Supervacina contra o HPV protege contra nove subtipos do vírus e previne câncer
Vacina já foi testada em humanos e pode estar disponível em 2015. A nova fórmula também deve evitar cerca de 90% dos casos de câncer de colo do útero
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Na vacina multivalente são adicionados imunizantes contra os subtipos 31, 33, 45, 52 e 58. Incluídos na categoria de alto risco, eles têm probabilidade maior de persistir e são associados a lesões pré-cancerígenas. O perigo foi confirmado em pesquisa realizada por especialistas da Universidade de Viena (Áustria) e publicada na edição de hoje da revista da Associação Americana de Pesquisa em Câncer, a Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention. No estudo, a equipe de Elmar Joura analisou a atribuição de lesões cancerígenas a 12 genótipos do HPV para a infecção e a doença cervical. Os nove subtipos incluídos na vacina foram percebidos como causa da maioria dos pré-cânceres cervicais.
O objetivo dos pesquisadores era estudar quantas lesões desse tipo poderiam ser prevenidas por uma investigação de vacina multivalente contra o HPV. Cerca de 12 mil mulheres imunizadas com a quadrivalente foram acompanhadas, sendo que 2.507 delas receberam, anos depois, o diagnóstico de um de três graus de neoplasia intraepitelial cervical (NIC) ou de adenocarcinoma in situ (AIS) — todas lesões pré-cancerígenas. A partir desses dados, os cientistas buscaram estimar o número de pré-cânceres que podem ter tido como causa os cinco subtipos de HPV não contidos na vacina quadrivalente. Verificou-se que eles estavam em 55% das NIC de grau 1, 78% das NIC de grau 2, 91% das NIC de grau 3 e quase 100% das lesões AIS.
A equipe descobriu ainda que, das mulheres com idades entre 15 e 26 anos que tiveram pré-cânceres, 54% apresentaram uma só infecção por HPV, e 32% estavam infectadas com mais de um tipo do micro-organismo. Daquelas entre 24 e 45 anos com pré-cânceres, 59% estavam com um tipo e 19% com mais de um. Joura acredita que, apesar do perfil de segurança das vacinas atuais contra o HPV, é preciso melhorar a proteção. “Para alcançar o potencial em nível populacional da vacina contra o HPV e reduzir o câncer, a eficácia deve aumentar.”
Os subtipos 16 e 18 são responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de câncer de colo do útero. O primeiro deles é a causa mais comum e responde por cerca de metade dos casos em todas as regiões do mundo, inclusive no Brasil. Já o 6 e o 11 provocam aproximadamente 90% das verrugas genitais (uma das doenças sexualmente transmissíveis mais notificadas no mundo) e cerca de 10% das lesões de baixo grau de agressividade do colo do útero. Com a adição dos imunizantes para outros cinco micro-organismos, a proteção contra o câncer de colo do útero alcança quase 90%.
“Cerca de 85% ou mais das lesões pré-cancerígenas de colo do útero foram atribuídas aos nove subtipos cobertos pela vacina. Portanto, se os programas de vacinação multivalente forem efetivamente implementados, a maioria dessas lesões poderá ser evitada”, garantiu Joura. A possibilidade de uma proteção ainda maior que 85% se deve à proteção cruzada. Essa propriedade consiste na capacidade de uma vacina de imunizar o indivíduo contra outros subtipos de vírus que não são o principal foco da aplicação, isto é, mesmo sendo preparada para proteger contra alguns determinados vírus, a vacina conseguiria agir, mesmo com menor força, sobre outros patógenos.
Para breve
O chefe do Centro de Pesquisa Clínica Projeto HPV, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, Edson Fedrizzi, participa da pesquisa que confirma a eficácia da vacina multivalente em 33 países. Ele acredita que o imunizante estará disponível comercialmente a partir do segundo semestre de 2015 ou no início de 2016. “A vantagem é que incluiremos outros cinco tipos de HPV, o que representa mais 20% de proteção”, diz Fedrizzi, membro da Comissão de Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Segundo ele, a vacina multivalente, assim como as demais, poderá ser usada por homens e mulheres que já tiveram contato com os vírus, foram infectados ou apresentam lesões. Isso porque uma pessoa que teve a infecção e produziu anticorpos para combatê-la não está protegida de novas infecções. Os anticorpos que o organismo produz naturalmente são diferentes do que a vacina é capaz de estimular. “Os anticorpos originados pela vacina previnem que os vírus já presentes infectem novas células. Então, mesmo a mulher que tem a doença ou uma lesão vai se beneficiar porque evita que outras células se contaminem.”
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Ainda mais proteção
“Hoje, temos uma vacina muito boa, que protege contra quatro subtipos do vírus. Mas, com certeza, ter uma vacina que atinge nove subtipos do HPV é ainda melhor. Isso é inegável, pois aumenta em mais de 20% a proteção aos indivíduos, saindo de 70% para quase 90% de imunização. Os cinco HPVs acrescidos são mais raros, mas com potencial letal significativo. É importante também reforçar a segurança da vacina que temos hoje, sem qualquer efeito colateral mais grave. Esse deve ser o padrão das novas estratégias ainda mais potentes que devem surgir nos próximos anos.”
Rosana Richtmann, membro do Comitê de Imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia