PALAVRA DA FUNDAÇÃO

Artigo - Por mais educação no trânsito

Construir soluções viáveis e seguras para mobilidade urbana de mais qualidade, baseadas na solidariedade. É o que defende o nosso analista de projetos Felipe Freitas


Publicação: 01/09/2015 14:50 | Atualização: 02/09/2015 14:13
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Motoqueiro caminhão pedestre
Carro importado carro nacional

Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local

Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral

A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial


Lenine. Rua da passagem.

 

Por Felipe Freitas*

 

No espetáculo cotidiano do trânsito, somos todos protagonistas.

 (Freepik)
O trânsito é algo tão fundamental na vida dos cidadãos que o tema é objeto de estudo não só da engenharia ou do direito, mas também da filosofia, antropologia, ecologia, semiótica... E é urgente que entre de vez no campo da educação.

Vivemos numa sociedade com cada vez menos tempo disponível. É preciso correr para não ficar para trás. Daí surgem tentativas constantes de fazer com que os deslocamentos sejam mais rápidos. Em comparação com países desenvolvidos, no Brasil são insuficientes os investimentos em transporte público. Então, a solução mostrou-se óbvia durante a abertura econômica das últimas décadas: o veículo motorizado individual.

O crescimento da renda e a expansão do crédito impulsionaram a indústria daquele que é um dos maiores sonhos do brasileiro, o carro. Foram milhões de novos veículos e outros milhões de novos condutores que chegaram às ruas sem estarem devidamente preparados. Prova disso são os índices de violência no trânsito, diretamente proporcionais a esse aumento. O assunto é sério e ganha cada vez mais prioridade na pauta de organizações da sociedade civil, comissões parlamentares, secretarias estaduais e municipais Brasil afora.

Todos – motoristas, pedestres, ciclistas, motociclistas – somos atores do espetáculo diário do trânsito. E se cada um não souber a importância do seu papel, o momento de entrar em cena, quando sair do palco ou a hora de deixar o outro agir, a tragédia tende a instalar-se. Infelizmente é o que vem acontecendo. Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, a violência no trânsito mata cerca de 45 mil pessoas por ano no Brasil. Em termos absolutos, é o 4º país do mundo com maior número de mortes, atrás somente da China, Índia e Nigéria.

Objeto de desejo
O carro domina as ruas, avenidas e rodovias das cidades. Mas além de um objeto com função prática, o carro é um item de desejo. É simbólico e fetichista. A posse do veiculo motorizado faz com que seu dono sinta-se com mais direitos sobre o espaço público. É o principal símbolo de poder e sucesso de uma sociedade baseada no consumo.

Márcia Tiburi, filósofa e ensaísta, avalia em um artigo para a revista Cult (Mania de carrão, ed. 178) a intensidade dessa relação: “Os carros nas grandes cidades congestionadas surgem como marcadores de lugar: quem pode mais ocupa mais espaço em relação a quem pode menos[...] Da bicicleta ao carro blindado, do ônibus que sai da periferia à Ferrari, cada um é reduzido ao transporte que usa.”

A imagem de poder que envolve o carro é formada em várias etapas de construção de sentido. A potência, a sensação de segurança e as possibilidades de aventura vêm relacionadas a um modelo social há muito saturado. Começa com o brinquedo “óbvio” para os meninos: um carrinho, ou muitos deles, de pequenos colecionáveis a tratores e caminhões. Logo depois, as propagandas de automóveis com aquele roteiro clássico: ao protagonista (homem, bem-sucedido e decidido) promete-se plena realização pessoal, poder ilimitado e a certeza de tornar-se alvo de admiração. À mulher cabe o papel de coadjuvante com a função de ser seduzida. O efeito colateral imediato da situação exprime-se por estatística revelada pelo Portal do Trânsito Brasileiro: 79% dos mortos em acidentes são do sexo masculino.

Educação de base
O efeito colateral mais profundo é que tal contexto gera relações de poder que promovem falsos sentimentos de superioridade. Muitas vezes resulta daí a má conduta ao volante, a ideia de “posso tudo”, o desrespeito ao próximo e uma consequente deterioração do tecido social. O trânsito é reflexo dos nossos níveis de educação. E basta uma observação superficial para mostrar que nosso comportamento está fundamentado em paradigmas ultrapassados.

Por isso é que toda a sociedade precisa comprometer-se em construir soluções viáveis e seguras para uma mobilidade urbana de mais qualidade, baseadas na alteridade e solidariedade, pois as raízes da violência no trânsito são muito mais profundas do que parecem à primeira vista. E só a educação pode reverter esse processo.

Apesar de o cidadão ver o seu veículo como símbolo de poder e ocasionalmente abusar desse predicado, as leis de trânsito existem para todos e por todos devem ser seguidas. O antropólogo Roberto DaMatta, no estudo que deu origem ao livro Fé em Deus e pé na tábua (Ed. Rocco), identifica um interessante embate nesse sentido. Historicamente vivemos um modelo de educação que não valoriza o respeito às leis. Está profundamente enraizado em nossa cultura o chegar na frente a todo custo. No entanto, o trânsito é um espaço anônimo, impessoal e regido por leis igualmente impessoais. O sinal não abrirá mais cedo para o carro maior e mais caro ou a faixa de pedestre perderá a função quando quem tiver que parar for alguma autoridade. A solução? Sempre e novamente a educação.

O cenário ainda mostra-se precário, mas não precisa desabar de vez para tomarmos providência. É possível mudar se investirmos em educação para o trânsito desde cedo, nas primeiras séries escolares, incluindo o tema no currículo e conscientizando as crianças. O desfecho da história de mais ninguém precisa ser trágico devido ao mau comportamento nas ruas de passagem das nossas cidades.

 

*Felipe Freitas é analista de projetos da Fundação Assis Chateaubriand

 

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