Jovens de hoje têm menos amigos íntimos; entenda os motivos

Segundo cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, os jovens têm limitando o círculo de amizade para 'turbinar' número de conhecidos na Internet

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Correio Braziliense Publicação:05/02/2015 09:30Atualização:05/02/2015 10:21
Uma das mais básicas relações interpessoais, a amizade pode ter várias razões: sentir-se amado, aceito em um grupo, entendido, acompanhado. Essa vontade de conviver e sobreviver em grupo vem do início da espécie humana. Mas, nos tempos modernos, ganha uma faceta no mínimo intrigante, indica um estudo australiano. Segundo cientistas da Universidade de Queensland, os jovens estão se tornando autossuficientes e limitando o círculo de amizade a um número cada vez menor de pessoas, consideradas íntimas e fiéis.

“As pessoas tornaram-se menos dependentes da família e precisam de habilidades mais especializadas, o que pode ter levado a um menor interesse em apoio social e a maior autossuficiência”, aponta David Clark, líder da pesquisa. Os cientistas chegaram a essas conclusões após um estudo dividido em duas etapas. Na primeira, analisaram trabalhos anteriores que trataram do sentimento de solidão entre universitários, de 1978 a 2009. A avaliação mostrou um declínio modesto na sensação ao longo do tempo, sendo que as mulheres relataram ter menos o problema.
Erick e a mãe, Marta, adoram usar a internet. Ele fala muito com os amigos pela rede. Ela prefere a tradicional conversa com cafezinho ( André Violatti/Esp. CB/D.A Press)
Erick e a mãe, Marta, adoram usar a internet. Ele fala muito com os amigos pela rede. Ela prefere a tradicional conversa com cafezinho

Clark ponderou que os resultados poderiam ser limitados. O grupo analisou, então, uma amostra maior de estudantes do ensino médio, entre 1991 e 2012, e também detectou uma queda leve no sentimento de solidão generalizada, principalmente entre as jovens brancas. Mais a fundo, porém, descobriu-se que houve aumento num problema classificado pelos cientistas como isolamento de rede social. “Os estudantes percebem menos solidão, mas as interações sociais estão mais pobres. Estudantes do ensino médio relataram poucos amigos com quem interagir, mas menos desejo de tê-los”, explica o pesquisador.

Segundo a neuropsicóloga Ligia Menezes, no caso dos jovens, as mudanças constantes no estilo de vida fazem com que haja menor necessidade de amigos. A especialista ressalta, porém, a importância da internet nesse contexto de relações interpessoais. “Entre os universitários e os estudantes do ensino médio, a solidão parece ter tido um pequeno declínio, o que tem relação direta com as novas formas de comunicação, as redes sociais principalmente”, diz.

Na fase adulta, acredita a especialista, mesmo com a vida atarefada, os encontros parecem ser mais valorizados. “Os melhores amigos são como membros da família. Assim, estão sempre presentes, compartilham problemas e alegrias; enfim, são amizades que requerem dedicação e contato direto”, diferencia.

Novas atitudes
Erick Anderson, 14 anos, tem seis melhores amigos. Quatro são da própria família e dois estudam com ele. “Considero as pessoas em quem eu confio meu pai, minha mãe, o tio Paulinho, o meu primo Matheus, e a Isabela e o Victor Hugo, que estão comigo na mesma sala há três anos”, detalha. O estudante conta que já teve grandes amizades na rua em que mora, mas perdeu o contato com eles há cerca de cinco anos, quando os amigos se mudaram.

A mãe de Erick, Marta Celene, 50, diz que ele não é muito diferente do que ela era quando tinha a mesma idade. “Morava em cidade de interior, brincava com muita gente na rua. Mesmo assim, tinha uma ou duas amigas no máximo. Vejo a mesma coisa no Erick. Ele conversa e brinca com todo mundo, mas só se abre com poucas pessoas”, conta. Ela comemora o fato de o filho ser seletivo, afastar-se de quem tem atitudes das quais não gosta, como no caso de “garotos metidos”.

Erick é usuário rotineiro da internet, assim como a mãe, mas ela não abre mão de um antigo meio de contato: o tradicional cafezinho. “Prefiro ir até a casa da pessoa, conversar pessoalmente, fazer um lanchinho. Mesmo que demore um pouco, eu vou”, diz.

O filho age de forma diferente. “Para sair, tenho um grupo maior do que o dos meus melhores amigos. Mas nem com eles falo ao telefone”, conta. Ele diz que é tudo marcado nas redes sociais. “Nós saímos bastante. Vamos ao shopping, ao clube, mas, para marcar ou conversar, é Whats-App, Facebook e Snapchat”, lista.

Marta percebe o comportamento distinto e diz ter entendido melhor Erick depois de ter entrado na faculdade, há um ano. “Tudo mudou daquele tempo para cá. Vejo que os jovens têm outros valores, outros interesses, são mais rápidos”, compara. Ainda assim, para não afastar o filho do calor humano, ela diz que sempre o incentiva a sair. “Quando era menor, não o deixava em casa. Levava para jogar bola, ir com os amigos para a piscina, ficava sentada na rua para ele brincar com os amiguinhos de esconde-esconde.”
Gabriel Franca se considera sociável mesmo usando bastante o Facebook e o WhatsApp (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Gabriel Franca se considera sociável mesmo usando bastante o Facebook e o WhatsApp

Mudanças na fase adulta

A estudante Letícia Barbosa, 18, tem dois melhores amigos: Maria e Douglas. Letícia e Douglas se conheceram há oito anos na escola, e a dupla nunca passa mais de um dia sem conversar. Detalhe: ele mudou-se, no ano passado, para o Rio de Janeiro. A amizade com Maria começou há 15 anos, quando a mãe trabalhava na casa da menina. “Às vezes, ela não tinha com quem me deixar e me levava. Assim, comecei a brincar com a Maria”, conta. Segundo a jovem, as duas fazem tudo juntas; gostam de ver filmes e ir à igreja.

