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"Acima da beleza está a saúde", diz o dermatologista Gilvan Alves

Dermatologista fala sobre os riscos da maior incidência dos raios UV e os cuidados necessários para evitar doenças como o câncer de pele, e alerta para a importância de escolher um profissional da medicina na hora de fazer um procedimento estético

Paloma Oliveto - Publicação:29/05/2019 12:57Atualização:29/05/2019 13:09

Um dos profissionais da dermatologia mais respeitados de Brasília, Gilvan Alves comemora, em dezembro, duas décadas da Aepit. Recentemente, a clínica foi expandida, com a abertura da unidade de cirurgia plástica, uma área que, segundo o médico, complementa a especialidade que escolheu seguir. Mas, embora o foco do grupo seja o atendimento de pacientes que buscam procedimentos estéticos, Gilvan Alves é um crítico dos exageros nessa área. “Há tantas vantagens acima da beleza: ser culto, inteligente, ter bom caráter”, enumera.

 

Muitas vezes, o dermatologista dispensa pessoas que o procuram para corrigir problemas inexistentes. Nesses casos, ele sugere que, antes do corpo, a pessoa cuide da mente. É por isso que ele vê com preocupação as decisões judiciais que abriram a outros profissionais da saúde a possibilidade de realizarem procedimentos estéticos invasivos, como preenchimentos. “O médico tem a preocupação, em primeiro lugar, com a saúde do paciente. Nossa formação é para isso”, afirma.

 QUEM É  
Gilvan Alves, 53 anos  


ORIGEM: Pinheiros (ES) 

FORMAÇÃO: Graduado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez residência em dermatologia pelo St. John's Institute of Dermatology de Londres, na Inglaterra, e mestrado em dermatologia pela Universidade de Londres. 

CARREIRA: Autor de diversos trabalhos científicos, tem extensa participação em congressos da área, e é sócio da Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. Associado da American Academy of Dermatology, da International Academy of Cosmetic Dermatology e da Royal Society of Dermatology. Proprietário e clínico do Grupo Aepit (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É
Gilvan Alves, 53 anos
ORIGEM: Pinheiros (ES)
FORMAÇÃO: Graduado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez residência em dermatologia pelo St. John's Institute of Dermatology de Londres, na Inglaterra, e mestrado em dermatologia pela Universidade de Londres.
CARREIRA: Autor de diversos trabalhos científicos, tem extensa participação em congressos da área, e é sócio da Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. Associado da American Academy of Dermatology, da International Academy of Cosmetic Dermatology e da Royal Society of Dermatology. Proprietário e clínico do Grupo Aepit
 

ENCONTRO BRASÍLIA – Muitos profissionais de outras áreas da saúde conseguiram na Justiça autorização para realizar procedimentos, como preenchimentos, que antes eram exclusivos da medicina. Qual a sua opinião a respeito?

 

GILVAN ALVES – Vemos com preocupação, não com repreensão porque não temos autoridade para isso. A parte estética atrai financeiramente muitos profissionais. Mas acima da beleza está a saúde e o médico tem a preocupação, em primeiro lugar, com a saúde do paciente. Nossa formaçãoé para isso. E saúde não é só física, é mental também. Conseguimos reconhecer, por exemplo, pacientes que têm síndrome dismórfica, que é o paciente que se acha feio e sempre quer fazer alguma alteração em seu corpo. Como médicos que somos, com formação completa, até um pouco de psicologia e psiquiatria, sabemos selecionar melhor o procedimento a ser feito do que profissionais como enfermeiros, biomédicos e dentistas. Temos a formação para lidar com o ser humano. Os juízes estão achando que a preocupação dos médicos é só ganhar dinheiro, mas não é isso. As preocupações básicas do profissional médico são com a segurança e a qualidade do procedimento. Você tem três fases em um procedimento: a pré, que é selecionar e indicar o paciente; o durante, que é saber a técnica, ter um bom conhecimento de fisiologia e anatomia: e o pós, que é estar preparado para tratar as complicações. Então imagina um profissional não médico que não pode nem prescrever um antibiótico? Se houver uma infecção por causa do procedimento, o que o paciente faz? Aí vai pro médico? No durante, o paciente pode ter uma síncope, pode até infartar. Acho irresponsabilidade liberar procedimentos invasivos para profissionais não médicos.

