanche da escola mais saudável

Paloma Oliveto - Publicação:28/05/2019 16:35Atualização:28/05/2019 16:38
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

O mundo enfrenta uma epidemia de obesidade e doenças crônicas como diabetes, hipertensão e males cardiovasculares sem precedentes. Se antes eram enfermidades associadas à idade adulta, hoje já são uma realidade infantojuvenil: apenas na faixa dos 0 aos 5 anos, 41 milhões de meninos e meninas estão acima do peso saudável, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

Autora do livro Por Que Não Posso Comer Besteiras Todos os Dias? – adotado em escolas do ensino fundamental –, a goiana (radicada em Brasília) Joana Lucyk, de 38 anos, nutricionista da Madre Clínica da Mulher, defende que a cultura da alimentação saudável começa na infância. Para ela, boas práticas nutricionais têm de fazer parte da educação infantil, seja dentro de casa seja na sala de aula. A profissional, mestre em nutrição humana e pós-graduada em nutrição esportiva, nutrição clínica funcional e fitoterapia funcional, também lamenta que, na correria do cotidiano, muitos pais façam escolhas alimentares ruins.

 

1 | ENCONTRO BRASÍLIA – Como fazer com que as crianças apreciem, desde o desmame, os alimentos saudáveis?

JOANA LUCYK – Os alimentos saudáveis devem ser incorporados na rotina desde o momento de introdução da alimentação complementar. Para que a criança perceba a alimentação saudável como natural todos em casa devem priorizar essa prática. Isso deve tornar-se um hábito da família. Crianças seguem exemplos: a alimentação dos responsáveis tem grande influência na qualidade da dieta da criança.

 

2 | Qual a composição ideal de uma lancheira saudável?

Produtos ultraprocessados e refinados não combinam com uma lancheira saudável. Produtos com açúcar, como aqueles bolinhos, bisnaguinhas e biscoitos com “cara de saudável”, devem ser evitados. Embutidos como peito de peru e presunto também devem ficar de fora. Alimentos caseiros têm a vantagem de ter menos aditivos químicos e a possibilidade de escolha de menos açúcar, por isso devem ser preferidos. Alimentos locais e da época e, sempre que possível, orgânicos, também devem ser priorizados. Frutas, iogurtes naturais, sanduíches integrais, oleaginosas, bolos com frutas são exemplos de alimentos que podem integrar a lancheira. Escolhas saudáveis diárias para as crianças é uma atitude essencial para a promoção de saúde e prevenção de doenças.

 

3 | Muitos pais mandam suco de frutas na lancheira todos os dias, por achar que é um alimento saudável. Esse hábito pode contribuir para a obesidade infantil?

 

Nem sempre a tradição é o melhor critério para se adotar para ter uma alimentação saudável. Sucos têm baixa densidade energética e índice glicêmico alto; não favorecem a resposta mais eficiente do organismo e seu consumo, associado a outros fatores, pode contribuir para a obesidade. Suco pronto é um produto que não deve ser estimulado como hábito alimentar. Vez ou outra consumir suco natural, tudo bem. Porém, sua presença na lancheira não deve ser obrigatória.

 

4 | Você acredita que deveria haver uma regulamentação a respeito dos lanches vendidos nas cantinas das escolas?

 

Aregulamentação existe, porém com eficácia questionável. A Lei das Cantinas do DF, com texto de 2013, entrou em vigor em 2016 nas escolas públicas e particulares do Distrito Federal, e orienta que as cantinas devem vender frutas, iogurtes, vitaminas naturais, pães integrais, bolos preparados com frutas, entre outros alimentos saudáveis. A Vigilância Sanitária do DF recomenda que, se houver alguma inadequação, deve-se conversar com os responsáveis pelo estabelecimento para adequar o cardápio. Na ausência de uma solução, o próximo passo é fazer uma denúncia ao órgão pelo número 162 ou pelo sitewww.ouv.df.gov.br.

 

5 | A educação nutricional na escola poderia contribuir para a redução da epidemia de obesidade?

 

A educação nutricional é fundamental para a redução não só da epidemia de obesidade mas para a prevenção de todas as doenças associadas a ela, como diabetes e pressão alta. E como a alimentação faz parte do dia a dia da criança desde sempre, a educação nutricional se mostra como ferramenta de grande eficácia para assimilação de conhecimento e mudança de comportamento das crianças.

 

6 | Iniciativas escolares, como hortas nas escolas, ajudam as crianças a valorizar mais os alimentos saudáveis?

 

Sem dúvida! Tenho exemplos de escolas que usam um livro de nutrição de minha autoria no ensino fundamental para explorar outras matérias como matemática, ciências, português em atividades que envolvem horta, aula de culinária, definição de quantidade para lista de compras. As possibilidades são muitas. A alimentação saudável deve ser um tema transversal e explorado no cotidiano das crianças nas mais diversas vivências. Dessa forma, naturalmente, o aluno incorpora os conhecimentos sobre alimentação saudável em sua rotina.

 

7 | A propaganda de produtos alimentícios voltada ao público infantil é controversa. Ela, de fato, pode influenciar as escolhas das crianças?

 

Considerando que propagandas interferem na escolha de adultos, o que dirá de crianças. Os profissionais de comunicação e marketing sabem o tamanho do “poder de importunação” das crianças e atingi-las significa atingir toda a família. Cabe à sociedade em geral, aos educadores e profissionais de saúde reiterarem a demanda pela propaganda ética e pela promoção de uma alimentação saudável por meio da mídia.

A responsabilidade compartilhada entre sociedade, setor produtivo e setor público é o caminho para a construção de modos de vida pautados nos princípios da promoção de saúde e prevenção de doenças.

 

8 | Quais os erros mais comuns que os pais cometem em relação à alimentação dos filhos, mesmo sem perceber?

 

Quando optam pelo excesso de praticidade, quase que na totalidade das vezes, os pais pecam na qualidade. Para diminuir a chance de erro quando o critério adotado for praticidade, leia a lista de ingredientes dos produtos: todas são em ordem decrescente. Produtos com açúcar em todas as suas formas de apresentação nas primeiras posições da lista e produtos com grande quantidade de aditivos químicos (corantes, acidulantes, conservantes, adoçantes) devem ficar de fora da alimentação não só da crianças mas como de toda a população.

 

9 | Fast-foods, refrigerantes, salgadinhos e doces deveriam ser cortados do cardápio das crianças?

 

Produtos de baixa qualidade nutricional não devem fazer parte da rotina das crianças. Mas, vez ou outra comer besteiras é aceitável. É preciso haver bom senso e a exceção não pode virar regra. É a frequência de consumo que faz a resposta do organismo. Se a frequência de junk food for alta, certamente a chance de alguma doença aparecer é quase total, seja obesidade, diabetes, hipertensão ou até um câncer.

 

10 | Mesmo com tanta informação o mundo passa por uma epidemia de obesidade e doenças crônicas associadas. Não estamos sabendo processar essas informações?

 

São muitos dados disponíveis e pouco discernimento para transformá-los em informações que se traduzam em escolhas saudáveis. Há muitas fake news em nutrição, muito terrorismo nutricional, muita promessa milagrosa, muita propaganda enganosa. Com educação e conhecimento é possível eleger critérios adequados que resultem em uma boa alimentação. Alimentar-se bem é fácil, desde que nos reconectemos com a natureza.

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