As amizades de Letícia comprovam quão complexa são essas relações na juventude, conforme constatado no estudo da Universidade de Queensland. Ao mesmo tempo em que fazem mais contatos virtuais, os jovens preferem ter apenas alguns amigos, mas com laços mais fortes.

Segundo a psicóloga Vanessa Cardoso, esse entendimento mais íntimo entre as pessoas é importante em todas as fases da vida, mas, na juventude, entra na constituição de personalidades. “É em grupo que os jovens trocam percepções de como estão vivenciando a fase de formação”, explica. Ela diz que a troca com o outro também permite o autoconhecimento: “Na medida em que me relaciono, é possível também que me torne conhecido para mim mesmo e possa me mostrar integralmente ao outro.”

A psicóloga Melissa Cardoso observa que os benefícios da amizade vão mudando. No ensino médio, há uma procura pela identidade. “Já o universitário busca amigos de forma mediana, entre o que eles representam a um adolescente e o que significam para os adultos. Tudo dependerá do desenvolvimento emocional e objetivo na universidade”, compara.

Vanessa Cardoso observa que há uma diminuição significativa dos contatos após o início da carreira. Isso ocorre devido à entrada no mercado de trabalho e a novas preocupações afetivas. “Acredito que essa pesquisa se aplica ao Brasil. A solidão e, talvez como fruto dela, a depressão têm crescido ano a ano, e a disponibilidade interna para viver uma relação de amizade profunda, diminuído.”

Falta consenso entre especialistas
Especialista em psicologia transpessoal, Melissa Santana avalia como é importante os pais e as mães provocarem os filhos para terem diferentes contatos sociais, uma vez que, segundo ela, a internet pode ser traiçoeira. “Estamos acompanhando uma quantidade de ‘amigos’ por uma tela e perdendo a sensibilidade do contato humano, o olhar no olho, o tocar por meio de um abraço, o aperto de mão, o ir ao parque, a reunião em casa. Com isso, as pessoas têm sentido várias emoções, inclusive a solidão”, lamenta.

A neuropsicóloga Ligia Menezes tem uma visão um pouco diferente dessas relações modernas. Para ela, as redes sociais trazem um novo jeito de conhecer pessoas e fazer amigos. “Para muitos, esses novos contatos podem ser vistos como uma amizade mais superficial, mas que se encaixa na nossa rotina e acaba por diminuir a sensação de solidão”, pondera.

No caso de Gabriel Franca, 14, estar sozinho não significa ser sozinho. A mãe dele, Zulene Franca, acredita que o jovem equilibra bem o tempo dedicado às coisas dele e o com os amigos. “Ele é muito sociável, sempre o incentivo a trazer os amigos para casa. Vêm aqui muito, brincam na piscina, jogam bola e videogame”, diz a funcionária pública, que completa que, quando o filho está só, fica bastante tempo no Facebook e no WhatsApp.

Troca de gerações
Apesar de jovens e adultos lidarem com a amizade de forma distinta, a troca de experiências e valores entre eles pode ser enriquecedora, diz a psicóloga Melissa Santana. Filhos podem facilitar a estreia de pais, tios e avós na infinidade de recursos do mundo digital. Os mais velhos, reforçar a importância de que há momentos em que nem mesmo a mais rápida das redes pode substituir um encontro de carne e osso.

“A presença do pai e da mãe na vida dos filhos faz toda a diferença. Esse contato inicial os ensina a se relacionar e interfere em tudo o que vem depois, nas amizades, na escolha da profissão, nos relacionamentos amorosos. Se a família pode e tem condição de estar presente, esteja”, defende. A especialista, porém, ressalta que, após certa idade, as escolhas são responsabilidades dos filhos, não mais dos pais.

"Estamos acompanhando uma quantidade de ‘amigos’ por uma tela e perdendo a sensibilidade do contato humano, o olhar no olho (…). Com isso, as pessoas têm sentido várias emoções, inclusive a solidão” - Melissa Santana, especialista em psicologia transpessoal

"Para muitos, esses novos contatos podem ser vistos como uma amizade mais superficial, mas que se encaixa na nossa rotina e acaba por diminuir a sensação de solidão” - Ligia Menezes, neuropsicóloga



Brasileiros conectados
Divulgado no fim do ano passado, o estudo Pesquisa de Mídia Brasileira 2015, encomendado pela Comunicação Social da Presidência da República, mostra o quanto a internet tem se consolidado na rotina dos brasileiros. A sondagem indica que passamos em média quatro horas e 59 minutos por dia usando a rede mundial de computadores durante a semana, e quatro horas e 24 minutos/dia nos fins de semana. No caso da televisão, o tempo dedicado é de quatro horas e 31 minutos e quatro horas e 14 minutos, respectivamente. Dos usuários, 76% acessam a rede todos os dias. Sessenta e sete por cento em busca de informações ou notícias. O mesmo percentual querendo entretenimento. Entre os jovens com até 25 anos, 63% usam a rede todos os dias. O percentual cai para 4% na faixa etária de 65 anos ou mais.

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