 

No ano passado, houve um escândalo envolvendo um médico que injetou metacrilato em uma paciente em ambiente residencial. Ela morreu poucas horas depois. Quais os cuidados que o paciente deve ter para procurar um bom profissional?

 

Infelizmente, em toda profissão há os maus profissionais, aqueles que não têm uma boa formação e que, muitas vezes, não têm caráter. O que vemos muito são médicos de outra especialidade que se transformam da noite para o dia em dermatologistas ou cirurgiões, por acharem que estética dá dinheiro. A primeira coisa que o paciente deve fazer para evitar os maus profissionais é entrar nos sites da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de CirurgiaPlástica, para ver se o médico escolhido tem o título de especialista. Basta digitar o nome dele no site. Depois, se quiser checar se há processos ou reclamações contra o médico, também pode fazer a consulta nos sites do Conselho Regional de Medicina ou do Conselho Federal de Medicina.

 

Deve-se desconfiar de ofertas de procedimentos muito baratos?

 

Quando há uma diferença de preço de 20%, tudo bem. Mas, às vezes, um profissional oferece a mesma coisa por até metade do preço. Desconfie da qualidade do material a ser utilizado. Por exemplo, a ampola de ácido hialurônico, preenchimento mais seguro que se tem, custa algo em torno de 400, 500 reais, mas tem médico fazendo preenchimento por 300. Não pode ser ácido hialurônico, é impossível. O paciente deve pedir sempre a bula do produto que será injetado, porque podem ser injetadas outras substâncias, como o metacrilato, e aí o paciente não tem como tirar esse produto depois. Se o médico se recusar a mostrar a bula do produto, o paciente pode levantar-se da mesa e ir embora.

 

Quais são os procedimentos disponíveis, hoje, nos quais vale a pena investir?

 

Temos muitas tecnologias que rejuvenescem, que são antigas e continuam boas. Tem o laser de CO2, o laser fracionado, o Ulthera, que é uma máquina antiflacidez... Agora, tem também muito xinguelingue no mercado. Assim como tem preenchimento bom e ruim, isso acontece com as máquinas. O Ulthera, por exemplo, custa 300 mil reais e uma similar da China, 40 mil, mas não são iguais. As máquinas originais são lançadas nos congressos médicos e há trabalhos científicos sobre elas. Assim como existem produtos inferiores, existem máquinas inferiores. Vou dar o exemplo da criolipólise. Tem o Sculpt, que é a máquina padrão, desenvolvida por um dos maiores autoridades mundiais em laser, da Universidade de Harvard, que faz o congelamento de gordura. Surgiram centenas depois e eu vi as complicações. Essas máquinas queimavam, faziam um buraco no corpo do paciente. Isso é criolipólise também, só que a criolipólise com Sculpt custava 1,8 mil reais e com essas outras máquinas, custava 300 reais. Então desconfie quando a disparidade do preço é muito grande. É preciso ter muito cuidado com promoções. A pessoa não deve de ir atrás dessas barganhas, é muito arriscado. É como escalar o Corcovado: em vez de subir de bondinho, tentar escalá-lo pelas paredes. É sempre um risco.

'A primeira coisa que o paciente deve fazer para evitar os maus profissionais é entrar nos sites da Sociedade Brasileira de Dermatologia e de Cirurgia Plástica para ver se o médico escolhido tem o título de especialista', explica o dermatologista.  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"A primeira coisa que o paciente deve fazer para evitar os maus profissionais é entrar nos sites da Sociedade Brasileira de Dermatologia e de Cirurgia Plástica para ver se o médico escolhido tem o título de especialista", explica o dermatologista.
 

Colocar a vida em risco por causa de procedimentos reflete a obsessão que a cultura ocidental tem pela estética?

