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Bichos: insistência dos machos em montar nos outros deve ser combatida

Buldogue ficou famoso nos EUA após ter sido abandonado - o dono se recusava a 'ter um cachorro gay'. Gesto revela, na verdade, uma tentativa de demonstrar que domina o ambiente

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Correio Braziliense Publicação:26/07/2014 14:30Atualização:26/07/2014 07:56
O gato Fred adorava montar nos outros: a dona interrompe a atitude (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
O gato Fred adorava montar nos outros: a dona interrompe a atitude
Um buldogue ficou famoso nos Estados Unidos após ter sido deixado em um abrigo para ser sacrificado. Entre tantos casos similares, foi a justificativa usada para o abandono que popularizou a história na internet e ganhou os jornais no ano passado. Depois de ver o animal montando em outro macho, o dono decidiu se livrar do cão porque se recusava a ter um cachorro gay.

O comportamento de montar em outros animais, ou em pessoas, é bastante comum, ainda que provoque estranhamento e dúvidas. As causas são variadas, mas especialistas afirmam que a ideia de orientação sexual não se aplica aos pets. O buldogue, é claro, foi logo adotado por uma dona mais bem informada, como é a família do estudante Felipe Lopes, de 21 anos.

Eles têm quatro cachorros machos e lidam com naturalidade com o assunto. “Sempre aceitamos como um comportamento comum, nunca nos incomodou”, relata. A principal motivação para a monta ou tentativa de “cruzar” com pets do mesmo sexo é a demonstração de dominância. O veterinário especialista em comportamento canino Renato Buani explica que a atitude serve para expressar hierarquia, submeter o outro a uma situação de vulnerabilidade. “É algo normal, que acontece tanto no ambiente selvagem quanto no doméstico”, pontua.

Nos filhotes, o hábito cumpre o papel de brincadeira e treino sexual para a fase adulta, afirma o adestrador Luciano Robson. “Em geral, incomoda mais quando acontece com pessoas”, destaca. Esse costume deu trabalho para a professora Juliana Brito, 38 anos, que tinha um dachshund, raça canina mais conhecida por salsicha. “Eu tive problema demais porque ele ficava montando nas pessoas”, conta.

Depois de encontrar uma cadela da mesma raça no prédio onde morava, Juliana acreditou que cruzar seria a solução. Mas nada mudou e a necessidade de chamar a atenção permaneceu. Apesar de querido, o animal foi dado à outra pessoa após a chegada de um bebê na família, pois ele tentava avançar na criança.

As atitudes envolvidas na hierarquia entre os animais devem ser encaradas de forma natural, mas podem contar com intervenções quando a situação se torna insistente. A estudante Paula Macedo, 21 anos, tinha uma fêmea de pastor alemão de 5 anos, porém teve conflitos com a chegada de duas cadelas mais novas, de 5 meses. Uma das novatas assumiu o papel de líder, mas a outra ficou mais submissa e se tornou o alvo sexual das demais. “Ela tremia de medo, corria”, descreve. Após oito meses, a cadela acabou fugindo da casa.

Para resolver problemas como esses, é importante evitar que os animais se sintam inseguros da posição na matilha. A hierarquia deve ser respeitada, mas impondo regras para deixar claro o lugar de comando do dono. “Às vezes, as pessoas ficam com pena e favorecem o cão submisso, o que cria um conflito cada vez maior. O dominante pode chegar a tentar formas de agressão”, alerta o adestrador Luciano Robson.

Outra recomendação é retirar o animal ou desfocá-lo de uma situação inadequada ao pedir qualquer outra atitude, como sentar. “Depois que premiamos o novo comportamento, o cachorro tende a parar o anterior. É um processo de troca”, explica o comportamentalista canino Renato Buani. Ele também aconselha evitar gritar ou bater.

A policial Mônica Marques, 40 anos, tem um casal de gatos e um cachorro, e procura estar sempre atenta às atitudes deles. “O gato macho tenta montar tanto nas pessoas quanto no cachorro. Eu não deixo que ele aja dessa maneira. Quando ele começa a fazer isso, o tiro do lugar.” Ela também conta que os visitantes que tiveram contato com alguma cadela no cio costumam atrair o cachorro. “O instinto fala bem mais alto. É da natureza, mas como eles não estão no meio selvagem, nós tentamos evitar”, avalia Mônica.

A professora Christine Souza, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Brasília, indica que castrar pode ser uma solução viável. “Ocorre mais com machos não castrados, devido à influência do hormônio testosterona. O ideal é castrar assim que o animal começa a agir dessa maneira, antes de virar um hábito.”

Ela enfatiza, no entanto, que é preciso analisar o ambiente e o relacionamento com as pessoas e os outros bichos. “Às vezes, o problema é porque o animal está pouco ou muito à vontade na casa. Não tem uma solução única, e é possível procurar opções menos traumáticas que a castração”, afirma.

Homossexualidade no reino animal
Mesmo que muitos estudiosos descartem a ideia de homossexualidade, o tema gera controvérsias. “Ainda é tudo muito especulativo nessa área, não dá para afirmar com certeza. Existem estudos em animais selvagens, mas sem muita relação com animais domésticos”, pondera a veterinária Christine Souza, da UnB. Alguns casos são bastante representativos e intrigantes.

O comportamentalista canino Renato Buani relata a conduta de uma cadela da raça border collie com a qual ele teve contato. Ela foi comprada para reprodução, mas recusava todos os machos. Após realizar uma bateria de exames, os níveis hormonais e demais resultados estavam todos dentro do normal, e a cachorra não apresentava nenhum problema de relacionamento com o principal pretendente masculino. No entanto, ela se mostrava interessada nas fêmeas e foi necessário optar pela inseminação artificial.

Um dos principais pesquisadores da área, o biólogo canadense Bruce Bagemihl, afirma que o comportamento homossexual foi documentado em mais de 450 espécies em todo o mundo e inclui uma variedade de práticas. O cortejo para atrair membros do mesmo sexo, a estimulação genital e a formação de pares que, por exemplo, chocam ovos “adotivos” são padrões presentes em animais como pássaros, baleias e macacos.

Em livro publicado em 1999, Biological exuberance, ele também inclui comentários sobre observações em animais domésticos. O pesquisador acredita que a compreensão do fenômeno foi prejudicada pelo preconceito ao lidar com o assunto e principalmente por desafiar a ideia de que o sexo é voltado de forma exclusiva ou primordialmente para gerar descendentes. Aliviar tensões sociais, aumentar a coesão do grupo e a simples sensação de prazer são outras motivações que ele acredita serem igualmente importantes para a prática sexual.

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