 

No Brasil, por ser um país tropical, há um culto exagerado à beleza. Uma pessoa mais gordinha na Europa fica dois meses com o corpo mais exposto e nos outros 10 com o corpo coberto de roupa, então não se preocupa com um pneuzinho ou com uma manchinha no colo. No Brasil, as pessoas estão o tempo todo se expondo, não podem nem usar uma maquiagem mais pesada que se derrete no calor. Isso é um ponto. O outro é a nossa cultura: cobra-se muito do brasileiro a beleza. Você chega ao exterior e vê jornalistas que não têm uma aparência de estrela de Hollywood fazendo comentários nos telejornais, trabalhando como âncora, porque são brilhantes. Lá, a imprensa escolhe os profissionais pelo cérebro. Aqui não. O que importa é ser linda, ficar bem na televisão. E há tantas vantagens acima da beleza. Ser culto, inteligente, bom caráter. Mas vemos que os homens aqui valorizarem só a beleza e isso suprime todo o resto. E a mulher, como sabe disso, desde a adolescência dedica sua vida a tentar ser linda. Passa mais tempo na academia que na biblioteca. Guarda dinheiro para fazer uma plástica da mama em vez de juntar para viajar, ir conhecer museus na Europa. Isso é bem da nossa cultura.

 

Qual é o ponto de equilíbrio?

 

É a pessoa ter bom senso. Não é ser desleixada, descuidar-se do peso, até porque a obesidade é uma questão de saúde. Mas é importante saber o equilíbrio de estar bem consigo mesma sem neuras, sem exageros. Tem paciente que chega aqui chorando porque tem um buraquinho de celulite; tem gente que não sai de casa porque tem uma manchinha no rosto. Nesses casos, eu não faço procedimento, indico que, primeiro, procure um psiquiatra. E isso é muito comum. A pessoa tem de se valorizar e a família também tem de colaborar. Tem mãe que chega aqui com a filha de 12 anos para cuidar da pele. Ah, deixa a menina viver a adolescência. Tem de usar filtro solar, mas não recomendo creme antirrugas de jeito nenhum. Temos de mostrar a importância de desenvolver o cérebro nessa idade.

 

Os homens estão buscando muito os consultórios e/ou clínicas de dermatologia e cirurgia plástica. O sr. percebe esse crescimento?

 

Há, sim, um aumento de procura de procedimentos por parte dos homens, principalmente para essa questão da idade. Às vezes, os homens procuram os consultórios para fazer procedimentos tipo toxina botulínica e até mesmo preenchimento de aspectos que os deixem mais masculinos, como realçar a mandíbula. Apesar de não ser tanto quanto a mulher, o homem também se preocupa em parecer mais jovem.

 

Quando acaba o verão, muita gente volta com o filtro solar para o armário. Quais os riscos de fazer isso?

 

Filtro solar é para ser usado o ano todo. Se você tiver de ir para uma ilha e só puder levar um creme, leve o filtro solar. A partir dos 6 meses de idade, a criança que está na praia já tem de usá-lo. Adolescente tem de escovar os dentes e passar o filtro solar. O câncer de pele é o de maior incidência na população brasileira. Muita gente se expõe ao sol porque acha que bronzeado é algo saudável e diz: “vou tomar um solzinho”. Aqui, no Brasil, não tem solzinho, só tem solzão. Solzinho é na Inglaterra, na Noruega. Não é preciso pegar sol porque ele nos atinge quando estamossob ele. Quando saímos do carro, por exemplo, para ir algum lugar, já levamos uma lapada do sol. Isso vai se acumulando e aí vem o câncer de pele.

 

Quando se fala em radiação ultravioleta, esse perigo invisível também atinge os olhos de forma agressiva. Quais são os riscos para a saúde dos olhos? O que se deve fazer para evitar esses danos?

 

A radiação ultravioleta também atinge os olhos e ela pode causar danos à retina e à córnea. Então, é importante o uso de óculos, mas óculos adequados. Tenha muito cuidado com os óculos que são vendidos na rua, sem um controle de angulação. O sol pode causar danos aos olhos ao atingir uma lente sem preparo para a absorção da luz ultravioleta.

 

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